Houve um tempo em que a chegada da Copa do Mundo mudava a paisagem das cidades brasileiras. As ruas eram enfeitadas com bandeirinhas. Muros ganhavam as cores da seleção. Ruas com bandeiras e bandeirolas. Bares, escolas, prédios e casas se vestiam de verde e amarelo. A Copa não era apenas um torneio de futebol. Era um acontecimento público, uma interrupção alegre da rotina, uma espécie de licença coletiva para acreditar no Brasil. O futebol como motivo de orgulho de um Brasil grande.
Em 1982, o clima de otimismo com a copa do mundo era intenso. A seleção brasileira formava seu melhor time desde o tricampeonato, em 1970. Havia Telê Santana no banco, o time possuía um meio de campo excepcioonal, com Toninho Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates. Sem falar do restante do elenco, com Leandro, Júnior, Éder.
Como curiosidade, havia um torcedor-símbolo para aquela seleção. Era Pacheco, o “camisa 12”, criado pela Gillette como um torcedor fanático e apaixonado pela seleção.

Muitas vezes este clima de copa do mundo era animado por uma trilha sonora específica. A cada Copa surgiam músicas que celebravam a seleção, convocavam a torcida e transformavam o campeonato em acontecimento sentimental. Algumas eram feitas para a publicidade, outras para o disco, outras para o rádio e a televisão. Mas, quando pegavam, deixavam de ser apenas músicas de ocasião. Viravam pequenos hinos de Copa. Ajudavam a criar o clima, a organizar a esperança, a dar forma musical à confiança popular.
A Globo colocava, como trilha sonora, uma nova versão de “Pra frente Brasil”, que ficou marcada (com alguma polêmica) como o hino do tricampeonato de 70. Havia também “Voa, Canarinho”, cantada por Júnior (craque daquela seleçao), que associava a selação ao “canarinho”, ave que funciona como um mascote da seleção.

Mas a música mais bonita feita para aquela seleção foi “Sangue, Swing e Cintura”, de Moraes Moreira. A música nasceu como celebração daquela seleção e daquele momento. Era uma canção de confiança. Falava do caminho de fé, futebol e arte que seria a marca do Brasil na Copa de 1982.
Moraes já era um aficcionado por futebol. Nos Novos Baianos, grupo do qual Moraes foi uma das figuras centrais, música e bola faziam parte do mesmo modo de vida. O grupo, no início dos anos 70, mudou-se para um sítio, onde havia havia dois campos de futebol, um deles com dimensões oficiais, e que parte do dinheiro recebido com Acabou Chorare foi usada para comprar camisas, shorts e chuteiras personalizadas para a equipe. A bola, ali, não era passatempo lateral. Era método de convivência.
Não por acaso, em 1973, o grupo lançou o disco Novos Baianos F.C., pela Continental.

Por isso, “Sangue, Swing e Cintura” deu continuidade à paixão de Moraes Moreira pelo futebol.
A música celebra o Brasil como terra do futebol. Pelé aparece como rei. Garrincha surge como memória possível de renascimento. A escola é de samba. A bola é arte do povo. Não há ali a linguagem da eficiência, da força, da obediência tática ou do resultado a qualquer preço. Moraes fala em futebol como arte. Arte do povo, com corpo, ritmo, improviso, ginga, sabedoria. O título já diz tudo: sangue, swing e cintura.
Mais do que um hino da Copa, Moraes estava descrevendo uma forma brasileira de jogar. A bola no pé, a cintura solta, a inteligência do corpo, a alegria coletiva. A seleção de 1982 parecia permitir exatamente essa leitura.
A Música relata as particularidades do Brasil, “a terra do futebol”, em que o rei é Pelé, a escola é de samba e a bola “é a arte do povo”, e que diz que quem sabe tem um craque “quebrando a casca do ovo”, e que o “craque brasileiro tem sabedoria”, numa mistura de “fé, futebol e arte” inigualáveis.
A música, com um arranjo de instrumentos de sopro, é uma marcha-frevo, e inspirava a confiança de uma seleção que mudou a história do futebol, mesmo não sendo campeã.
Zico aparece como o Galinho. Sócrates aparece com seu gesto mais característico, o passe de calcanhar. Telê é tratado como fio de esperança. A canção monta uma pequena mitologia: Pelé, Garrincha, Zico, Sócrates, Telê. O passado glorioso, o presente encantado e a expectativa do título.
Vista de hoje, a confiança da música tem alguma melancolia. Antes do jogo contra a Itália, no Sarriá, o Brasil tinha vencido suas quatro partidas e marcado treze gols. Precisava apenas do empate para chegar à semifinal. A seleção de Telê era uma das favoritas do torneio e que aquele meio de campo, com Zico, Sócrates e Falcão, encantava o mundo.

A derrota por 3 a 2 para a Itália transformou a canção em lembrança de um instante interrompido. Paolo Rossi acordou justamente naquele jogo.
Talvez por isso “Sangue, Swing e Cintura” ainda emocione. Ela ficou guardada na memória daqueles jogos contra a União Soviética, Escócia, Nova Zelândia e Argentina. Antes do jogo no Sarriá deixar uma marca triste nos gols de Paolo Rossi. virar trauma. . A música conserva aquela seleção no momento em que tudo ainda parecia possível.
Ficou a lembrança da música e do futebol-arte. Ficou também a impressão de que Moraes Moreira entendeu aquela seleção porque já vinha de um lugar parecido. Nos Novos Baianos, ele tinha aprendido que música e futebol podiam nascer do mesmo gesto: a ginga, o drible, a invenção, a alegria coletiva. Em 1982, por algumas semanas, a seleção brasileira pareceu jogar como se fosse um disco dos Novos Baianos.
Talvez por isso continue tão bonita. Porque não é apenas uma música sobre uma Copa que o Brasil perdeu. É uma música sobre uma forma de acreditar no futebol. E, talvez, sobre uma forma de acreditar no Brasil.
Não foi campeã. Mas talvez nenhuma seleção derrotada tenha deixado tanta música no ar.
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