“Pra que mentir” é um samba de Noel Rosa com Vadico, composto em 1937, ano da morte de Noel, e lançado por Silvio Caldas no início de 1939. A destinatária e musa da canção é Juraci, a Ceci, dançarina do Cabaré Apolo, na Lapa, que Noel conheceu quando ela tinha 16 anos e que foi o grande amor da sua vida. Para ela, ele compôs pelo menos oito sambas, entre eles “O maior castigo que te dou” e “Último desejo”.

A música fala de uma mentira. Eduardo Alcântara de Vasconcellos, em Noel Rosa para ler e ouvir (2004), relata que Ceci insistia em dizer que seu caso com Mário Lago, rival de Noel, não era sério.
O eu-lírico da letra é um homem que pega a mulher amada numa mentira. Ele não se escandaliza com a mentira em si. O que o fere é ela mentir mal: “Pra que mentir, se tu ainda não tens esse dom de saber iludir?”. Por trás da pergunta está uma ideia que ele nem se dá ao trabalho de defender: enganar é coisa de mulher, é a “malícia de toda mulher”, e essa moça só não aprendeu ainda. A mágoa vem com ironia. Ele sabe de tudo, inclusive que ela gosta de outro, e fala de cima, como quem desmascara.
Pra que mentir?
Se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir
Pra que, pra que mentir?
Se não há necessidade de me trair
Pra que mentir?
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher
Pra que mentir?
Se eu sei que gostas de outro
Que te diz que não te quer
Pra que mentir tanto assim?
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim
Tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido
Pra que mentir?
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher
Pra que mentir?
Se eu sei que gostas de outro
Que te diz que não te quer
Quatro décadas depois, Maria Creuza pediu uma canção inédita a Caetano Veloso, e ele escreveu “Dom de iludir”, gravada por ela em 1977 e popularizada por Gal Costa em 1982. Caetano contou depois, em Sobre as letras, que a fez “respondendo, ponto por ponto” ao samba de Noel, e disse que gostava dela “por ter uma letra transfeminista”. A resposta é dada pela mulher, que em Noel só era acusada.
Ela começa recusando a generalização: “Não me venha falar na malícia de toda mulher”. No lugar do estereótipo, põe o indivíduo: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Depois recusa a posição de suspeita que o samba lhe dava: “Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim”.

Em “Cale a boca e não cale na boca notícia ruim”, Caetano repete o verbo e muda a sintaxe . Na primeira metade, “a boca” é o que se cala. Na segunda, “boca” vira o lugar, e o que não deve ser calado é a “notícia ruim”. “Calar” ainda guarda o sentido de penetrar, de calar fundo. Num único verso, a mulher manda o homem se calar e exige que ele não esconda a verdade dela.
A virada vem na estrofe final. Ela descreve um homem que tem tudo: “Você sabe explicar, você sabe entender… você é, você faz, você quer, você tem”.
Ele tem a palavra, o saber e o poder. E conclui: “Você diz a verdade, e a verdade é seu dom de iludir”. O dom de iludir, que Noel atribuía à mulher, muda de lado. Quem ilude é quem controla o discurso e faz da própria verdade um instrumento. Daí a pergunta que encerra a canção: “Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?”. A mentira deixa de ser defeito de caráter e passa a ser defesa dentro de uma relação desigual.
Noel pergunta por que ela mente. Caetano responde que é por causa de quem pergunta.
Não me venha falar na malícia
De toda mulher
Cada um sabe a dor e a delícia
De ser o que é
Não me olhe
Como se a polícia andasse atrás de mim
Cale a boca e não cale na boca
Notícia ruim
Você sabe explicar
Você sabe entender tudo bem
Você está, você é
Você faz, você quer, você tem
Você diz a verdade
A verdade é o seu dom de iludir
Como pode querer
Que a mulher vá viver sem mentir
Não me venha falar na malícia
De toda mulher
Cada um sabe a dor e a delícia
De ser o que é
Não me olhe
Como se a polícia andasse atrás de mim
Cale a boca e não cale na boca
Notícia ruim
Você sabe explicar
Você sabe entender tudo bem
Você está, você é
Você faz, você quer, você tem
Você diz a verdade
A verdade é seu dom de iludir
Como pode querer
Que a mulher vá viver sem mentir

Em 1986, no disco ao vivo Totalmente demais, o próprio Caetano gravou as duas canções em sequência, só com voz e violão. Quem ouve escuta primeiro a pergunta de Noel e logo depois a resposta.
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