Nossa Canção: como Luiz Ayrão transformou uma lembrança em clássico na voz de Roberto Carlos

Na década de 60, Roberto Carlos surgia para o mundo como o cantor de uma onda de música jovem, embalada numa onda de rock’n roll. Seu programa, Jovem Guarda, nas televisões nas tarde de domingo, na TV Record em São Paulo, fazia de Roberto Carlos um ídolo da música jovem e irreverente.

Mas ele já começava a mostrar também um lado romântico, presentes, de uma forma ou de outra, nos seus discos dos anos 60, embora prevalecesse o ar divertido e bem humorado a partir do disco “Splish Splash”, de 1963 (O disco “Louco por você”, de 1961, com inspiração clara da bossa nova, foi renegado por Roberto Carlos – mas isso é outra história).

“Nossa Canção” pertence ao grupo da canções românticas de Roberto. Composta por Luiz Ayrão e gravada por Roberto Carlos em 1966, ela se firmou como uma das baladas românticas mais marcantes daquele período. Ela ela sinaliza uma inflexão importante na trajetória de Roberto. O Dicionário Cravo Albin a registra como o primeiro grande sucesso romântico do cantor.

A origem da canção é relatada pelo biógrafo não autorizado de Roberto, Paulo César de Araújo, no livro “Roberto Carlos: outra vez” (Record, 2021, p. 465), quando fala da inspiração de Luiz Ayrão:

Era um fim de tarde, em meados daquele ano. Ele chegou cansado do trabalho e foi descansar embaixo de uma mangueira que seu pai plantara em frente à varanda da casa. Acompanhado do violão, distraía-se cantando algumas canções, uma das quais “Yesterday”, dos Beatles, que estava nas paradas de sucesso. Luiz Ayrão gostava tanto dessa música que, depois de tocá-la duas, três vezes, sentiu vontade de criar alguma coisa naquela linha romântica, saudosa, moderna e pop. Por que não compor a sua própria “Yesterday”? Pois naquele momento, tal qual no tema de Paul McCartney, o passado chegou subitamente para Luiz Ayrão, o tempo da adolescência, quando o amor parecia um jogo fácil. E lembrou-se de Ana, uma namoradinha que conhecera ali mesmo, no subúrbio, e para quem havia composto uma de suas primeiras músicas, que nunca chegara a ser gravada: “Nossa canção, oh! meu amor, eu canto sempre onde estou / Pelos caminhos em que passo vou cantando passo a passo / A canção que eu fiz para nós…”

Luiz Ayrão e Roberto Carlos

Foi dessa atmosfera, que tomava referência dos Beatles e de uma paixão antiga, que surgiu a composição. A letra é simples, quase adolescente, em que se faz referência à lembrança de uma canção do casal (“nossa canção”), e que relembra um amor que terminou e que foi embora.

Há ainda um detalhe especialmente revelador, contado por Paulo César: Luiz Ayrão não pensou, de início, em Roberto Carlos como o intérprete ideal. Embora Roberto já tivesse gravado a canção “Só por amor”,de Ayrão, em 1963, e eles se conhecessem do Bar do Divino, tradicional bar do subúrbio carioca, antes de Roberto Carlos se tornar famoso.

Paule César de Aaraújo continua com a história:

Compositor profissional, Luiz Ayrão criava temas de acordo com o estilo ou o gosto de quem ia gravar. Mas Roberto Carlos não manifestou qualquer entusiasmo com os rocks que o colega apresentou. Este já estava considerando sua viagem perdida quando, no meio da conversa, Roberto recebeu uma chamada telefônica, que atendeu de pé, encostado na parede da sala. Enquanto o aguardava, Ayrão seguiu tocando alguns temas ao violão, inclusive “Nossa canção”. Nesse momento, Roberto interrompeu a conversa ao telefone, colocou uma das mãos no fone, disse para ele: “Essa aí eu gostei”, e seguiu conversando mais um pouco. Ao retornar, pediu para ouvir novamente aquele tema. Luiz Ayrão comentou que pensava em entregá-la para o cantor Luiz Vieira. “Essa música é linda”, disse Roberto. “Você não vai gravar ela com Luiz Vieira, não. Vou preparar um arranjo para incluí-la no meu próximo LP.” O autor não hesitou nem por um segundo e deixou “Nossa canção” com exclusividade para Roberto Carlos.

Interessante que a música tinha apenas a primeira parte da letra:

Olha aqui
Preste atenção
Essa é a nossa canção
Vou cantá-la seja aonde for
Para nunca esquecer
O nosso amor
O nosso amor

Veja bem, foi você
A razão e o porquê
De nascer esta canção assim
Pois você é o amor
Que existe em mim

Só que, quando da gravação, Roberto achou a música pequena, pediu uma nova estrofe ou uma segunda parte. Durante o intervalo do lanche com os músicaos, Ayrão pegou o violão, e em 30 minutos, fez o complemento, aprovado por Roberto:

Você partiu e me deixou
Nunca mais você voltou
Pra me tirar da solidão
E até você voltar
Meu bem eu vou cantar
Essa nossa canção

O álbum de 1966

Roberto não apenas gravou a música: ele a reposicionou. Ao trazê-la para o seu repertório de 1966, incorporou-a a um momento de transição estética em que sua imagem começava a se expandir para além do impulso roqueiro da Jovem Guarda. Em outras palavras, a canção não foi apenas um sucesso entre outros; ela ajudou a anunciar um Roberto Carlos que se tornaria, cada vez mais, o cantor das grandes baladas sentimentais.

Tanto que, em 1968, no disco “O inimitável”, de 1968, a música Nossa Canção aparece como música incindental ao final de “As canções que você fez pra mim”.

Pra Luiz Ayrão,a música também fez diferença: passou a ser mais conhecido como compositor, e conseguiu comprar o primeiro carro.

Também vale notar que a história de Nossa Canção não termina em 1966. Luiz Ayrão regravou a música em 1976, o que mostra que a canção permaneceu viva também em sua própria obra, e não apenas como peça consagrada na voz de Roberto. A trajetória posterior inclui ainda regravações e reaparições em outros contextos. Vanessa da Mata gravou a canção em 2002, Bethânia em 2003, e Nana Caymmi gravou para a trilha do filme Lula, o filho do Brasil, em 2009. Isso revela que Nossa Canção sobreviveu ao seu tempo de origem e continuou disponível para novas leituras, novas vozes e novos afetos.

Talvez seja justamente essa a razão de sua permanência. Nossa Canção tem uma base muito pessoal — a saudade, o fim de tarde, a recordação amorosa —, mas sua forma é simples e direta. A memória privada de um amor do passado, eternizado numa canção.

Fontes:

Paulo César de Araújo, Roberto Carlos – Outra Vez. (recoird, 2021)

perfil @mpb_bossa_ no Instagram.

Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

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