Nine out of ten

A canção “Nine out of ten”, gravada no disco “Transa”, de Caetano Veloso, logo após a volta do exílio, tem algumas peculiaridades. Caetano sempre achou que esta era sua melhor música cantada em inglês.

Ela contém um registro histórico. É a primeira vez que a palavra “reggae” aparece numa música brasileira, e o interessante é que  a canção em si mesma não é um reggae, que, como ritmo musical, ainda estava se consolidando no final da década de 60.

Sobre esta canção, Caetano Veloso afirmou, em junho de 1986, no programa “Chico & Caetano”, na Rede Globo, logo após cantar Nine out of ten :

Essa canção que eu cantei fui eu mesmo que compus, eu compus a canção assim mesmo, em inglês, numa língua que não é a nossa, numa época que eu morava em Londres, na Inglaterra.  Porque justo em Londres, estava começando, no bairro onde eu morava, um movimento musical, do pessoal da Jamaica, que me impressionou imediatamente, que veio resultar no reggae, a palavra que já existia, a palavra está dentro dessa canção”

A canção faze referência à Portobello Road, em Londres, local onde os os jamaicanos faziam aquela música, o ska, o rocksteady, que estava se transformando naquilo que viria a se transformar no reggae. Caetano simplesmente exalta o fato de se sentir vivo ao andar pela Portobello Road e ouvira a música que se fazia na Jamaica. É como se a música o livrasse da letargia, do frio e da tristeza de Londres na época em que caetano estava exilado.

Portobello Road

Sobre o álbum, Caetano declarou em uma entrevista ao Jornal do Brasil, disponível no sítio digital oficial do próprio Caetano:

Tem a Nine out of Ten, a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul McCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Markey e The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70. Gosto do disco todo. Me orgulho imensamente deste som que a gente tirou em grupo

Walk down portobello road to the sound of reggae
I’m alive
The age of gold, yes the age of
The age of old
The age of gold
The age of music is past
I hear them talk as I walk
Yes, I hear them talk
I hear they say
“Expect the final blast”
Walk down portobello road to the sound of reggae
I’m alive

I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
Feel the sound of music banging in my belly
Know that one day I must die
I’m alive

I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
In the eletric cinema or on the telly, telly, telly
Nine out of ten movie stars make me cry
I’m alive
And nine out of ten film stars make me cry
I’m alive

Fontee: http://www.irradiandoluz.com.br/2008/08/caetano-veloso-na-vanguarda-da-musica.html

Copo Vazio

A música “Copo Vazio”, composição de Gilberto Gil, foi gravada por Chico Buarque no disco “Sinal Fechado” (1974), em que Chico grava canções de outros compositores, devido à dificuldade de aprovação de suas músicas pela censura federal, na época da ditadura. A letra da canção é magnífica, misturando o vazio do copo que está cheio de ar, com o olhar vazio de um rosto que está cheio de dor; o ar é substituído pelo vinho, que visa substituir a dor, que está cheia num rosto vazio, assim como vazio está o copo – mas cheio de ar.

A música foi feita sob encomenda para Chico Buarque, e Gil conta como fora a composição da Música:

Quando Chico me pediu, pensei: “meu Deus, fazer uma música para Chico!”. Achei melhor procurar algo que ficasse entre o fazer e não-fazer. À noite, o pessoal já tinha ido dormir, peguei o violão, acendi um cigarro, pus vinho num copo e fiquei pensando. Quando olhei, o copo estava vazio. Mas estava cheio de ar. Aí bateu: “É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”. “Isso é filosofia popular, o Chico vai gostar”, pensei”…

No livro “Todas as letras”, organizado por Carlos Rennó, Gil complementa:

Chico Buarque estava sendo hiper-censurado [pela ditadura militar] naquele momento e quis responder a isso fazendo um disco só com músicas de colegas [trata-se do disco Sinal fechado, lançado por Chico Buarque em 1974]. Por isso, pediu ao Paulinho da Viola, a Caetano [Veloso], a mim e a outros que compusessem para ele. Eu estava em casa, sentado no sofá, já de madrugada,…”, aí eu já tomando o processo da criação: “…tinha tomado um copo de vinho no jantar e o copo tinha ficado na mesa. Pensando no que é que eu ia fazer para o Chico, eu, de repente, vi o copo vazio e concentrei o olhar nele para dali extrair emanações de imagens e significados. A princípio, como se para nada obter, mas logo constatando: ‘O copo está vazio, mas tem ar dentro!’ Disso, me vieram idéias acerca das camadas de solidificação e rarefação que vão se sucedendo nas coisas. E, disso, a música. A letra faz uma viagem ao mundo das coisas sutis, transcendentes. Mas suas primeiras frases são muito significativas nos termos do que estava acontecendo: regime de repressão, censura, o Chico privado de sua liberdade artística plena, etc. Embora não fosse essa a intenção principal, as dificuldades da situação contingencial estavam necessariamente metaforizadas e qualquer crítica à canção, em termos de fuga da realidade, esbarraria no fato de que, ao contrário, a letra parte da realidade e não foge dela. Foge com ela, se for o caso.”

 

Gilberto Gil depois regravaria a canção no disco Gil Luminoso, em 2006. Chico e Gil gravaram juntos a canção no projeto do filme “Rio, eu te amo”, em 2014.

 

Fontes: Gilberto Gil: Todas as letras. Org. Carlos Rennó

http://www.nordesteweb.com/not07_0906/ne_not_20060902b.htm

 

Publicado originalmente no http://www.musicaemprosa.com.br em 26 de fevereiro de 2010

Adeus, batucada

Caetano Velloso e Gilberto Gil provocaram uma verdadeira revolução com a Tropicália no final da década de 60. Modernizaram a música popular brasileira, cuja vertente “universitária”, típica dos Festivais da Record, e em seguida, da Globo, era extremamente conservadora.

 A “Frente única da Música Popular Brasileira” negava qualquer influência estrangeira, sobretudo das guitarras elétricas, vistas como uma espécie de símbolo do colonialismo americano (vide uma passeata contra a guitarra elétrica promovida e liderada por Elis Regina, Geraldo Vandré e Edu Lobo, em 1967 – o alvo era Roberto Carlos e a Jovem Guarda, vista como mera imitação do iê-iê-iê decorrente da Beatlemania).

 O movimento da chamada “verdadeira” MPB também rechaçava a produção nacional tida como popularesca e de mau gosto – O símbolo máximo da breguice era Chacrinha.

 Ocorre que, em 1967, Gilberto Gil, com Domingo no parque, e Caetano Velloso, com Alegria, Alegria, causaram furor no festival da Canção da Record, mesmo não tendo vencido o festival (Gilberto Gil ficou em segundo; Caetano, em quarto. A vencedora foi Ponteio, de Edu Lobo). Tudo isso se devia menos ao uso das guitarras elétricas, e mais pelo caráter moderno das músicas, sobretudo a sinestesia que provocam, pois ambas são músicas muito visuais.

 Em 1968, no Festival Internacional da Canção da Rede Globo, o choque ficou mais intenso, comQuestão de Ordem, de Gilberto Gil, e, principalmente, com Proibido Proibir, de Caetano, cujo discurso diante das vaias do público do festival repercute até hoje.

 Caetano e Gil foram presos, e, em seguida, exilados em Londres. Pelos relatos na bibliografia sobre o assunto, parece que Gil encarou melhor a prisão e o exílio do que Caetano. Carlos Callado, no seu livro Tropicália – a História de uma revolução musical, narra que Gil conseguiu um violão no presídio, e, uma vez em Londres, procurou um curso de inglês, frequentava shows de música, buscava formar uma banda, enquanto Caetano ficava triste, deprimido. Callado cita um trecho de Caetano, publicado no Pasquim  de 27 de novembro de 1969:

“Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso. Mas eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu. Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar. Mas virão outros. Nós estamos mortos” 

O disco que Caetano gravou no exílio também deixa claro esse espírito, sobretudo em If you hold a Stone, Maria Bethânia e Asa Branca.

 Em janeiro de 1971 Caetano obtém permissão para voltar ao Brasil. Não definitivamente, mas para assistir às bodas de rubi de seus pais, Seu Zezinho e Dona Canô. Conta Callado, na obra acima citada, que Caetano foi interrogado, intimidado, proibido de dar entrevistas ou cortar o cabelo e, para atribuir uma aparente normalidade, uma apresentação no programa Som Livre Exportação,  da Rede Globo.

 Em 4 de fevereiro de 1971, para quem esperava um Caetano ainda mais revolucionário quando voltasse de Londres, com mais sons modernos e psicodélicos (lembrando que há 40 anos não havia computador, internet, celular), Caetano saiu-se com um samba lindo de Sinval Silva, Adeus, batucada, imortalizado na voz de Carmen Miranda. A letra:

 Adeus, adeus
Meu pandeiro de bamba
Tamborim de samba
Já é de madrugada
Vou-me embora chorando
com meu coração sorrindo
E vou deixar todo mundo
Valorizando a batucada

Em criança com o samba eu vivia sonhando
Acordava, estava tristonha chorando
Jóia que se perde no mar só se encontra no fundo
Samba mocidade
Sambando se goza nesse mundo
E do meu grande amor sempre me despedi sambando
Mas da batucada agora eu despeço chorando
E trago no peito esta lágrima sentida
Adeus batucada, adeus batucada
Querida

 Nelson Motta, em seu Noites Tropicais, comenta o fato:

“Mas na gravação do programa, no Rio, ele surpreendeu o auditório jovem e roqueiro, que esperava dele algo elétrico, pesado, mais próximo de Os Mutantes do que de Elis e Ivan Lins. Ao contrário, sem gritos nem guitarras, apenas se acompanhando ao violão, Caetano cantou, radicalmente gilbertiano, um antigo e belíssimo samba de Sinval Silva, gravado por Carmen Miranda.  

 Caetano comenta essa passagem no seu livro Verdade Tropical

A plateia do Som Livre era constituída de jovens cariocas que nada sabiam a respeito de minha prisão e tinham uma idéia pop-rock da contribuição que eu dera à modernização da MPB. Era bem uma platéia sintonizada com essa sigla, tal como ela se afirmara naquele momento. Tinha se passado pouco mais de um ano da minha saída e eu me via frente a frente com o pós tropicalismo. Os garotos nus da cintura pra cima e as garotas de cabelos longos e lisos ovacionaram meu nome. Eles mostraram esperar de mim uma versão mais madura e mais sofisticada daquilo que estavam aprendendo a cultuar: uma fusão do pop inglês com samba – jazz carioca. Entrei apenas com meu violão e cantei Adeus Batucada, o genial samba de Sinval Silva que fora a mais bela gravação de Carmen Miranda. Nada podia ser mais fiel à história tropicalista: um contraste gritante como samba – jazz e com a fusion, uma referência à Carmen Miranda – e justamente com um samba em que a grande exilada da música popular brasileira dizia que “ia embora chorando, mas com o coração sorrindo”, pois ia” deixar todo mundo valorizando a batucada”. A garotada ficou perplexa e decepcionada. Passou despercebido o fato de que era a primeira vez que eu me apresentava na TV brasileira tocando meu violão.

Não quero aqui fazer comentários, mas apenas suscitar a imaginação de vocês… Caetano, preso, exilado, visita o Brasil num clima de terror, participa de um programa de televisão (Som Livre Exportação, apresentado Por Ivan Lins e Gonzaguinha) que o próprio Caetano diz ser um “filho do tropicalismo”, encontra um público jovem, ansioso por novidades, e encontra Caetano em seu violão, lírico e metafórico, cantando Adeus, batucada…

 Publicado orignalmente no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em fevereiro de 2010

Movimento contra a “alienação” musical, exclusão das guitarras e preservação de uma chamada “verdadeira” música popular.

Conferir o site http://historia.abril.com.br/politica/censura-brega-434196.shtml

A velha polêmica Chico x Caetano…

Caetano e Chico admiram-se mutuamente. São dois grandes artistas, verdadeiros símbolos daquilo que se convencionou chamar MPB, estilo musical que pode ser considerado um filho da bossa nova e dos festivais. Antes de se tornarem astros centrais da música popular brasileira, Caetano e Chico participavam – como principais rivais e concorrentes – do programa Esta noite se improvisa, da TV Record, em meados da década de 60 em que ambos disputavam quem tinha melhor memória musical.

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Ambos apareceram como grandes protagonistas dos festivais. Chico Buarque, no começo de sua carreira, era conhecido pelo seu sucesso “A banda“, vencedor, junto com Disparada (Geraldo Vandré), do Festival da Música Brasileira, realizado pela Record, em 1966. Caetano Veloso, no ano seguinte e no mesmo festival, apesar de não ser o vencedor, provocou um enorme rebuliço com “Alegria, Alegria“, que ficou em quarto lugar. O próprio Caetano, no seu livro Verdade Tropical,  admite que “Alegria, Alegria” é uma espécie de antítese de “A banda“. A música causou o maior repercussão pois já era tropicalista, uma fusão do som brasileiro com a guitarra elétrica, tão combatida na década de 60 por ser uma espécie de símbolo do imperialismo americano.

A vencedora do Festival em 1967 foi Ponteio, de Edu Lobo, mas com grande destaque para a música de Gilberto Gil, Domingo no Parque,  a segunda colocada, e Roda Viva,  de Chico, que ficou em terceiro lugar.

Mais adiante, ambos protagonizaram vaias, no Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, em 1968.Caetano, com sua provocativa apresentação de É proibido proibir, e a famosa entrada em cena de um hippie americano que dançava de maneira não usual e falava coisas desconexas, em inglês. A vaia foi tamanha que Caetano, acompanhado pelos Mutantes, não conseguia mais cantar, até que, em determinado momento, Caetano parou de gritar e fez um famoso discurso que chegou a ser gravado em disco e chegou a ser tema de vestibular.

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Chico Buarque, no mesmo festival, inscreveu uma linda música, Sabiá, em parceria com Tom Jobim, que foi vencedora, em detrimento de Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, mais do que manifesto, uma palavra de ordem contra a ditadura.

Surgem, então, as manias de etiquetar próprias da mídia, pois Chico Buarque foi classificado como um novo Noel Rosa, um homem refinado, de esquerda, e que alguns radicais entendiam como musicalmente conservador. Lembro-me (na verdade, não me lembro, pois nasci na década de 70 e não acompanhei pessoalmente a questão), ou melhor, lembro-me de ter lido uma resposta de Tom Zé, quando questionado sobre sua opinião acerca de Chico Buarque: “a gente tem que respeitar muito o Chico Buarque, afinal, ele é o nosso avô“.

Caetano era tido, pela maioria do “pensamento universitário de esquerda”, pelo menos até ser preso pela ditadura militar, como um alienado, um vendido, um descomprometido com causas sociais. E, no seu livro  Verdade Tropical, Caetano comenta como a mídia tratava a polêmica:

Uma moça simpática, entrevistando-me para a revista InTerValo (com T e o V maiúsculos indicavam ser uma publicação especializada em televisão), perguntou-me como eu via a diferença entre mim e Chico. Eu, estimulado pela oportunidade – e crendo que minha “aula” ia ser publicada -, expliquei-lhe que o que eu fazia era expor o aspecto de mercadoria do cantor de TV. Que tanto eu quanto Chico estávamos dizendo muitas coisas com nossas canções, mas que, do ponto de vista da televisão, eu era um cara de cabelo grande e Chico um rapaz bonito de olhos verdes; e que quanto mais desmascarado estivesse esse jogo, mais nossas canções e nossas pessoas estariam livres. Poucos dias depois saiu a reportagem com minha declaração sumária de que “Chico Buarque não passa de um belo rapaz de olhos verdes”.

A partir da década de 60, iniciou-se uma dicotomia, na qual fãs de Chico buscam diminuir a obra de Caetano, e vice-versa, como se o reconhecimento de um representasse a negação do reconhecimento do outro.

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Apenas citar dois exemplos, tirados de alguns blogs na internet:

Quem prefere Caetano:

“Prefiro Caetano a Chico por duas razões: suas músicas são mais complexas e líricas (o Chico é bem direto sempre) e a Tropicália, movimento musical que quebrou os parâmetros da esquerda burra. Além disso, Caetano não vive do passado, está sempre em busca de novidades e é bastante antenado. Já citou de Racionais a funkeiros em seus discos e shows. Relembrou a música brega do ótimo Peninha com “Sozinho” (ao ponto de me deixar p. da vida com o tanto que a música bombou). Embora seja superintelectual, ele sabe como transitar em todas as áreas.” (http://cinthyasamsa.blogspot.com/2009/07/cartola-e-caetano.html)

Quem prefere Chico

“Aliás, ultimamente, Caetano só faz sucesso com composições dos outros: “Sozinho” do Peninha e “Você não me ensinou a te esquecer” de Fernando Mendes. Aliás, estas músicas são tudo ao contrário do novo e ainda carregadas de tintas da breguisse. Pra quem acha que Chico só faz letras com qualidade (o cronista disse que Chico é medíocre musicalmente), é bom lembrar que ele ganhou o Festival da Record com a “Banda”, de autoria só dele – coisa que Caetano nunca conseguiu, pelo menos em festivais de renome como o da Record. “Carolina” é só dele; assim como são as letras e músicas de “Quem te viu, quem te vê”; “Olê, Olá”; “Roda Viva”; “Noite dos mascarados”; “Folhetim” todas de ótima musicalidade, além de outras centenas. Daqui a cem anos – podem ter certeza – que a “Banda” e “Folhetim” serão tocadas em quaisquer FM da vida – gravadas por qualquer pop star – ao contrário de Haiti, “Tieta” e “Leãozinho” que já não tocam nem em Santo Amaro da Purificação, cidade de Caê. (http://www.dm.com.br/materias/show/t/chico_versus_caetano)

Na verdade, costuma-se associar Chico a uma refinada evolução do samba, de uma tradição que vem de Noel e da bossa nova, grande letrista, ou, como disase certa vez Tom Jobim, “depositário da cultura popular brasileira”. Quem gosta, reconhece todo o mérito, mas quem não gosta, termina por predicar Chico como musicalmente conservador, que se resume a resgatar e fazer releituras sobre gêneros musicais do passado, ou, no aspecto político, alguém que se tornou chato pelas suas canções engajadas.

Caetano Veloso, por sua vez, é identificado com a ousadia, com suas figuras de linguagens incomuns, como um reinventor e descobridor de ritmos, sendo capaz de extrair musicalidade de onde o senso comum não espera, de emprestar dignidade a letras e sons tidos como “vagabundos” (no aspecto, a repercussão da abertura do show no festival de verão de 2010, quando cantou Cole na Corda, música da banda de pagode Psirico). Mas quem não gosta, associa Caetano como um vaidoso polêmico que resvala para o brega, quando não se aborda a suposta alienação política de suas canções.

Na verdade, essa comparação, essa polêmica serve apenas e tão somente para demonstrar o quão grandes são estes dois compositores. Mas aqui, como Vinícius dissera no disco que gravara em homenagem aos dez anos de parceria com toquinho, não gosto de critérios competitivos. Eles são diferentes e admiráveis.

Gosto de Chico, as tristezas imensas de Pedaço de mim, Trocando em miúdos e Todo sentimento, parece que ele personifica o personagem quando canta… me impressiona em Futuros amantes, quando alguém faz uma música a partir de uma ideia de escafandristas (“E quem sabe, então/O Rio será/Alguma cidade submersa/ Os escafandristas virão/Explorar sua casa/Seu quarto, suas coisas/Sua alma, desvãos”), gosto muito de “Se eu fosse seu patrão”, da Ópera do malandro,  e Quem te viu, quem te vê, como a crônica de um sambista que viu sua cabrocha virar madame.

Gosto também de Caetano, fico admirado com letras como Língua e O quereres, me impressiono a simplicidade absolutamente linda de Cajuína (“Existirmos, a que será que se destina”), gosto muito de Vaca Profana, e me emociono toda vez que ouço Alguém cantando.

Preferi, propositadamente, escolher cinco músicas de cada um, a partir de uma escolha afetiva, impulsiva e instantânea. Não me importa, na hora que ouço tais músicas, fazer uma análise histórico-sociológico-musical, mas sim ouvi-las, senti-las. Agora já, me lembro de outras músicas de Caetano e Chico, que me escapara nessa lista de preferidas, que é sempre incompleta, sempre mutável.

Interessante ponderação faz Priscila Gomes Correia, nos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP – USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008, em relação aos manifestsos de Chico e Caetano, nos seus primeiros discos. Caetano diz, em 1967: “a minha inspiração não quer mais viver apenas da nostalgia de tempos e lugares, ao contrário quer incorporar essa saudade num projeto de futuro”. Chico, por sua vez, em 1966: “melodia e letra devem formar um só corpo (…). Por outro lado, a experiência em partes musicais (sem letra) para teatro e cinema provou-me a importância do estudo e da pesquisa musical, nunca como ostentação e afastamento do ‘popular’, mas sim como contribuição ao mesmo”

Nelson Motta, em seu livro Noites Tropicais, faz referência ao show que gravaram em 1972 no Teatro Castro Alves,

“Chico vive seu melhor momento criativo e transforma-se, contra a vontade, num herói da resistência. Mas ainda é visto e ouvido e discutido como oposto a Caetano, a quem os admiradores de Chico acusam de  individualismo internacionalizado, de fazer o jogo da direita. Já os fãs radicais de Caetano consideram Chico um tradicionalista e populista, um atraso para a revolução socialista libertária. Os dois se incomodam com as divisões, que consideram injustas e estúpidas.

A melhor maneira de acabar com as polêmicas foi a mais bonita, a que eles encontraram, sob o sol de verão na Bahia: um show dos dois no Teatro Castro Alves, para ser gravado e transformado no disco Chico e Caetano -juntos e ao vivo. Um cantando músicas do outro, os dois cantando juntos. Show e disco tiveram extraordinário impacto e sucesso, o encontro foi uma das melhores notícias que o Brasil recebeu num ano de poucas boas, de escalada da luta armada e da repressão, da tortura e da intolerância. Para mim a questão do “um ou outro”, por todos os motivos, artísticos, políticos e afetivos, nunca existiu. Sempre os considerei complementares e indispensáveis. O encontro histórico teve especial repercussão entre os fãs radicais de Chico e de Caetano nas esquerdas brasileiras, nos muitos grupos e tendências em que se dividiam. Juntos e ao vivo era, além de um extraordinário encontro de dois grandes artistas muito diferentes, uma metáfora de união e de tolerância, da harmonia por contraste.”

Tolerância… parece que o bom gosto é sempre o nosso gosto, que o gosto do outro não presta. Caetano e Chico, dois grandes que passam alheios às discussões de seus fãs. Basta ver o que cada um diz do outro. Chico Buarque, no seu site: (www.chicobuarque.com.br):

“Eu gosto de tudo que o Caetano faz. Não tem o que eu gosto mais. Inclusive, porque ele continua fazendo e me surpreendo. Tenho uma relação pessoal com ele muito boa. Sempre tive. ”

“Eu sou inteiramente diferente dele. Por isso mesmo que a gente se entende bem. Essa história desse Fla-Flu que se criou… Eu até comentei com ele esses dias… é uma coisa artificial. Vai ser difícil me jogar contra ele. Apesar dos esforços que são feitos nesse sentido continuamente. Mas eu acho bobagem esperar que eu faça as músicas do Caetano ou que o Caetano faça as minhas músicas. Acho bom que ele faça as dele e que eu faça as minhas, que têm até uma origem comum, como eu disse no começo. A nossa formação é comum: a bossa-nova. Mas a cabeça dele é…. da minha. Eu me entendo com ele e acho que a minha música se entende com a dele também. “

Caetano, em duas passagens

“Às vezes penso que minha profissão tem sido perseguir Chico Buarque. Mas é uma perseguição amorosa. E tem dado tão bons resultados já faz tanto tempo, que desta vez, ao contrário do que aconteceu com “Você não entende nada” – música que nomeei “Sem açúcar” (parafraseando “Com açúcar, com afeto”) porque à época julgavam haver entre nós uma rivalidade reles -, não temi pôr o nome “Pra ninguém” na canção que, como o “Paratodos” de Chico, lista virtudes de colegas. Chorei tanto quando Chico, em sua casa, me mostrou “Paratodos”, que estava certo de nunca fazer nada para macular esse sentimento.” (release do disco “Livro”)

“O Chico é deslumbrante, ele é bom improvisador, é rápido em rima, tem um talento para poesia inacreditável” (Numa entrevista à Jô Soares).

Mas o quanto ainda vai se escrever sobre os dois….

Back in Bahia

Estamos no fim do ano de 1971. Depois de quase 3 anos de exílio em Londres, Gilberto Gil e Caetano Veloso retornam ao Brasil, e retornam fazendo barulho.

Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, Back in BahiaGil e Caetano em Londres

No começo de 1972, realizou-se, em Santo Amaro, a festa da Nossa Senhora da Purificação, como acontece tradicionalmente até hoje. Gilberto Gil estava lá, com Caetano, e o contraste entre a vida londrina e aquela festa popular inspirou Gilberto Gil a escrever Back in Bahia, a sua canção de retorno do exílio.

Gil relata a inspiração no seu livro “Todas as Letras” (Rennó, 1996):

Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, Back in Bahia

Era o primeiro verão na Bahia depois que eu tinha voltado de Londres, e eu fui à festa de Nossa Senhora da Conceição em Santo Amaro da Purificação. Eu estava na casa onde Canô, mãe de Caetano, estava dando a festa; vendo as pessoas queridas e a alegria que amava delas, da lembrança da saudade que eu sentia dessas e outras coisas em Londres veio o impulso para escrever a canção – que eu comecei ali, letra e música juntas, de cabeça, e complementei no dia seguinte, já na casa de Sandra, na Graça, em Salvador.

A canção parece uma antítese musical de Aquele Abraço, samba-despedida que relata as coisas bonitas do Rio de Janeiro enquanto ele está indo para o exílio.

Antítese, pois enquanto Aquele Abraço é um samba (“dedicado a Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso”), musicalmente Back in Bahia é uma fusão de rock com repente, do mundo londrino com as raízes bem nordestinas que caracterizava sua canção.

Em Back in Bahia Gil relata os contrastes entre a vida de Londres e a saudade da Bahia, e a falta de cor (as cores da Bahia são muito mais vivas e vívidas do que as de Londres), de calor, de sol, de sal, do verde do mar que lembrava e distinguia o verde dos gramados londrinos, mas todo esse tempo visto como necessário para valorizar tudo aquilo que encontrou na volta.

Carlos, Calado, no livro Tropicália – a História de uma revolução musical (Ed.34, 1997, p. 289), relata uma entrevista de Gil ao Jornal do Brasil, quando do seu retorno:

“Vi tudo, vivi tudo, o sonho acabou, os anos 60 passaram, a música levou tudo às últimas consequências. Bem, então agora eu vou ver o que é que sobrou, o que é que eu sou, o que é que eu posso (…) Encontrei as raízes? Sim. E eu diria que estou mais próximo. Sou muito mais nordestino, sou muito popularsou bem pop, sou cantor de feira, sou cantador. A distância do Brasil me ajudou a chegar a isso. A distância ampliou o quadro e eu pude ver melhor. Eu pude entender mais profundamente”

Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, Back in Bahia

Assim, diferentemente da exaltação de Aquele Abraço, Back in Bahia é um relato em primeira pessoa, quase uma confissão, sem as sutilezas costumeiras das letras de Gil. Não por acaso, a canção é construída em apenas 3 acordes, relativamente simples. Gil retoma a explicação em Todas as Letras: 

“Back in Bahia” se baseia em motivos musicais muito íntimos, nordestinos – improviso, embolada, galope, martelo –, e em modos cordélicos, com rimas rítmicas [e também internas], típicas do versejar nordestino, e versos simétricos [ quase todos de dezesseis sílabas]: entre eles, o ‘de vida mais vivida dividida pra lá e pra cá’, de que eu mais gosto: poesia pura, concreta, como o ‘fazer o canto, cantar o (cântaro) cantar’, em ‘Palco’.

A letra, gravada no disco Expresso 2222:

Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, Back in Bahia

Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui
Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim
Puxando o cabelo nervoso, querendo ouvir Celly Campelo pra não cair
Naquela fossa em que vi um camarada
Meu de Portobello cair
Naquela falta de juízo que eu não
Tinha nem uma razão pra curtir
Naquela ausência de calor, de cor, de sal

De sol, de coração pra sentir
Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim
Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar
Do luar que tanta falta me fazia junto do mar
Mar da Bahia cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar
Tão diferente do verde também tão lindo dos gramados campos de lá
Ilha do norte onde não sei se por sorte ou por castigo dei de parar

Por algum tempo que afinal passou depressa, como tudo tem de passar
Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá

Sá Marina. A história do maior sucesso de Simonal

Quando Wilson Simonal gravou “Sá Marina”, em 1968, todo mundo imaginou aquela mulher que descia a rua da ladeira, com sua saia branca costumeira, e que cheirava a flor de laranjeira…

Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, Sá Marina.

Essa canção, uma letra de Tibério Gaspar para uma música de Antonio Adolfo, relata uma paixão de Tibério por sua professora no interior do Rio de Janeiro, quando ele tinha 8 anos.

A história é contada no volume 1 do livro “Então, foi assim” de Ruy Godinho, sobre a professora que morava na cidade de Anta-RJ . Segue aqui …

Blog de musicaemprosa : Música em Prosa, Sá Marina.

“Na cidade morava uma professora chamada Brasilina, uma mulher loura, bonita, desejada pelos homens e odiada pelas mulheres. Ela morava na Rua da Ladeira (…) E quando ela saía de casa descendo a rua, os pudores se reviravam. Enquanto os homens babavam, as mulheres cuspiam na calçada, batendo janelas.(…)

‘Eu amava essa mulher’, afirma um saudoso Tibério. ‘Uma vez engendrei um plano audacioso. Eu tinha uns oito anos. Aproveitando o fato de minha mãe ser amiga dela, pedi que me levasse junto quando fosse visitá-la. E assim aconteceu após alguns dias. Minha mãe chamou-me e fomos pra casa de Brasilina. Chegando lá, pus em prática o meu plano de ‘assédio sexual’. Propositalmente esqueci um pente no sofá da sala na hora de ir embora. Minha intenção era voltar à noitinha para resgatá-lo. Tudo certo. Fiz tudo como planejara. à noite dei uma escorregada até a casa da professora e….

Tibério, tímido, não teve coragem. 

Ficou plantado na porta. 

O pente ficou lá, esquecido. 

Um belo dia, Brasilina foi embora. Resolveu morar em Niterói, e a vida de Anta voltou a ter a monotonia de sempre…

Foi assim que Brasilina inspirou Tibério a fazer a letra da canção, só mudando o nome da musa para Sá Marina, que era mais musical…

Conta Tibério ainda sobre a canção…

Interessante é que anos mais tarde, depois que a música fez sucesso, eu fui procurado pelo programa de Flavio Cavalcanti. O programa dele tinha o quadro “Os compositores e suas musas”. daí ele me chamou para falar sobre Sá Marina. Contei que não sabia com precisão onde morava. sabia apenas que ela havia se mudado para Niterói. 

A produção do programa foi atrás de Brasilina. (…)Ela falou que conhecia a música, que tinha adorado tudo que estava sendo falado, mas que não queria ir ao programa, não queria que tirassem fotografias e que nem a filmassem. “Quero que Tiberinho continue a ter a mesma ideia de mim como eu era antigamente. Agora estou velha e não quero que ele me veja assim…”

E assim surgiu um dos maiores, se não o maior sucesso de Simonal… e a canção teve mais de 300 gravações… E ainda dá para imaginar a moça descendo a rua da ladeira, provocando rebuliço naquela cidade do interior…

Descendo a rua da ladeira
Só quem viu, que pode contar
Cheirando a flôr de laranjeira
Sá Marina vem prá dançar…

De saia branca costumeira
Gira ao sol, que parou prá olhar
Com seu jeitinho tão faceira
Fez o povo inteiro cantar…

Roda pela vida afora
E põe pra fora esta alegria
Dança que amanhece o dia
Pra se cantar
Gira, que essa gente aflita
Se agita e segue no seu passo
Mostra toda essa poesia do olhar
Huuuuuuummmm!…

Deixando versos na partida
E só cantigas prá se cantar
Naquela tarde de domingo
Fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar…

Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!

Oh!
Deixando versos na partida
E só cantigas prá se cantar
Naquela tarde de domingo
Fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar…

Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!

E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar…

Wilson Simonal – Sa Marina / Cai, Cai (Vinyl) - Discogs

Descendo a rua da ladeira
Só quem viu, que pode contar
Cheirando a flôr de laranjeira
Sá Marina vem prá dançar…

De saia branca costumeira
Gira ao sol, que parou prá olhar
Com seu jeitinho tão faceira
Fez o povo inteiro cantar…

Roda pela vida afora
E põe prá fora esta alegria
Dança que amanhece o dia
Prá se cantar
Gira, que essa gente aflita
Se agita e segue no seu passo
Mostra toda essa poesia do olhar
Huuuuuuummmm!…

Deixando versos na partida
E só cantigas prá se cantar
Naquela tarde de domingo
Fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar…

Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!

Oh!
Deixando versos na partida
E só cantigas prá se cantar
Naquela tarde de domingo
Fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar…

Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá!

E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar
E fez o povo inteiro chorar…