O dueto de Caetano Veloso e Odair José em 1973

Em 1973, em plena ditadura militar, a Música representava uma das mais fortes expressões dos sentimentos populares. Assim, em maio de 1973, realizou-se um festival no Palácio de Convenções do Anhembi, com o elenco da gravadora Phonogram (Universal), que tinha como contratados a nata da música popular brasileira. .

No festival, grandes momentos merecem registro: Elis, Gal e Bethânia juntas, Toquinho e  Vinícius, Gil e Chico com Cálice. Mas um momento chamou a atenção e vaias do público. Foi o dueto entre Odair José e Caetano Veloso, cantando a música “Eu vou tirar você desse lugar”, em que o eu-lírico revela o seu amor por uma prostituta e promete resgatá-la, mesmo diante das dificuldades e preconceitos que a situação ensejava.

 

Consta que a vaia no Anhembi foi fenomenal, sobretudo porque Odair José, que há pouco se tornara conhecido pela canção “Pare de tomar a pílula” (que na época causou revolta em setores conservadores do clero), era um representante de uma música considerada “brega” e “alienada”

 

 

Foi justamente a partir desta apresentação que Caetano cravou uma de suas frases emblemáticas: “Não há nada mais Z do que a classe A”.

 

Na gravação acima, não se percebem as vaias, eliminadas no processo de masterização que deu ensejo ao disco , que foi proibido pela censura .

 

Paulo Cesar de Aaraújo, no seu livro “Eu não sou cachorro não”, conta um pouco da história:

 

Caetano então resolveu radicalizar, convidando para seu palco aquele artista considerado o mais redundante, banal e comercial: Odair José. Anunciado como ‘uma noite incrível reunindo o maior espetáculo de música brasileira de todos os tempos’, o show de Caetano Veloso — com o convidado surpresa Odair José — foi o último da mostra Phono 73, que contou naquele mesmo domingo com apresentações de Gal Costa, Maria Bethânia, Nara Leão e outros. Espécie de ‘patinho feio’ incluído em uma festa que reunia a nata da MPB, Odair José não poderia deixar de causar reação em um público preso a preconceitos estéticos de sua formação de classe média.” (Paulo César de Araújo, em “Eu não sou cachorro, não”, de 2002).

 

 

Odair, para Paulo Cesar, conta a história da canção:

A história é a seguinte: o cara trabalhava o dia inteiro e ao final do dia, em vez de ir pra casa, ele passava ali para tomar um drinque e tal.
E com esse drinque começava um grande romance. No dia seguinte ele voltava para tomar um segundo drinque, e mais um terceiro,
porque já estava realmente apaixonado por alguém dali. Eu assisti muito isso. Porque ali se encontram moças extremamente dignas, e o fato de estar naquele trabalho é apenas uma opção ou circunstância da vida, porque às vezes você faz planos de vida e a vida muda seus planos.

Sobre a experiência e as vaias, ele conta:

Eu era o maior vendedor da Polygram, mas não estava ali entre a elite. Naquele momento foi um prazer estar com ele (Caetano), um homem muito inteligente, à frente de seu tempo. Mas foi, evidentemente, uma confusão, com vaias, porque eu era um objeto estranho naquele ambiente. Vaias a gente sempre leva na vida, mas aquela foi uma noite especial à qual talvez eu não tenha dado a devida importância” 

O episódio deixa bem claro o caráter tropicalista de Caetano, que através de sua postura conseguiu “legitimar” , ainda que tardiamente, muitas músicas não consumidas por uma chamada “elite” intelectual brasileira, que patrulhava e rotulava artistas. Tanto que foi Caetano que mostrou interesse em Odair, e não o contrário, como ele disse numa entrevista:

 

Como se deu esse encontro com o Caetano Veloso?

Soube através do André Midani (então diretor da gravadora Phonogram) que o Caetano gostaria de se apresentar comigo no Phono 73. Lembro que fretaram um avião para ir ao interior de São Paulo, se não me engano Piracicaba, onde ele estava se apresentando. Cheguei e o Caetano disse que gostava muito da música e queria cantá-la comigo. Tive uma boa impressão do Caetano que, por sinal, é um cara muito simples 

E como foi o show? As vaias o incomodaram?

Para mim era apenas mais um show em minha vida, não dei tanta importância ao fato até chegar ao palco. Fui muito bem recebido por Caetano mas ficou bem claro para mim a distância de estilos através da reação de parte do público. Nunca tive como meta atravessar o ”outro lado” da MPB, eu só sei fazer o que faço e pronto. Se é brega, popular ou outra coisa não me importo. Eu me lembro que diante das vaias, Caetano jogou o microfone no chão, falou alguma coisa sobre classe A e Z e saiu do palco. Eu permaneci no palco, não tinha porque sair de lá e cantei outras duas músicas” 

 

Curioso, por fim, é saber que há muitas entrevistas perguntando a Odair sobre o episódio, e bem poucas com Caetano…

 

Fontes:

Paulo César de Araújo, “Eu não sou cachorro, não”

http://rodrigomattar.grandepremio.com.br/2013/07/discos-eternos-phono-73-o-canto-de-um-povo-1973/

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1511200520.htm

http://caetanoendetalle.blogspot.com.br/2014/11/1973-vou-tirar-voce-desse-lugar.html

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/noticia/2016/10/23/odair-jose-lanca-gatos-e-ratos-e-recusa-rotulo-de-brega-257802.php

https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/entrevista-a-cafonalia-no-crivo-da-censura-492694.html

 

Mudando como um deus o curso da história, por causa da Mulher….

Esta frase termina uma bela homenagem de Gilberto Gil ao feminino, numa canção em que música e letra foram compostas ao mesmo tempo, e que se intitula “Super-Homem – a canção”.

Para quem não sabe, antes mesmo dos filmes sobre Homem-Aranha, X-Men, Batman, Pantera Negra, Homem de Ferro e etc, um filme de super-herói fez história no final da década de 70. Era o Super-Homem – o filme, com Christopher Reeve no papel de Super-Homem, Margot Kidder no papel de Lois Lane, Marlon Brando no papel de Jor-El, pai do Super-Homem e Gene Hackmann no papel de Lex Luthor.

 

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O filme mostra o quanto o super-homem, ao mesmo tempo em que é vulnerável pela kriptonita, é vulnerável também ao amor que sente por Lois Lane, colega de profissão de seu alter-ego, Clark Kent. Super-homem não consegue suportar a ideia da morte de Lois Lane, e então opera um milagre.

A partir da narrativa de Caetano sobre o filme que acabara de ver, surgiu uma das mais conhecidas músicas de Gil, uma homenagem, que ele narra no seu livro Todas as Letras (Cia das letras, 1996).

Eu estava morando na Bahia e não tinha casa no Rio, por isso estava hospedado na casa do Caetano. Como eu tinha que viajar logo cedo, na véspera da viagem eu me recolhi num quarto por volta de uma hora da manhã

De repente eu ouvi uma zoada: era Caetano chegando da rua, falando muito, entusiasmado. Tinha assistido o filme Super-Homem. Falava na sala com as pessoas, entre elas a Dedé [Dedé Veloso, mulher de Caetano à época]; eu fiquei curioso e me juntei ao grupo. Caetano estava empolgado com aquele momento lindo do filme, em que a namorada do Superhomem morre no acidente de trem e ele volta o movimento de rotação da Terra para poder voltar o tempo para salvar a namorada. Com aquela capacidade extraordinária do Caetano de narrar um filme com todos os detalhes, você vê melhor o filme ouvindo a narrativa dele do que vendo o filme… Então eu vi o filme. Conversa vai, conversa vem, fomos dormir

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Mas eu não dormi. Estava impregnado da imagem do Super-Homem fazendo a Terra voltar por causa da mulher. Com essa ideia fixa na cabeça, levantei, acendi a luz, peguei o violão, o caderno, e comecei. Uma hora depois a canção estava lá, completa. No dia seguinte a mostrei ao Caetano; ele ficou contente: ‘Que linda!’

Gil somente fora ver o filme quando estava nos Estados Unidos para gravar o disco Realce. A canção foi feita, portanto, a partir da narrativa de Caetano Veloso sobre o filme. .

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O significado da canção, que há quase 40 anos foi visto com certa desconfiança pela critica, hoje parece evidente:  é uma homenagem àquilo que é visto como feminino, como características atribuídas naturalmente às mulheres, e que são coisas que fazem o e-lírico melhor, muito mais do que o tradicional mundo masculino. Gil, ainda sobre a letra, arrematou:

 

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Sobre a “porção mulher” – “Muita gente confundia essa música como apologia ao homossexualismo, e ela é o contrário. O que ela tem, de certa forma, é sem dúvida uma insinuação de androginia, um tema que me interessava muito na ocasião – me interessava revelar esse imbricamento entre homem e mulher, o feminino como complementação do masculino e vice-versa, masculino e feminino como duas qualidades essenciais ao ser humano”.

Canção pra Ninar um Neguim

Zeca Baleiro compôs a “canção pra ninar neguinho”  em homenagem a Michael Jackson. Na verdade é um acalanto, foi composta em 1993, quando Zeca viu uma foto de Michael Jackson numa capa de revista com um olhar triste, ou de choro, muito sincero, e a partir daí surgiu a letra da música.

O interessante é que Zeca Baleiro conta, nos shows, a origem da música e a plateia dá risada, como se visse em Michael um personagem pitoresco, e por essa razão, Zeca, que jamais acreditara nas acusações contra Michael, chegou a dizer que  que jamais gravaria a canção, sobretudo após a morte do cantor. Por isso Renato Braz gravou primeiro a música

 

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Segue abaixo entrevista de um parceiro de Zeca para o Terra. (http://terramagazine.terra.com.br/in…l+Jackson.html)

No ano em que surgiram as primeiras denúncias de pedofilia contra Michael Jackson, um admirador brasileiro se compadeceu e fez uma música em homenagem ao astro. A composição de Canção Prá Ninar Um Neguim, por Zeca Baleiro, coincide com o ano em que o astro, veio pela segunda vez ao Brasil: 1993.

Zeca Baleiro nunca gravou a música. Toca, de vez em quando em um ou outro show.

Numa tarde de 2002, seu amigo e parceiro Renato Braz se preparava para gravar um disco, Quixote. Passou na casa de Baleiro, em São Paulo, a fim de colher do amigo uma música nova para incluir no CD.

Acabaram tocando, sem combinar, “Canção Prá Ninar Um Neguim”. “Não fui eu que escolhi a música. Foi a música que me escolheu”, diz Braz, que gravou a canção e venceu o Prêmio Visa de MPB naquele ano.

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Um verso:
Neguim jeitoso / É perigoso viver sim senhor / Tem espinho e tem flor / Neguim moderno / O inferno é frio e no céu faz calor / Traz o teu cobertor.

“Foi uma declaração de amor ao Michael Jackson”, conta Braz, cantor de música popular brasileira, de uma tendência não visivelmente marcada pela influência do artista norte-americano. Uma prova da abrangência de Jackson. “Tenho todos os discos. Até os discos que eu acho ruins, porque, quem sabe algum dia, posso me encantar com algo que eu ainda não percebi…”

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“Queria andar com os pés como se tivesse flutuando como ele fazia”, lembra-se Braz. “Embalou minha infância”. Quando criança em São Paulo, conta Braz, “ouvia Tim Maia e Michael Jackson como se fossem da mesma família”. “A musica dele é universal, chegou no subúrbio quando estava só começando”, impressiona-se o cantor.

Braz atribui o sucesso do popstar à “verdade com que ele conduziu sua carreira”. Michael Jackson e Tim Maia, a dupla de novo: “não representavam uma só classe. Fazem música abrangente”.

Confira a letra da música “Canção Pra Ninar Um Neguim” na íntegra:

Preto pretinho
Eu sou do gueto
Branquinho de alma negra como tu
Meu dialeto
Sem preconceito
I don’t know how to dance tua dança
But, I like you
Preto pretinho
Qual o carinho da tua alma blue
Essa África do Sul
Preto pretinho
Será que há jeito de ser como tu
Meio rosa e azul
Chora neguinho
Chuva de efeito e gelo seco
Não sarará a dor
Duerme negrito
Sonha Soweto
Mama no peito da mãe
Que te fez cantor
Neguim jeitoso
É perigoso viver sim senhor
Tem espinho e tem flor
Neguim moderno
O inferno é frio e no céu faz calor
Traz o teu cobertor.

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De Tim Maia para Gal Costa: “Meu vestido não ficou pronto”. Bastidores da canção “Um dia de domingo”

Quem teve a oportunidade de ouvir, no show Recanto (2012), Gal Costa cantando Um dia de Domingo, primeiro, no seu próprio tom, para depois, numa imitação de voz e trejeitos, cantar a música como se fosse Tim Maia, não sabe alguns dos episódios divertidos que envolveram a gravação da música.

Segundo Nelson Motta, na biografia que escreveu sobre Tim (Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia), há alguns episódios interessantes:

  1. Um dia de Domingo  é uma música composta por Sullivan e Massadas, uma balada romântica que algum ouvido mais exigente poderia até chamar de brega.
  2. Tim gostou imediatamente da música. Gal, nem tanto, mas achou que um bom arranjo e as vozes dela e de Tim poderiam fazer com que o dueto fosse um sucesso.
  3. Gal sugeriu, após a primeira gravação, que a música fosse gravada meio tom acima do inicialmente registrado. Lincoln Olivetti, arranjador e produtor, diante da impossibilidade de juntar novamente a banda, regravou a fita em velocidade um pouquinho mais rápida até o tom desejado por Gal.

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  1. Tim queria que sua voz ficasse, na edição final, um pouquinho mais alta que a voz de Gal. Não conseguiu.
  2. Como Tim e Gal viajavam sem parar, foi difícil encontrar uma data para que fosse gravado um clip para o Fantástico.
  3. “No dia marcado, Tim recebeu um telefonema da RCA avisando que a gravação atrasaria dois dias porque o vestido de Gal não tinha ficado pronto”.

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  1. Dois dias depois, quando ligaram para dizer a hora em que o carro iria busca-lo, mandou avisar a Gal que não poderia ir. ‘O meu vestido não ficou pronto’, disse. E não foi”.8. Não houve clipe no Fantástico. O encontro entre Tim e Gal foi acontecer no Chacrinha
  2. O Velho Guerreiro tinha uma estratégia infalível para se prevenir dos frequentes furos do cantor. Ligava para a mãe dele. Era a única tática que funcionava.
  3. Um dia de domingo  foi um sucesso fenomenal.

sexta 23 agosto 2013 02:01 , em Duetos

Todas as mulheres da canção “Sandra”, de Gilberto Gil

1976 foi um ano marcante na vida de Gilberto Gil. Durante uma turnê dos Doces Bárbaros a Florianópolis, ele foi flagrado com uma pequena quantidade de maconha, o suficiente para que fosse preso e processado pelo uso da droga.

em 15 de julho de 1976, Gilberto Gil foi condenado a 1 ano de prisão, tendo sua pena substituída por internação no Instituto Psiquiátrico São José, em Florianópolis, que durou 4 dias, depois com a transferência para a Clínica Psiquiátrica Botafogo, no Rio de Janeiro, onde passou mais um mês.

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Na clínica, ele compôs uma bela canção, “Sandra”, uma homenagem às mulheres com quem conviveu naquele período, até uma homenagem final à sua esposa na época, Sandra Gadelha.

Gil conta, no seu livro “Todas as Letras” quem era cada uma destas mulheres da canção, até a existência de uma outra “Sandra”, que justifica o título. Nas palavras de Gil:

Em 94, eu estava dando uma entrevista coletiva em Curitiba, quando uma moça entrou e disse: ‘Não se lembra de mim?’ Eu fiquei olhando, olhando, e ela então gritou: ‘Andréia na estréia!’ E eu: ‘Claro!’ Andréia era a menina que eu tinha conhecido, em 76, na passagem do show dos Doces Bárbaros pela cidade (antes de seguirmos para Florianópolis, onde eu fui preso por porte de maconha e posto em tratamento ambulatorial numa clínica, episódio em que a canção é baseada). Tínhamos ficado juntos na ocasião, e ela que me levou a um armarinho para comprar as fitas com que me enlaçou os cabelos trançados. Desde então nunca mais tínhamos nos reencontrado.”

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“Todas as meninas mencionadas em Sandra foram personagens daqueles dias que eu vivi entre Curitiba e Florianópolis.

a) Maria Aparecida, Maria Sebastiana e Maria de Lourdes me atenderam no hospício durante o internamento imposto pela justiça enquanto eu aguardava o julgamento. A de Lourdes me falava a toda hora: ‘Você vai fazer uma música pra mim, não vai?’ ‘Vou’.

b) Carmensita: essa – foi interessantíssimo -, logo que eu cheguei, ela veio e me disse, baixinho: ‘Seja bem-vindo’.

c) Lair era uma menina de fora, uma fã que foi lá me visitar.

d) Salete era de lá: ‘Meu café é muito ralo’, me falou. ‘É exatamente como eu gosto, chafé’, respondi.

e) Cíntia: também de Curitiba, como Andréia. Quando passamos pela cidade, me levou ao sítio dela uma tarde; foi quem me deu uma boina rosa com a qual eu compareceria ao julgamento mais adiante, em Florianópolis, e com a qual eu apareço no filme Os Doces Bárbaros.

f) Ana: ficou minha amiga até hoje; de Florianópolis.

g)  Dulcina, que era a mais calada, a mais recatada de todas na clínica, a mais mansa – era como uma freira -, foi a única que um dia veio e me deu um beijo na boca.

“Sandra, citada no final da letra, era minha mulher, que preferiu não ir a Florianópolis e com a qual eu associei a ideia do hexagrama da torre, tirado no I Ching, um dos meus livros de cabeceira naquele período: a que tomava conta de tudo; onde eu estivesse, o seu olhar espiritual me acompanharia; seu ente se espraiaria, estendendo-se por todas as mulheres com quem eu convivesse. A ela as mulheres citadas na letra remetiam por representarem o feminino, a minha sustentação naquele momento.

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“Mas o que ninguém sabe, e que não se revela de nenhuma maneira na canção – o seu lado oculto -, é que há duas Sandras, a que é mencionada no fim e a do título, que não se refere à Sandra com quem eu era casado, mas a uma menina linda, maravilhosa, também chamada Sandra, que tietava o Caetano em Curitiba, amiga da Andréia – que me tietava.”

Eu admiro a ideia de como a referência à Sandra, quase mística, quase um símbolo, que mesmo longe serve de alicerce e de referência…

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Sandra
Gilberto Gil

Maria Aparecida, porque apareceu na vida
Maria Sebastiana, porque Deus fez tão bonita
Maria de Lourdes
Porque me pediu uma canção pra ela

Carmensita, porque ela sussurou: “Seja bem-vindo”
(No meu ouvido)
Na primeira noite quando nós chegamos no hospício
E Lair, Lair
Porque quis me ver e foi lá no hospício

Salete fez chafé, que é um chá de café que eu gosto
E naquela semana tomar chafé foi um vício
Andréia na estréia
No segundo dia, meus laços de fita

Cintia, porque, embora choque, rosa é cor bonita
E Ana, porque parece uma cigana da ilha
Dulcina, porque
É santa, é uma santa e me beijou na boca

Azul, porque azul é cor, e cor é feminina
Eu sou tão inseguro porque o muro é muito alto
E pra dar o salto
Me amarro na torre no alto da montanha

Amarradão na torre dá pra ir pro mundo inteiro
E onde quer que eu vá no mundo, vejo a minha torre
É só balançar
Que a corda me leva de volta pra ela:
Oh, Sandra

BRWMB9701874
© Gege Edições / Preta Music (EUA & Canadá)

Ficha técnica da faixa:
voz e violão – Gilberto Gil
baixo – Moacyr Albuquerque
violão de aço – Perinho Santana
flauta – Jorginho
flauta – Celso
bateria – Paulinho Braga
percussão – Djalma
piano – Cidinho
coro – Ronaldo Boys
sax-soprano – Mauro Senise

Fontes: Gilberto Gil. Todas as Letras. Org. Carlos  Rennó,

Quem é a “menina do anel de lua e estrela”

Vinicius Cantuária é nascido em Manaus, crescido no Rio de Janeiro, e tem alguma composições belíssimas. Uma delas, gravada por Caetano Veloso, conta uma história de uma menina que ele viu na praia, e que se eternizou com o nome “Lua e Estrela”.

Ele conta a história a Rui Godinho, no terceiro volume do seu livro “Então, foi assim?” :

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Essa história é linda e verdadeira. Eu morava, na época, na casa do Arnaldo Brandão, um baixista, que depois tocou comigo na outra banda da Terra durante anos depois participou do Brylho (A noite vai ser boa..). É o Arnaldo tocava baixo com os Doces Bárbaros. Ele tinha um filho, que é o Rodrigo, que hoje toca numa banda em São Paulo.

Era uma sexta-feira e o Arnaldo falou: “Olha, hoje depois do show dos Doces Bárbaros a gente vai para o aniversário da Bethânia (ou da Gal sei lá, de alguém)… e vai ter uma festa depois. O Arnaldo e a Cláudia – que era mulher dele, mãe do Rodrigo – perguntaram: “Pô, fica tomando conta do Rodrigo hoje, pode ser? A gente vai chegar umas duas, três da manhã. Eu falei: “Claro. Sou o padrinho do Rodrigo, estou morando na casa de vocês podem ir”. Só que deu meia-noite, uma, duas, três, quatro horas e eles não chegavam nunca. Chegaram quase seis da manhã dessa tal festa. E eu estava acordado porque o Rodrigo já estava querendo acordar. Quando eles chegaram já estava claro”, relembra.

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Então, Cantuária resolveu aproveitar o dia.

Como eles moravam no Leblon, coloquei uma bermuda, uma camiseta e fui até a praia. Saí andando no Leblon até o Arpoador. Cheguei ao Arpoador, era umas seis e pouco da manhã, muito cedo . O público de Arpoador não vai tão cedo à praia. Mas foi um fato curioso, porque eu sentei a uns quarenta metros de mim tinha uma menina sentada. Eu não a conhecia e ela não me conhecia. Ela me olhava e eu olhava para ela. Mas todo mundo que chegava à praia me conhecia e a conhecia. Então a distância entre mim e ela foi encurtando. As pessoas foram chegando em mais ou menos, a gente se aproximou, se olhou. Aí teve uma hora que ela saiu de onde estava e chegou mais perto. Ficou ali conversando com amigos. Ninguém nos apresentou, mas eu sentia que tinha uma empatia rolando entre a gente. Ela se dirigiu ao mar. Quando foi mergulhar, eu vi claramente que ela tinha um anel. Aí deu aquele estalo. Sabe quando bate um raio, uma coisa assim”, revela.

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Esse “estalo” a que Vinicius se refere, outros compositores identificam como centelha criativa, inspiração, luz, mote para a composição musical.

“Isso eu conto hoje e talvez eu tenha até imaginado. Mas na hora eu vi. Bateu um raio, raio de sol, né? Consegui ver bem de perto que ela tinha um anel de lua e estrela. Como eu fui caminhando, voltei com a música na cabeça: [cantarolando] Menina do anel de lua e estrela, raio de sol no céu da cidade. Qual era o nome dela? Quem é você, qual o teu nome/ conta pra mim, diz como eu te encontro. Aí de noite, a gente ia pra onde? Pro Baixo, né? Quem sabe te encontro de noite no Baixo /deixa ao destino, deixa ao acaso… A música foi toda sendo formada daquela história. Eu voltei, peguei o violão e a música saiu toda”, relata.

 

A música estava criada, precisava apenas de um grande intérprete que a projetasse nacionalmente.

“Aí eu comecei a tocar com Caetano que adorava as minhas músicas. Mas eu nunca tinha mostrado Lua e Estrela. Não sei porquê. Até que um dia o Arnaldo falou: ‘Porra! Você nunca mostrou Lua e estrela pro Caetano’. Aí o Caetano falou: ‘Lua e estrela, que nome lindo, mostra pra mim. Mostrei, ele adorou, e como estava começando a gravar o disco Outras palavras, falou pra mim: ‘Vou gravar Lua e estrela vamos’? Eu falei: ‘Claro, vamos’! E foi isso. Essa é a verdadeira história da música”, confirma o compositor.

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Vinicius enfatiza que é a “verdadeira”, porque há diversas falsas histórias, inventadas por pretensas musas.

“Anos depois, claro, eu fui encontrar a menina, que se chama Tize. Essa história é a verdadeira, mas há muitas histórias paralelas. Uma ocasião, por exemplo, eu estava com amigos, sentado num bar no Baixo Leblon, no auge do sucesso da música. Aí apareceu uma menina que sabia que eu tocava com Caetano, Puxou a conversa e falou assim: ‘Ah! Pois é, essa música o Caetano fez pra mim’. Ela nem sabia que eu era o autor da música. Muito engraçado [risos]. Tem muitas histórias com essa música, mas a verdadeira história é essa. Eu fiz pra essa menina, que eu não sabia o nome, que tinha um anel de lua e estrela. A letra não é nada mais nada menos do que eu querendo reencontrar essa menina. Então essa é a história”, conclui.

Uma noite em 67 que mudou a história da música

Em 21 de outubro de 1967, a música popular brasileira não era mais a mesma. Um festival de música popular estabelecia um contraponto e uma dialeticidade entre o novo e o velho; entre a música nacional tradicional e a influência das guitarras elétricas; a Bossa Nova e a Jovem Guarda. Tudo isso no meio da ditadura militar.

O que deveria ser um programa de televisão transformou-se num evento de proporções políticas, históricas, sociológicas, culturais… nunca música foi coisa tão séria…

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Tendo o festival ocorrido em plena ditadura militar, o pano de fundo está no duelo  ideológico entre a “verdadeira” música brasileira, e a música dita “jovem”. Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Edu Lobo, Nara Leão, Nana Caymmi, Jair Rodrigues, MPB-4 e Elis Regina, todos eles estavam ali defendendo canções belíssimas, cada uma com sua história.

Esta noite, em 21 de outubro de 1967, foi de forma belíssima registrado no documentário “Uma Noite em 67”, dirigido por Renato Terra e Ricardo Kalil, onde mostra o surgimento de uma série de vertentes que, nas décadas seguintes, passaram a ser chamadas de MPB.

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No período que antecedeu à noite, havia um clima de efervescência política, cultural, ideológica, com passeatas (inclusive uma contra a  guitarra elétrica que tomou a avenida Brigadeiro Luís Antônio em junho de 67,  liderada por Elis Regina) tomando conta do país.

Naquele momento começavam a surgir canções de protesto. O Tropicalismo, com Gil e Caetano, ali dava sinais de que revolucionaria a música brasileira.

Aquele festival, que foi conhecido como o festival da vaia, mescla imagens do festival com depoimento dos artistas, mais de 40 anos depois. Narra o momento histórico de Sérgio Ricardo, que vaiado de maneira incompassível com Beto Bom de Bola, quebra o violão e o atira contra a plateia.

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O documentário, depois de mostrar a célebre cena de Sérgio Ricardo (que diz não ter se arrependido do que fez, mas hoje, jogaria, no máximo, um cavaquinho).

Elis Regina ganhou o prêmio de melhor intérprete, com o “cantador” , e as cinco primeiras colocadas em muito refletem sobre a música brasileira da época.

A quinta colocada, Maria, Samba e Carnaval, um belo samba, mostra como Roberto Carlos, vaiado de maneira violentíssima, consegue ser um intérprete espetacular. Divertido é seu jeito durante as entrevistas.

Caetano se coloca no centro do debate, colocando a Guitarra Elétrica e com sua música Alegria, Alegria, muito vaiada no início, e consagrada no final com gritos de “já ganhou” do público. Embora tenha ficado em quarto lugar, foi o maior sucesso após o festival. Plantada a semente do Tropicalismo.

Chico Buarque, o “mocinho” do espetáculo, segundo  Paulo Machado de Carvalho, já que, para ele, o festival era como um programa de luta livre. “Tinha que ter o mocinho, o bandido, a heroína etc”. Chico diz ter se surpreendido com Gil e Caetano com Guitarras e trajes modernos: “Eles (Chico, Caetano, os Mutantes) estavam lá todos fantasiados e eu de smoking. Aí fiquei com aquela cara… de smoking”, diz Chico, que defendeu a belíssima Roda-Viva, que ficou em terceiro lugar.

Gilberto Gil apresentou Domingo no Parque, música genial que ficou em segundo lugar (Sérgio Cabral, um dos jurados, diz ter se arrependido de não ter votado nela para primeiro lugar – eu concordo com ele). Domingo no Parque era acompanhado pelos Mutantes (Sérgio, Arnaldo e Rita Lee, lindíssima), em arranjo cheio de acordes elétricos. Poucos sabem, mas Gil estava em pânico duas horas antes do festival começar. Precisou ser retirado da cama para se apresentar.

As entrevistas nos entreatos são engraçadas (há muitos cigarros, engraçado como mudou a concepção do ato de fumar), fala-se dos cílios postiços de Maria Medalha (que defendeu com Edu Lobo a campeã Ponteio (numa bela letra de capinam para a música de Edu).

Edu Lobo e Chico mostram que ficaram incomodados por serem chamados de “velhos” pelos “Tropicalistas”, e Chico confessa ter se sentido só em certo momento.

Ponteio, como campeã, é uma bela música, de Edu Lobo e Capinam, e coroa um espetáculo em que vaia, efervescência política, guitarras elétricas e juventude, fez com que a música brasileira jamais fosse a mesma.

Zuza Homem de Mello, no seu livro “A era dos Festivais: uma parábola”, arremata:

Inegavelmente, porém, o que mais marcou as propostas musicais apresentadas no III Festival da Record foi a evolução dos dois artistas baianos: Gilberto Gil e Caetano veloso. As letras de suas composições tinham coincidentemente a mesma forma de slides; os arranjos soavam com uma ruptura dos padrões estabelecidos, ainda que sobre ritmos essencialmente brasileiros (baião e marcha), dando ao resultado final o esboço de uma estética sintonizada com o que acontecia no mais efervescente  período da década de 60″

Zuza também faz referência que as músicas de festival, a partir daí, passaram a ser um veículo de crítica social, sobretudo contra a ditadura militar, mas cantadas de forma a parecerem canções inocentes, de modo que a Censura não percebesse, mas a plateia, sim.

 

segunda 16 agosto 2010 12:04 , em Festivais

Gal Costa e a polêmica do show “O sorriso do gato de Alice”

 

No começo da Carreira, Gal costa, pelo seu timbre único e pelo seu jeito suave de cantar, chegou a ser chamada de “João Gilberto de Saias”. Mas por trás daquela voz inconfundível existe uma mulher ousada, que arrisca, e não foram poucas vezes que Gal saiu da sua zona de conforte de uma das maiores cantoras da música brasileira de todos os tempos  para arriscar.

Apenas para citar de memória, posso fazer referências a “Divino, Maravilhoso”, que apresentou em 1968, no Festival da Record, com cabelo black power, roupas berrantes e atitudes agressivas, ou a capa do disco India, em que logo na capa do LP, tinha uma foto em close da cantora, somente com uma tanga vermelha (na verdade, a foto era da tanga de Gal).

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Mas poucos escândalos foram tão comentados quanto o show”O Sorriso do Gato de Alice”. O show foi dirigido pelo controvertido o diretor teatral Gerald Thomas. Estreou no Rio de Janeiro, em setembro de 1994, e causou muita polêmica.

Duas cenas chamam inicialmente a atenção: a primeira, logo no início do espetáculo, quando Gal surgiu, arrastando-se sobre um teto cenográfico como se fosse uma gata vagando pela cidade sob a lua. O público, na noite da estreia, chegou a vaiar Gal.

 

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Mas o melhor estava por vir.  Durante a música Brasil (Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim), de Cazuza, Gal, que cantava com algo que parecia um pijama, abriu a blusa e cantou com os seios à mostra.

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Foi praticamente capa de todos os jornais do Brasil. Vieram inúmeras críticas, piadas; alguns, mais moralistas, indignados; outros, fãs de Gal, aturdidos.  Chegaram a dizer que as propostas de Gerald Thomas oprimiam Gal.

Em duas entrevistas, Gal se manifestou sobre o tema. A primeira delas foi no ProgramaRoda Viva, da TV Cultura:

Gal Costa: Não me arrependi em nenhum momento de ter feito o espetáculo com Gerald Thomas. Era o que eu queria. Acho que eu tenho muita honra e muito orgulho de ter feito esse espetáculo. Acho que era um espetáculo belíssimo, cenicamente era lindo, era uma espetáculo bem acabado, que eu acho o Gerald Thomas talvez o melhor encenador – estou falando encenador – brasileiro. A luz era deslumbrante, o cenário era lindo. Eu não me arrependo em nenhum segundo. Eu fazia o espetáculo com o maior prazer, não me sentia oprimida, como a imprensa falou, que o Gerald me oprimiu, não me oprimiu, porque eu fiz aquilo que eu quis. Eu só faço aquilo que eu quero. E eu me sentia bem e acho que faz parte da minha história. Quem conhece a minha história sabe que eu sou ousada e que eu faço essas coisas. Eu sei que elas têm um preço, mas eu encaro.

 

Gal Costa: Eu, na verdade, eu fiquei um pouco surpresa. Eu sabia que algumas pessoas iriam se chocar com essa atitude. Eu fiquei impressionada com a quantidade, com o número de pessoas que se chocaram por ver um peito de uma mulher de fora, num palco. Eu acho que aquilo era colocado de uma maneira tão digna, era um momento tão importante, quer dizer, no momento em que eu cantava Tropicália, era um momento que estava ligado à história do Tropicalismo, à história dessa irreverência, dessa coisa que ele falou, de comportamento. Estava ligado a isso. Na verdade, aquilo era um pouco uma retomada da minha carreira. Eu cantei coisas do início da minha carreira, gravações. E a atitude também de entrar no palco, a atitude inusitada de entrar no palco como uma gata, não entrar como uma estrela, é engraçado como isso também incomodou as pessoas. E as pessoas reclamam, reclamam que a gente é igual. O que eu tenho medo é de me estagnar, de ficar igual. Podia entrar no palco, ao som de uma banda, com um vestido lindo, uma mulher bonita, e pronto…cantar, mas não é isso que eu quero. Eu prefiro, entendeu, ir por caminhos mais difíceis até porque eu sei que essas coisas provocam reação, provocam polêmica, mas para mim são mais enriquecedoras, porque me dão coisas novas, à minha personalidade.

Fontes: http://galcostafatal.blogspot.com/search/label/1994%20-%20SHOW:%20O%20SORRISO%20DO%20GATO%20DE%20ALICEhttp://www.rodaviva.fapesp.br/materia/41/entrevistados/gal_costa_1995.htm;http://www.galmariacosta.com.ar/portugues.php?idnota=2363

 

Beatriz. A musa que mudou de nome na composição de Chico Buarque

O médico de câmara da imperatriz Tereza – Frederico Knieps resolveu que seu filho também fosse médico, mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes, com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps de que tanto se tem ocupado a imprensa.”

Com estas palavras começa “O Grande Circo Místico”, poema surrealista de Jorge de Lima, escrito em 1938, e publicado no livro “A Túnica Inconsútil”.

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O poema é inspirado na história do Circo Knie. Em 1803, Friedrich (1784-1850), filho do médico da Imperatriz Maria Teresa da Áustria, abandonou seus estudos médicos e entrou em um circo para fundar sua própria trupe em 1806. Em 1919, a dinastia se transforma no “Circo nacional suíço dos irmãos Knie”.

Jorge de Lima, no singular poema de uma estrofe e 45 versos, mistura realidade com ficção e conta a trajetória de Frederic Knie (que no poema vira Knieps) que abandona a corte e a medicina, apaixonando-se por Agnes, uma equilibrista e começa a dinastia do “Grande Circo Místico” .

Resultado de imagem para jorge de lima o grande circo místicoJorge de Lima

Feito o Poema, o Ballet Guaíra, do Paraná, em 1982, encomendou a Edu Lobo e a Chico Buarque a trilha musical para um espetáculo para o mesmo nome. E aí vem o impasse sobre o tema da equilibrista.

Em história de canções, Wagner Homem conta um pouco da origem da música:

Edu Lobo revela que estavam ambos em sua casa quando sugeriu a Chico algumas ideias para o que seria a canção “Na carreira”: uma canção que fechasse o espetáculo, que era um negócio assim do público com os artistas… aquela coisa que o público tem… será que

não sei o quê, será que… coisas maldosas no meio… será que aquela moça, será que aquele cara… será que… 

Imediatamente Chico se levantou, dizendo que iria para casa fazer a letra da valsa, que estava encalacrada. Pegando o mote do “será que”, terminou a letra de uma das mais belas canções da música popular brasileira.

No poema de Jorge de Lima, a personagem chamava-se Agnes e era equilibrista. Apesar de achar esse nome bonito, a letra não saía. Chico decidiu trocar o nome e a profissão, e, passados alguns dias, surgiu “Beatriz”, uma homenagem à musa de Dante Alighieri.

No video abaixo, depois da canção, Chico fala um pouco sobre a mudança de nome

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Assim, a equilibrista Agnes virou a atriz Beatriz.

Numa entrevista, Chico falou um pouco sobre a composição:

Chico – E só tem graça aceitar uma encomenda quando você pode ser infiel ao que foi encomendado, quando você pode tomar certas liberdades. Quando eu estava fazendo as letras para as músicas de Edu Lobo, no balé O grande circo místico, havia um tema para a equilibrista que eu não conseguia solucionar. No poema de Jorge de Lima, a equilibrista se chamava Agnes, que aliás é um belo nome, mas a letra não saía. Então troquei Agnes por Beatriz, transformei a equilibrista em atriz e coloquei-a no sétimo céu, em homenagem à Beatrice Portinari, de Dante. Beatriz carregando minhas obsessões…”

Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano contam também um pouco dessa valsa:

“No repertório composto, com relevantes arranjos do maestro Chiquinho de Morais, destacou-se a valsa “Beatriz“, uma metáfora da vida de atriz, também surrealista e de excepcional qualidade: “Olha / será que é uma estrela / será que é mentira / será que é comédia / será que é divina / a vida da atriz…

De interpretação difícil, em razão de sua extensão vocal, dos intervalos melódicos e das modulações, “Beatriz” ganhou uma gravação definitiva de Milton Nascimento, que afir-ma: “‘Beatriz‘ é minha.” Edu fez a música em tempo relativamente curto, com “a certeza de que ia ficar legal”, ao contrário de Chico, que demorou para completar a letra, sendo a composição uma das últimas do bailado a ser concluída.

Sem jamais ter entrado em paradas de sucesso, “Beatriz” acumulou prestígio ao longo do tempo, impondo-se por sua beleza como um clássico da moderna música brasileira. Do começo ao fim, sua partitura tem um desenvolvimento encantador, no mesmo nível de criação dos grandes compositores de qualquer época ou país. No formato A-A-B-A, a melodia de A parte de uma célula (“será que ela é moça”), aproveitada cinco vezes em movimento harmônico ascendente, com pequenas alterações, destacando-se os acidentes na última, sobre as sílabas “rosto”, do verso “o rosto da atriz”.

Tempos depois de a música gravada, Edu e Chico descobriram uma coincidência: a nota mais grave da canção cai na palavra “chão” e a mais aguda na palavra “céu”.

O poema:

O GRANDE CIRCO MÍSTICO

Jorge de Lima

O médico de câmara da imperatriz Tereza – Frederico Knieps resolveu que seu filho também fosse médico, mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes, com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Charlote, filha de Frederico se casou com o clown, de que nasceram Marie e Oto. E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora que tinha no ventre um santo tatuado.

A filha de Lily Braun – a tatuada no ventre quis entrar para um convento, mas Oto Frederico Knieps não atendeu, e Margarete continuou a dinastia do circo de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Então, Margarete tatuou o corpo sofrendo muito por amor de Deus, pois gravou em sua pele rósea a Via-Sacra do Senhor dos Passos. E nenhum tigre a ofendeu jamais; e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos, quando ela entrava nua pela jaula adentro, chorava como um recém-nascido. Seu esposo – o trapezista Ludwig – nunca mais a pôde amar, pois as gravuras sagradas afastavam a pele dela e o desejo dele. 

Então, o boxeur Rudolf que era ateu e era homem fera derrubou Margarete e a violou. Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.

Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps. Mas o maior milagre são as suas virgindades em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado; são as suas levitações que a platéia pensa ser truque; é a sua pureza em que ninguém acredita; são as suas mágicas em que o simples dizem que há o diabo; mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.

Maria e Helene se apresentam nuas, dançam no arame e deslocam de tal forma os membros que parece que os membros não são delas. A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos. Marie e Helene se repartem todas, se distribuem pelos homens cínicos, mas ninguém vê as almas que elas conservam puras. E quando atiram os membros para a visão dos homens, atiram as almas para a visão de Deus.

Com a verdadeira história do grande circo Knieps muito pouco se tem ocupado a imprensa.

A música:

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

Fontes:

HOMEM, Wagner. Chico Buarque: História de Canções, Leya, 2009

SEVERIANO, Jaitro; MELLO, Zuza Homem de: A canção no Tempo: 85 anos de Música Brasileira Vol. 2, 1ª edição, 1997, editora 34

QUADROS, DEISILY.  Em Cena, o grande teatro do mundo. Faculdade de Letras da Universidade Federal do Paraná. Dissertação de Mestrado. Curitiba-PR, 2008

https://mulherescantadas.wordpress.com/2011/11/06/a-equilibrista-que-virou-atriz/

https://jeocaz.wordpress.com/2009/05/26/o-grande-circo-mistico-do-poema-ao-album/

Entrevista para a Revista Nossa América, 1989

Vira Virou… A história de um fado brasileiro

Kleiton Ramil, o irmão mais velho da dupla Kleiton e Kledir, tem uma composição que é, ao mesmo tempo uma homenagem a Portugal, à liberdade e à mulher portuguesa.

 

Talvez seja efetivamente um dos mais belos fados brasileiros, e representa uma inegável e bela conexão com Lisboa.

A canção, escrita no final da década de 80 tem uma bela história, contada por Kleiton a Ruy Godinho, no voilume 3 de seu livro “Então, foi assim?”

 

A Almôndegas, a minha primeira banda, tinha acabado em 1978, 79. Eu namorava uma menina que havia viajado para a Europa e me convidou pra ir junto, já que os pais dela moravam lá. Não lembro bem como é que foi, mas o namoro acabou e eu fui viajar sozinho. Fiquei uns dois meses e pouco viajando com um violão a tiracolo. Foi muito enriquecedor, eu nunca tinha ido à Europa. No meu retorno, o último País que passei foi Portugal. Lá, conheci uma cantora, que não era profissional ainda. Ela tinha uma voz muito bonita e eu fiquei falando: “Ah! Por que você não canta, não faz alguma coisa com música”? Quando voltei pro Brasil, ela me pediu pra compor uma canção”, relata.

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“Então, Vira virou foi feita para essa cantora que era muito novinha, devia ter uns vinte e poucos anos. Mas a música – isso que eu acho mais interessante – fala de Lisboa, fala do passaredo, que eu realmente vi enquanto tomava uma cervejinha, vendo os pássaros voando, muito bonito. A música, na sua essência representa não só a história de Lisboa. Eu escrevi falando de Lisboa porque era uma cantora portuguesa e eu achava interessante o argumento. Mas o conteúdo emocional, fala de uma paixão pela Europa. Até porque meu avô era espanhol e eu fiquei maravilhado.

A música tem uma força particular porque essa viagem me deixou magnetizado com algo muito bonito que eu não sei explicar com palavras. É como se a minha aura tivesse triplicado nessa viagem. Eu fiquei muito feliz, o meu coração estava cheio de felicidade”, regozija-se.

 

E agora a história interior, que segundo Kleiton é a parte musical.

“Eu a compus em Porto Alegre, em 1979. Lembro que estava desenvolvendo um encadeamento de acordes onde uma nota era mantida fixa para passar pro acorde seguinte, ou seja, coisas que eu estava experimentando há muito tempo em composição e funcionou com perfeição. Depois de muitos anos tentando, chegou. E a outra coisa interessante é que eu criei a melodia e a harmonia juntas. A melodia começava num acorde e penetrava de forma dissonante no acorde seguinte. Os músicos entendem isso com facilidade. Eram notas que se eu fosse usar de uma maneira simples, podia não funcionar bem. Mas como eram notas de passagem, o final de uma frase melódica entrava no acorde seguinte. 

 

Então, quando escrevi: Quero ver o passaredo/ pelos portos Lisboa/ voa,voa, que eu chego já a rima não está no final, está no meio da frase. Eu fiquei muito atento a isso na letra inteira”, explica.

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Numa interpretação mais apurada, Kleiton nos reserva outras abordagens sobre a criação desta música.

 

“E tem também, além dessa questão técnica, uma questão mais espiritual. Eu sempre fui uma pessoa, até certa idade, bastante… não digo pessimista, mas muito fechada, muito pesada. E eu lutava contra isso. Quando criei a letra de Vira virou me coloquei o compromisso de não escrever a palavra “não”, nem escrever palavras negativas: “nunca”, “jamais”. Eu me policiava pra não escrever. Então a música tem todos os elementos. Por isso que eu tenho o maior carinho por essa canção, Eu percebi que ali eu atingi uma maturidade como compositor. O que seria um presente pra uma cantora de Lisboa, voltou pra mim como um dos maiores presentes na minha vida”, conta emocionado.

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Mas não é só. Assim como Chico Buarque compôs “Tanto Mar”, mais explicitamente dedicada à revolução dos Cravos, em 1974, há esse componente também em “Vira Virou”. Numa entrevista ao Portal Lusa, Kleiton afirmou:  

“Quando falo a frase ‘Levo terra nova daqui’, significa em parte que estamos juntos nessa luta de renovação. Aprendemos com Portugal e desejamos que nossas experiências positivas, as lutas no Brasil, também tenham reflexos”, 

Ramil revelou que escreveu a canção após conhecer Lisboa, em 1979.

“Para um brasileiro, pisar pela primeira vez em terras lusitanas é, no mínimo, mágico” e “senti a necessidade de criar algo que eternizasse essa experiência que mudou a minha vida. A canção está ancorada no amor declarado a Lisboa, mas foi elevada acima disso, como símbolo de amor à liberdade”.

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Por fim, a inspiração. A cantora que pediu a música foi Eugenia Melo e Castro, portuguesa que já tem mais de 35 anos de carreira….

E foi na voz do MPB4 que “Vira Virou” se tornou sucesso

 

Artigo publicado no portal da Lusa(link is external) dedicado aos 40 anos do 25 de Abril.