Rede Globo e as 30 músicas do século XX

 

No ano 2000, na virada do século, a Rede Globo promoveu um especial para escolher as mais importantes músicas do Século XX, no especial “100 anos de música”. Eu assistia o programa com minha irmã, e tentava adivinhar as músicas que seriam escolhidas. Não era uma escolha pelas melhores músicas, mas sim daquelas que tiveram uma significativa importância musical.

Eu tinha certeza que “Aquarela do Brasil” ganharia, sabia que lá estaria “Chega de Saudade”, “Carinhoso” e “Asa Branca”. Imaginava “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo. Apesar de entender a importância de Tom Jobim, achei em certa medida exagerada a inclusão de 8 músicas suas entre as 30 (que, na verdade, são 31).

Senti a ausência de referências a músicas tropicalistas, parece que não houve Rock no Brasil no século XX (talvez Secos e Molhados, Rita Lee ou Raul Seixas, pelo menos um deles mereceria uma referência, ou, para o fim do século, Renato Russo ou Cazuza).

Não acho que Sampa seja a mais importante de Caetano, nem  O que será  a mais importante de Chico (embora estivesse também presente Retrato em branco e preto, em parceria com Tom Jobim). Novos Baianos, Nação Zumbi, Assis Valente, todos mereceriam menções honrosas. Mas toda lista desse estilo é polêmica.

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São 8 músicas de Tom Jobim, 4 de Vinícius de Moraes; 2 de Chico Buarque, Ary Barroso, Noel Rosa, Vadico e Dorival Caymmi. Os demais têm uma música. A lista:

Campeã: Aquarela do Brasil

1: “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro)
2: “Garota de Ipanema” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
3: “Asa branca” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
4: “Águas de março” (Antônio Carlos Jobim)
5: “Chega de saudade” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
6: “As rosas não falam” (Cartola)
7: “Travessia” (Milton Nascimento e Fernando Brant)
8: “Desafinado” (Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça)
9: “Eu sei que vou te amar” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
10: “Chão de estrelas” (Orestes Barbosa e Sílvio Caldas)
11: “Se todos fossem iguais a você” (Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes)
12: “Luar do sertão” (Catulo da Paixão Cearense)
13: “Samba do avião” (Antônio Carlos Jobim)
14: “Brasileirinho” (Waldir Azevedo)
15: “Retrato em branco e preto” (Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque)
16: “O que será” (Chico Buarque de Holanda)
17: “Saudade da Bahia” (Dorival Caymmi)
18: “Manhã de carnaval (Luiz Bonfá e Antônio Maria)
19: “No rancho fundo” (Ary Barroso e Lamartine Babo)
20: “O bêbado e o equilibrista” (João Bôsco e Aldir Blanc)
21: “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu)
22: “Feitiço da Vila” (Noel Rosa e Vadico)
23: “Feitiço de oração” (Noel Rosa e Vadico)
24: “Marina” (Dorival Caymmi)
25: “A noite do meu bem” (Dolores Duran)
26: “Foi um rio que passou em minha vida” (Paulinho da Viola)
27: “Aquele abraço” (Gilberto Gil)
28: “Sampa” (Caetano Veloso)
29: “Detalhes” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
30: “Meu bem querer” (Djavan)

 

Fontes http://redeglobo.globo.com/videos/t/variedades/v/especial-100-anos-de-musica-escolheu-a-maior-cancao-brasileira-do-seculo-xx/3860555/

 

O Filho Que Eu Quero Ter

Vinícius de Moraes, quando conta a história de como foi feita “O Filho que eu quero ter”, adjetiva como, ao mesmo tempo, “linda” e “patética”. Isso porque  na praia de Boa Viagem, no Recife, Toquinho contou a Vinícius sobre seu desejo de ter um filho. Experiente no assunto, o poeta respondeu algo como “Vai nessa! Dá trabalho, mas é muito bom.”

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Toquinho, então, mostrou-lhe uma melodia que havia composto inspirado naquele desejo, com uma levada típica de cantigas de ninar. Foi à praia e deixou o parceiro a embalar a música recém-composta.

Ao que consta, Vinicius emocionou-se ao escrever a letra. No fim da tarde, quando Toquinho retornou, o encontrou em prantos, com a letra da música nas mãos.

Percebe-se os três pedaços da música: No primeiro, o nascimento, o sonho e o amor de se ter um filho; a segunda parte, ao vê-lo crescer, ao perguntar um “porquê que não tem fim“, mas que as dores da vida o aguardam; por fim, o trecho relata o pai, no leito de morte, ao ser embalado pelo filho com a mesma canção e o sonho de também ter um filho.

Em três estrofes, narra a trajetória do amor de pai para filho e de filho para pai..

 

Toquinho então afirmou: “Essa música contém uma magia que emociona. Possui uma melodia quase infantil, uma espécie de moldura para a ideia da letra”. Trata-se de uma das mais comoventes canções da parceria Toquinho/Vinícius. As imagens do sonho do nascimento, do crescimento, até a despedida na hora da morte.

 

Gravada por Chico Buarque, em 1974, é uma verdadeira homenagem à paternidade. Vale muito o registro.

 

 

Fontes:

Ruy Godinho. Então, foi assim?, vol. 1/

João Carlos Pecci e Wagner Homem. Toquinho: Histórias de canções

 

Toquinho/Vinícius de Moraes

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer

Pois eu também dei de sonhar

Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim
Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus
Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter 

 

 

 

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A “homenagem” e a recusa de Tom Zé na São Paulo Fashion Week em 2004

 

No ano de 2004, o estilista mineiro Ronaldo Fraga resolveu fazer uma homenagem ao compositor “Tom Zé” na São Paulo Fashion Week do mesmo ano. O seu desfile seria intitulado “São Tom Zé”, numa expressa referência à canção “São, São Paulo Meu Amor”, vencedora do Festival da canção da Record em 1968.

Considerado pelo estilista como “genuíno tropicalista”, e que confere “estatuto de arte e vanguarda à cultura popular”, Ronaldo Fraga desejava fazer uma homenagem a Tom Zé, só que se esqueceu de combinar com ele, que, ao saber da homenagem, pediu R$ 30 mil pela utilização de sua obra no desfile.

 

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O estilista, contrariado, disse à Folha de São Paulo:  ‘Não entendi, eu estava fazendo uma homenagem. Fiquei muito triste, mas respeitei. Não adiantaria eu discutir que arte é arte e que, uma vez que ele fez uma música, não é mais dono dela. Ele é gênio, pode fazer o que quiser.’

E isso coloca em voga a questão (recentemente bem abordada, sobre o ponto de vista jurídico, pelo também professor e amigo Rodrigo Moraes no seu blog), sobre a questão da propriedade da arte, da ideia, da inspiração.

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Por mais que se discuta se a arte é criação, recriação, transformação, compilação, é certo que ela representa algo valioso e caro para o artista. E isso tem um preço, que será pago se o público entender que isso tem valor. Até porque, ao contrário do que muitos pensam, não é fácil sobreviver de ideias…

E, nessa linha, Tom Zé divulgou um texto na Folha de São Paulo, como resposta ao episódio, intitulado “Isso que está acontecendo me deixa muito humilhado”. No texto, após elogiar o trabalho do estilista Ronaldo Fraga, Tom Zé desabafa:

 Pela lei brasileira, um trabalho musical passa a ser considerado de domínio público 150 anos depois da morte do autor. É verdade que fui enterrado vivo em 1970, na divisão do espólio do tropicalismo. Mas, mesmo de acordo com essa contagem, só tenho 34 anos de morto. Então minha música ainda não é de domínio público.

Cacilda Becker que me ajude: não posso dar de graça a única coisa que tenho para vender. Senti muita humilhação com esse episódio. Tenho 67 anos, e o assunto da sobrevivência é tema de pensamento de grande parte dos meus dias, pois até hoje não descobri ainda outro meio de ganhar a vida, de sustentar minha família, de ter dignidade e respeito próprio, a não ser vendendo o que faço

Ronaldo Fraga alega que está fazendo divulgação de minha obra. Divulgação, é claro, é necessária em qualquer ramo. Ora, várias vezes comprei na loja de Ronaldo Fraga e sempre paguei o que comprei. Apresentei-me em programas de Serginho Groismann e de Ana Maria Braga, por exemplo, usando roupas dele, nem por isso me considerando divulgador visual da marca. Jamais me passou pela cabeça pedir abatimento, quando da compra, porque estaria fazendo divulgação. Quanto mais, alegando que eu estava me convertendo em passivo modelo da loja, argumentar que ele deveria me dar as roupas de graça.

Isso que está acontecendo com a minha música me deixa realmente muito humilhado. Não sou uma vedete, mas imagine se Ana Paula Arósio, que é naturalmente muitíssimo divulgada pela Embratel, não recebesse um honrado pagamento pelo seu trabalho.
Pedi R$ 30 mil, mas, quando João Marcello Bôscoli, presidente da Trama, minha gravadora, me chamou ao telefone, compreendi que, do ponto de vista de artista da gravadora, eu deveria levar em consideração o problema da divulgação. Tanto que autorizei João a negociar com Ronaldo Fraga e aceitar um preço a que chegassem, por acordo.
Para estudantes, cineastas, dramaturgos, encenadores, profissionais iniciantes, concedo uma média superior a dez autorizações por mês, abrindo mão de quaisquer direitos autorais, quando eles me consultam para inserir minhas músicas em seus trabalhos. Em tais casos, estou dialogando com a nova geração, ainda desprovida de recursos, e concedendo-lhe, na minha medida, o que considero meu dever, um mínimo de possibilidades.”

Todos os dias diversos blogs fazem divulgações de músicas, numa multiplicação virtual do efeito boca a boca. Mas ainda não temos uma cultura de valorização da obra intelectual. E deve ter doído ainda mais a Tom Zé a ciência de que, se ele estivesse em plena evidência, ninguém discutiria o pagamento de direitos autorais. O certo é que ele é dono, e somente ele pode distinguir o que é homenagem e o que é enriquecimento ilícito da sua obra.

 

P.S. 1. Na verdade, os direitos  patrimoniais do autor perduram por setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subsequente ao de seu falecimento, obedecida a ordem sucessória da lei civil. (Lei 9.610/98, artigo 41)

P.S. 2. O desfile não se chamou ‘São Tom Zé’, mas ‘São Zé’. As músicas da trilha não foram do bardo tropicalista, mas de Hermeto Pascoal e Cordel do Fogo Encantado.

P.S. 3. Acho Tom Zé Genial

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u45405.shtmlhttp://www.rodrigomoraes.adv.br/artigos.php

sexta 23 dezembro 2011 19:39 , em Pol?micas

 

Tô Voltando – Paulo César Pinheiro ( A canção da volta dos Exilados)

Uma música pode ser feita com um sentido e um propósito, mas quando ela sai para o mundo e ganha seu público, ela pode adquirir uma conotação bem diferente daquela imaginada por seu compositor. Tenho certeza que Milton Nascimento não esperava, por exemplo, que “Coração de Estudante” viraria um hino da redemocratização do país, em 1984.

Uma das músicas que ganhou essa importância e repercussão foi “Tô Voltando“, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós. A música, que é como uma carta do homem para sua mulher, ele está distante, viajou, e está pedindo que ela prepare a casa e se prepare para sua chegada

O Homem elenca uma série de coisas que ele gosta, desde o feijão preto, a cerveja Brahma, o chinelo na sala, a casa cheia de flor…

Passa em seguida a dizer de que maneira gosta de sua mulher sensual, com camisola nova, crianças e empregadas longe, quer que ela pegue uma cor e arrume o cabelo só para ele despentear e esquecer de tudo.

Na verdade, a música foi feita a partir de uma ideia de Maurício Tapajós, cansado das viagens depois de uma turnê de mais de um mês no Nordeste, que estava com saudade de casa, e começou o mote da canção “Tô voltando”.

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No entanto, na internet muita gente acha que essa música, ou foi composta por Chico Buarque, ou foi composta para Chico Buarque. Explico.

O ano era 1979, e o Brasil estava na campanha de Anistia dos exilados políticos da ditadura. Anistia que acabou saindo. E adivinha que música os primeiros exilados cantaram quando chegaram em solo nacional? Tô voltando!!! E como muitos identificam canções de combate à ditadura com Chico Buarque, muitos pensam hoje que a música é dele.  Paulo César conta isso no seu “História das minhas canções”  (Leya, 2010). O vídeo vem na voz de Simone, que eternizou o sucesso.

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TÔ VOLTANDO

Maurício (Tapajós)…me ligou pra falar sobre uma ideia que tivera no caminho de volta. Cansado da tensão de palco (sem o hábito de cantar pra o público) e de tanta farra, bateu nele, já no finalzinho, uma saudade imensa de casa, da mulher, dos filhos, do Leblon, do Rio. E de Tapajós pra Tapajós ele dizia, às vésperas do retorno:

– Nem acredito que eu tô voltando…

E esse mote não o abandonou mais. Só podia dar samba… Com o violão na mão e o fone preso entre o ombro e a orelha cantarolou pra mim rascunho da melodia em que se repetia o “tô voltando”.

– Quê que você acha, parceiro?

-Acho ótimo, gordo. Tô indo pra aí. Ainda aguentas mais um uísque?

Passamos o resto do dia dando a forma à composição.

Na manhã seguinte, já em meu escritório, fui burilando a letra. Era simples e popular a canção e os versos foram fluindo. Eu, que já passara tanto por isso, tantas as viagens que fizera, enormes as saudades de casa, sabia bem do assunto que devia abordar. O papo era recorrente à nossa profissão.Toda a classe artística sentia profundamente essa ânsia de regresso depois de cada temporada. E todos queriam as mesmas coisas que eu rabiscava agora naquele samba. Ficou lindo o que agente fez, e cheio de empatia.Era cantar uma vez e na segunda todos acompanhavam.Virava logo coro. Fácil de decorar. Senti imediatamente cheiro de sucesso.

Imagem relacionadaPaulo César Pinheiro


Simone estava escolhendo repertório para seu disco anual. Mostramos pra baiana. Ela veio que veio:

– Esse é meu!

Foi pro estúdio e arrebentou. Era 1979, e o samba ganhou o Brasil. Só dava ele nas rádios, “Estourou no Nordeste!” era a expressão bem-humorada que se usava na época, para designar a música que ganhava as paradas nacionalmente.

 

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Agora vocês vejam como a arte tem seus mistérios…

Pouco tempo depois, estava eu vendo o jornal nacional da TV Globo cujo tema central era o dia do retorno dos exilados políticos ao nosso país, tendo sido conquistado, com muita luta doa que ficaram encarando o regime militar, a anistia ampla, geral e irrestrita, quando, pra minha surpresa, no avião lotado por nossos companheiros, entre entrevistas e choros ao vivo, entoou-se, numa só voz, o “Tô voltando”. A cena foi uma pancada no meu coração.

A emoção tomou conta de mim e as lágrimas correram no meu rosto. Minha voz embargou. Os pelos eriçaram. Estufavam as veias e os nervos retesavam.

Tive que respirar fundo e sair da frente da tevê pra não enfartar.

A música tinha tomado outra conotação a partir dali. Virara o hino dos exilados. E é assim que é vista até hoje, pra meu regozijo. E é assim que pensam que ela foi feita, pra minha satisfação. O que mostra que o destino das canções não está em nossas mãos. Elas são o que elas quiserem ser, acima dos motivos por que foram feitas. Que bom que ela tenha virado o que virou.


Ergo um brinde a isso. Sempre.

sexta 01 outubro 2010 13:05 , em Samba

Neide Candolina

No disco Circuladô, em 1991, Caetano fez uma canção homenageando uma mulher “preta, linda e chique” , dotada de características peculiares, dona de um carro como fruto de seu trabalho de professora, e que nunca furou o sinal.

A canção contrasta a beleza e a elegância da mulher com a “suja” Salvador, e a referência a uma expressão de baianês, que é “brau”, derivativo de “brown”, que significa algo de baixo nível, de certo modo racista, para referir-se a um lugar onde se encontram pessoas pobres e de baixo nível. Caetano subverte a expressão “brown” para mostrar a beleza, a nobreza e a elegância dessa mulher,  que na verdade são duas:

A primeira é Neide Santos, chef do restaurante Africano Yorubá, no Rio de Janeiro, que Caetano conheceu quando ela era bem jovem, por intermédio de Antonio Risério

Neide é referência no Rio, quando se trata das delícias da comida baiana

A segunda foi sua professora de português, Candolina Rosa de Carvalho Cerqueira, Professora primária aos 18 anos, pela Escola Normal da Bahia, graduou-se em Línguas neolatinas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFBA, em 1949.

Em 1950, casou-se com Francisco de Morais Cerqueira, com quem teve cinco filhos. Francisco morre prematuramente, deixando a esposa viúva aos trinta e oito anos de idade, com os filhos eram pequenos. Foi mestra de Língua Portuguesa para várias gerações de baianos, em tradicionais colégios de Salvador – Colégio Central da Bahia, Colégio Severino Vieira, Colégio Marista – e permaneceu na memória de seus alunos. Morreu em 1973, aos 51 anos, vítima de um câncer de mama. Ela nomeia a escola da  rede estadual de ensino da Bahia, no bairro de Pau Miúdo.

Da mistura das duas nasceu Neide Candolina, a música que homenageia essas duas belas mulheres. Caetano conta, em “sobre as letras”, a história:

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“Neide é uma mistura de duas pessoas pretas da Bahia. Uma é Neide, minha amiga, que hoje em dia tem um restaurante no Rio de Janeiro chamado Iorubá. Eu a conheci quando ela tinha dezoito anos. Quem me apresentou foi um amigo, Antonio Risério, que é poeta e ensaista. Ele disse: “Você tem que conhecer a Neide e o pessoal dela, é uma gente maravilhosa, vamos ao Zanzibar! Eu disse a ela que a gente ia descer lá hoje”. Então, descemos onde ela morava, embaixo do restaurante que pertencia à família dela. E, quando chegamos, ela estava nua em pelo! Linda! Perfeitamente linda! Estava ouvindo um disco do Djavan. Ela me falou: “Você gosta do Djavan? Você quer um pouquinho de coca-cola?”. Assim, totalmente social. Conversava, cruzava as pernas, pegava as coisas, mostrava revistas, comentava, mudava a faixa do disco, nua, elegantíssima, social, sem qualquer escândalo. Ela tinha ficado nua em casa porque estava calor em Salvador, e não tinha certeza se Risério ia mesmo lá naquele dia. Mas também não quis se vestir quando chegamos, não se assustou. A outra pessoa que entrou na composição de Neide Candolina foi minha professora de português, a mais importante de todas, Dona Candolina. Então eu misturei o nome das duas e criei uma personagem negra, baiana, moderna.

 

O mais interessante é que aparece a palavra brown aqui, que é uma palavra que, na Bahia, era usada de modo pejorativo. Nos anos 70, 80, dizia-se: “está muito brown isso aqui; a praia está muito brown”, porque tinha muito preto, era muito baixo nivel, uma coisa cafona e pobre. Os pretos se chamavam de brown por causa de James Brown. Por isso que Carlinhos Brown é Carlinhos Brown, Mano Brown é Mano Brown; tudo vem de James Brown.

E como os pretos se chamavam de brown uns aos outros, a gíria pegou e a classe mádia “branca” começou a usar a palavra brown como quem diz “cafona” na Itália.

 

Preta chique, essa preta é bem linda

Essa preta é muito fina

Essa preta é toda glória do brau

Preta preta, essa preta é correta

Essa preta é mesmo preta

É democrata social racial

Ela é modal

Tem um Gol que ela mesma comprou

Com o dinheiro que juntou

Ensinando português no Central

Salvador, isso é só Salvador

Sua suja Salvador

E ela nunca furou um sinal

Isso é legal

E eu e eu e eu sem ela

Nobreza brau, nobreza brau

Preta sã, ela é filha de Iansã

Ela é muito cidadã

Ela tem trabalho e tem carnaval

Elegante, ela é muito elegante

Ela é superelegante

Roupa Europa e pixaim Senegal

Transcendental

Liberdade, bairro da Liberdade

Palavra da liberdade

Ela é Neide Candolina total

E a cidade, a ba¡a da cidade

A porcaria da cidade

Tem que reverter o quadro atual

Pra lhe ser igual

E eu e eu e eu sem ela

Nobreza brau, nobreza brau

 

 

[Caetano Veloso, Sobre as letras, Editora Schwarcz, São Paulo, 2003]

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Candolina_Rosa_de_Carvalho_Cerqueira

Belchior x Raul Seixas…

 

Reza uma lenda que Raul Seixas teria composto sua famosa canção “eu também vou reclamar” numa clara crítica à postura de determinados artistas, entre os quais se encontraria Belchior.

Mas é que se agora/Pra fazer sucesso/Pra vender disco/De protesto/Todo mundo tem/Que reclamar…”

Belchior, em resposta, teria escrito a belíssima “A palo seco” como uma suposta réplica a Raul, em que vociferava:

Se você vier me perguntar por onde andei/No tempo em que você sonhava/De olhos abertos lhe direi/Amigo eu me desesperava/Sei que assim falando pensas/Que esse desespero é moda em 73/Mas ando mesmo descontente/Desesperadamente eu grito em português”  

É uma história divertida, mas que não se sustenta em fatos, vez que A Palo seco foi gravada por Belchior em 1974 (no disco Mote e Glosa), e Eu também vou reclamar foi gravada apenas em 1976…

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Na verdade, me parece mais o contrário. Raul Seixas, quando compôs “Eu também vou reclamar” ele criticava um certo modismo da música brasileira de fazer protestos, como apenas uma forma de vende discos. Na canção, há referências implícitas a Belchior:

 Raul diz: Não há galinha em meu quintal” “E nem sou apenas o cantor”, “sou um rapaz latino-americano”a duas canções de Belchior, além de criticar a voz do cearense, chamando-a de “chata e renitente”, Raul ironicamente sentencia:

Eu já cansei de ver o sol se pôr / Agora sou apenas um Latino-Americano Que não tem cheiro nem sabor / (…) / Mas agora eu também resolvi dar uma queixadinha / Porque eu sou um rapaz Latino-Americano / Que também sabe se lamentar”.

Raul se refere, na verdade, às canções de Belchior:  “Apenas um rapaz latino-americano” e “Galos, noites e quintais”. 

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Mas a crítica não é somente a Belchior. Ele também considera chato Silvio Brito e sua música “Pare o mundo que eu quero descer”, bem como a “Nuvem Passageira”, de Hermes Aquino.

Percebe-se, portanto, que quem responde é Raul, pois se percebe que Belchior, em “Alucinação”, diz que não está interessado em  nenhuma teoria, nem tampouco em “romances astrais” , como refere Raul Seixas em “Trem das sete”. 

Portanto, assim como Noel Rosa e Wilson Batista, Belchior e Raul trocaram também suas farpas… quem tem razão? O “rapaz latino americano” ou quem fala do mal e o bem num “romance astral?”

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O fato é que, em 1984, a polêmica parecia superada, pois Belchior gravou “Ouro de Tolo”, de Raul…

Fontes: http://www.incomunidade.com/v22/art.php?art=19

Eu também vou reclamar

terça 16 setembro 2014 12:33 , em “Rivalidades” Musicais

Gentileza – Marisa Monte. O profeta e os muros pichados que inspiraram a canção.

 

Existe uma figura lendária, que andava pelas ruas do Rio de Janeiro, até seu falecimento, em 1996, aos 79 anos. Trata-se do “Profeta Gentlieza”, um andarilho que era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Sua frase mais conhecida: “Gentileza gera Gentileza”

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A partir da década de 80, o “Profeta Gentileza” escolheu 56 pilastras do Viaduto do Caju, no Rio de Janeiro, e a preencheu com diversas inscrições em verde-amarelo, que ressaltavam sua visão de mundo. Tratava-se de um verdadeiro ponto turísitico com a fiolosofia do andarilho.

Só que os escritos do profeta Gentileza foram depredados, não só por pichadores, mas pelo próprio poder público. E aí Marisa monte conta de que maneira a canção Gentileza foi composta: (http://www.formspring.me/mmprocuresaber)

Uma vez, estava passando pela área do Cais do Porto aqui no Rio com meu amigo Carlinhos Brown. Como ele não é do Rio, eu quis mostrar pra ele algo especial da minha cidade que eu sabia que ele ia gostar.
 

Foi quando eu procurei nos pilares do Viaduto do Caju, os escritos do Gentileza, figura que me fascinava e que eu conhecia desde a infância.

Qual não foi minha decepção quando vi que eles haviam sido apagados pela cia. de limpeza urbana do Rio. Fiquei desolada pensando nos inúmeros significados desse ato numa metrópole como o Rio. O legado do Profeta Gentileza havia desaparecido pra sempre.

Na mesma noite, compus “Gentileza”. “Apagaram tudo, pintaram tudo de cinza…”
Minha voz se uniu a muitas outras e, hoje, graças ao trabalho do Prof. Leonardo Gelman da ONG Rio Com Gentileza, a obra do Profeta está linda, restaurada e faz parte do inventário afetivo da cidade.

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A inspiração da canção, e o belo resultado em decorrência.

Apagaram tudo,
pintaram tudo de cinza.
A palavra no muro
ficou coberta de tinta.

Apagaram tudo,
pintaram tudo de cinza.
Só ficou no muro
tristeza e tinta fresca

Nós que passamos apressados
pelas ruas da cidade,
merecemos ler as letras
e as palavras de Gentileza.

Por isso eu pergunto
à você no mundo,
Se é mais inteligente
o livro ou a sabedoria.

O mundo é uma escola.
A vida é o circo.
“Amor” palavra que liberta,
já dizia o Profeta.”

sexta 18 maio 2012 11:53 , em Músicas e Homenagens

Acabou chorare – A canção título

De uma abelhinha pousando na mão de Galvão à mistura de línguas de Bebel Gilberto, nasceu uma das obras primas dos Novos Baianos, parceria Moraes/Galvão. Acabou Chorare.

O álbum Acabou Chorare é a obra-prima dos Novos Baianos, escolhida pela Revista Rolling Stone, não por acaso, como o melhor disco brasileiro de todos os tempos.

Os Novos Baianos, no começo da década de 70, era um grupo de rock, Hippie, inspirado em Jimmy Hendrix e no Tropicalismo. Mas tudo mudou quando o grupo  conheceu João Gilberto e se reinventou com o samba. João era amigo de infância e conterrâneo (Juazeiro-BA) do principal letrista do Grupo, Luiz Galvão.

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Quando João foi visitar o grupo no apartamento em que todos compartilhavam em Botafogo, os Novos Baianos eram roqueiros, elétricos, quando João plantou a semente do samba no grupo (aliás, o encontro de João com os Novos Baianos merece uma postagem autônoma).

Surgiu daí, sob a influência de João Gilberto, o álbum que mudou a história da Música:Acabou Chorare.

A canção título do álbum é absolutamente joãogilbertiana. Apenas com o violão de Moraes, a música começa com as firulas vocais, e parece uma canção de ninar, com o bu-bu-li-lindo uma música feita “de manhã cedinho”, as onomatopéias da abelhinha fazendo “zum zum e mel” e o “suave mé” do carneirinho

O título da música se deve a uma expressão utilizada, na época, por Bebel Gilberto, filha de João Gilberto e Miúcha. Ela, bem pequena, costumava misturar português e espanhol, por causa de uma temporada em que ela vivia no México.

Bebel teria tomado um tombo, e quando João e Miúcha foram acudi-la, e quando viu os mais velhos em volta, aflitos para saber se ela tinha se machucado, ela teria dito: “Acabou chorare, papai”.

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Mas o título veio depois de um episódio que Galvão, autor da letra, conta no blog https://osnovosbaianos.wordpress.com

…uma abelha, que a imagino sobre natural, pra ser capaz de voar alto ao ponto de chegar ao quarto andar daquele apartamento de cobertura e entrar no meu quarto, vindo em meu socorro. Encantado em movimento automático estendi-lhe a mão direita e ela sentou na palma no centro do EME.

 Depois de uma respirada de alívio Eu brinquei com ele dizendo: “Não fique triste Barbudo que ela também pousa em você.” Dito isso a abelha sentou no seu rosto. O Barbudo deu uma risada mostrando uma satisfação que beirava êxtase. Eu falei: “É que sua mãe botou néctar no seu rosto, você é uma flor Barbudo, e não fique com inveja que ela senta em você também ”. Ele, na maior ingenuidade, falou: “Vamos dar açúcar para ela”. A abelha parece que ouviu e desapareceu pelas frestas da janela….

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À noite fui ao Leblon no apartamento de Ronaldo Duarte, para convidá-lo para ser o fotógrafo câmara do filme. Ele aceitou e resolveu mudar-se com sua companheira Sosó que era filha do grande artista plástico argentino/baiano Caribé. (…) Eu nem tinha esquentado o sofá e a abelhinha que fizera amizade comigo na madrugada daquele dia, voltou a sentar na minha mão. Falei: Essa abelha já esteve comigo hoje lá em Botafogo. As pessoas presentes espantaram-se achando que eu estava doido.

É por acreditar Ipsis Litteris* nessa versão, que fiz a letra da música Acabou Chorare, na qual consegui uma linguagem poética angelical. É o que sinto dizerem, sem abrir a boca, as crianças e os adultos com corações meninos.

Alguém pode até argumentar que era outra abelha, mas vai ficar falando sozinho porque a minha relação com esse insetozinho do bem e reservado ao máximo é profunda ao ponto de até hoje elas, as abelhas sentarem na minha mão e no meu rosto, deixando os presentes assustados. E na maior tranquilidade não permito que as espantem. Quando isso acontece acredito ser sinal de boa sorte naquele dia.

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Telefonei para João Gilberto contando que estava fazendo uma letra sobre essa relação com a abelhinha. João disse: “Puxa Luizinho! ( É assim que ele me chama) Eu estava falando com o poeta Capinan e ele lembrava que a abelha beija a flor e faz o mel, e eu gostei e completei: ‘E ainda faz zun-zun”. Perguntei a João: “Posso usar isso?” E ele aprovou dizendo: “Deve”.

Não parou por aí, João contou-me que sua filha Bebel Gilberto, nascera no Brasil e pequena ainda morara nos Estados Unidos, e logo se mudara para o México. Ali naquele país a menina levara uma pancada, e ele, João, preocupado, com a aflição de pai nessas horas, foi acudi-la, mas Bebel reagira corajosamente e, na sua inocência de criança, falando uma língua em formação, o acalmou assim: “Não! Não! Acabou Chorare”. E deu uma risadinha escondendo a dor. Escrevi a letra pronta mostrei a Moraes que colocou a música na hora

Foi a inspiração para que os Novos Baianos fizessem sua “canção bossa nova”. Bebel Gilberto chegou a gravar, junto com Carlinhos Brown, em 2009, a música feita em sua homenagem. Mas desentendimentos com produtora Paula Lavigne fizeram com que a canção ficasse fora do seu novo álbum “all in one”.  Mas ela acabou gravando na compilação “Red Hot + Rio 2”

Novos Baianos, João Gilberto, bossa-nova e o melhor da música brasileira.

Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bulindo
No bu bu bulindo
No bu bu bulindo

Talvez pelo buraquinho, invadiu-me a casa, me acordou na cama
Tomou o meu coração e sentou na minha mão

Abelha, abelhinha…

Acabou chorare, faz zunzum pra eu ver, faz zunzum pra mim

Abelho, abelhinho escondido faz bonito, faz zunzum e mel
Faz zum zum e mel
Faz zum zum e mel

Inda de lambuja tem o carneirinho, presente na boca
Acordando toda gente, tão suave mé, que suavemente
Inda de lambuja tem o carneirinho, presente na boca
Acordando toda gente, tão suave mé, que suavemente

Abelha, carneirinho…

Acabou chorare no meio do mundo
Respirei eu fundo, foi-se tudo pra escanteio
Vi o sapo na lagoa, entre nessa que é boa

Fiz zunzum e pronto
Fiz zum zum e pronto
Fiz zum zum

Fontes: GALVÃO, Luís: Anos 70: Novos e baianos. São Paulo: Editora 34, 1997; MOREIRA, Moraes. A história dos Novos Baianos e outros versos. Rio de Janeiro: Língua Geral Editora, 2007;

https://osnovosbaianos.wordpress.com/2011/08/02/acabou-chorare-a-verdadeira-historia/

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u637721.shtml

quinta 24 junho 2010 10:04 , em MPB

Gilberto Gil – Andar com fé


Dia 26 de junho é o dia de aniversário de Gilberto Gil. E nesse ano de 2020, ele deu um presente especial para todos: uma regravação da música “Andar com Fé”, gravada em 1982 e que parece mais atual e atemporal do que sempre e do que nunca.

Iza, Chico Buarque, Stevie Wonder e mais regravam “Andar Com Fé ...

Gil reuniu  um time de 55 artistas, de Emicida a Stevie Wonder, de Caetano a Margareth Menezes, de Marisa Monte a Frejat, e manda um recado de fé e esperança no dia em que completa 78 anos.      

 

Participaram do cilipe: Alcione; Ana Carolina; Andrucha Waddington; Bela Gil; Bem Gil; Bento Gil; Caetano Veloso; Carolina Dieckmann; Chiara Civello; Chico Buarque; Cicinho; Claudia Leitte; Daniela Mercury; Djavan; Drik Barbosa; Emicida; Fernanda Montenegro; Fernanda Torres; Fióti; Flor Gil; Flora Gil; Francisco Gil; Gabriel Gil; Frejat; Ivete Sangalo; Iza; João Gil; Jorge Ben Jor; José Gil; Julia Mestre; Jullie; Lenine; Lucas Gil; Lulu Santos; Margareth Menezes; Maria Gil; Mariá Pinkusfeld; Marília Gil; Marisa Monte; Milton Nascimento; Nando Reis; Nara Gil; Nino Gil; Pedro Gil; Preta Gil; Rael; Regina Casé; Roberta Sá; Rogério Flausino; Silva; Sol de Maria S; Stevie Wonder; Teresa Cristina; Zeca Pagodinho

 

A história da canção é contada no disco “Todas as letras”, de Gilberto Gil e organizado por Carlos Rennó (Cia das letras, 1996). O grande mote da canção  é a utilização da expressão “faiá” em vez da linguisticamente correta “falhar”.

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Gil explica, no livro, a utilização desse recurso:

O uso do ‘faiá’ é assumido com a intenção de legitimar uma forma popular contra a hegemonia do bem-falar das elites. É uma homenagem ao linguajar caipira, ao modo popular mineiro, paulista, baiano – brasileiro, enfim – de falar ‘falhar’ no interior. É quase como se a frase na canção não pudesse ser verdade se o verbo fosse pronunciado corretamente – o que seria um erro…Outro dia cometeram esse ‘deslize’ na Bahia, ao utilizarem a expressão na promoção de uma campanha de cinto de segurança. Nos outdoors, saiu: ‘a fé não costuma falhar’ (a propaganda associava o cinto à fitinha do Senhor do Bonfim). Eu deixei, mas achei a correção desnecessária.”

 

Mais adiante, Gil Arremata:  “Faiá é coração, falhar é cabeça, e fé é coração”

Nestes dias tão complicados, nada mais do que fazer uma referência à fé. E nada como receber um abraço virtual de tanta gente, o que demonstra o quanto Gilberto Gil é não apenas um grande artista, mas uma pessoa muito querida. 

Parabéns, Gil

terça 18 maio 2010 20:39 , em MPB

“Grito de alerta” – Entre Gonzaguinha e Aguinaldo Timóteo

 

Aguinaldo Timóteo é um cantor relacionado com a música romântica derramada, tido como um cantor brega, bem do estilo popular.

Gonzaguinha firmou-se como um grande compositor da MPB, cujo sucesso surgiu a partir dos festivais universitários na década de 70. O fato de ser filho de Luiz Gonzaga não fez da música de Gonzaguinha uma música de povão, como eram os forrós e baiões do velho Lua

De um lado, um cantor com um vozeirão, com  letras fáceis e apelo  popular. Do outro, um cantor da elite universitária, com letras engajadas e um estilo mais contido. O que eles teriam em comum?

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Segundo Paulo Cesar de Araújo, no seu livro Eu não sou cachorro não (Rio de Janeiro: Record,2005), há uma história que envolve a criação da música Grito de Alerta, que veio a ser gravada por maria Bethania.

Gonzaguinha e Timóteo eram contratados da mesma gravadora (EMI) na década de 70 e acabaram tornando-se amigos. Segundo Araújo, Gonzaguinha  não escondia uma certa admiração por Timóteo, pois este “sabe segurar a barra de viver o permitido e o não permitido”.

Ambos também possuíam fortes convicções políticas, nem sempre coincidentes, mas isso não impedia a amizade entre eles.

Conta Araújo que numa certa madrugada, no final dos anos 70, Gonzaguinha ouviu Timóteo queixar-se de seus desencontros do relacionamento com Paulo Cesar Souza, o Paulinho (para quem Timóteo compôs A bolsa do posto três, sucesso na década de 70). O resultado da conversa foi a composição Grito de alerta, título sugerido pelo próprio Timóteo: “Primeiro você me azucrina/ me entorta a cabeça/ e me bota na boca/ um gosto amargo de fel…”

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Gonzaguinha, contudo, não deu exclusividade da gravação para o amigo, e Grito de alerta foi entregue também a cantora Maria Bethânia – fato que provocou o ciúme de Timóteo, que, numa entrevista, declarou:

“Eu fiquei pau da vida com o Gonzaguinha porque aquela história era minha, eu deveria ter sido até parceiro dele na música. Eu falei: Puta que pariu, Gonzaguinha, então eu te conto uma história de minha cama e você dá a música para a Bethânia gravar!?”

A música foi um tremendo sucesso na voz de Maria Bethânia. Timóteo gravou também a música, que na voz dele passou meio despercebida no álbum “Deixe-me viver”, de 1979.

Curioso também que são cantores absolutamente díspares, quase antagônicos, em estilo, público e repertório. Mas eram amigos, tanto que Timóteo, ao longo de sua carreira, gravou outras músicas de Gonzaguinha….

publicadooriginalmente em 25 abril 2010 01:28 , em MPB

Publicado originalmente em abril de 2010.