Incidente em Miami em 1969 – The Doors

Há muitos rumores sobre a morte de Jim Morrison, da icônica banda The Doors, ocorrida em Paris, em 3 de julho de 1971. Mas há quem atribua o começo da morte de Jim Morrison a um episódio ocorrido dois anos antes, em 1º de março de 1969, que ficou conhecido como o “incidente em Miami”

Naquela noite, a banda iria se apresentar no Miami Dinner Key Auditorium, cuja capacidade estimada (e legalmente permitida) era de 7.000. Estima-se que entre 12 e 15000 pessoas estavam lá . Não havia ar condicionado e o publico estava louco. Estava bastante calor lá dentro e as cadeiras tinham sido removidas para o promotor aumentar a quantidade de espetadores.

 

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Ray Manzarek, tecladista da banda, disse numa entrevista em 1998 na Fresh air:

Estávamos em Miami. Muito quente, todo mundo suado. O local era um pântano, um buraco – um tipo horrível de lugar, um hangar de hidroavião – e 14 mil pessoas estão lotadas lá, e estão suadas“,

O show começou com atraso, haja vista que Morrison perdera algumas conexões aéreas naquele dia. Ele estava atrasado para o show por mais de uma hora, e para variar ele estava completamente bêbado, tendo bebido o dia inteiro.

A multidão começa a ouvir tão esperado começo de “Back door man”, mas Jim parece cantar absorto, ele não parece muito interessado no caos de fãs em delírio. Jim mal consegue lembrar as suas letras, interrompe as músicas pelo meio.

Morrison começa a se dirigir à multidão com frases como “ame-me, não posso fazer isso sem o seu amor, me dê um pouco de amor”. Começa com “Five to one”, mas durante o solo de Krieger, Jim solta um “Vocês são um bando de idiotas”. (min 3:30 do vídeo) e então continua nessa direção, dizendo que o público é um escravo , que em resposta começa a ficar chateado.

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Ele continua dizendo que ele não incita uma revolução, um evento, mas pede apenas que se amem, se divirtam juntos, enquanto a banda tenta detê-lo atacando “Touch me”, que depois de apenas dois versos vem novamente interrompido por Jim, que não consegue acompanhar a música e fica com raiva.

A banda tenta novamente tocar, mas nada. Em seguida, Jim continua com ““Love me two times” e “When the music’s over”, mas no intervalo central da peça Jim reinicia com diálogos com o público, incitações contínuas ao amor da multidão e contando a história de sua vida desde o nascimento até depois.

Com o vocalista agora fora de controle, a banda ataca “Light my fire”, dentro do qual ele continua com um  sermão. Durante tudo isso, também havia espaço para um fã lavar Morrison com champanhe, fazendo com que ele tirasse a camisa.

O manager dos Doors lembra: O show foi bizarro, coisa de circo, havia um tipo a carregar uma ovelha nos braços e as pessoas pareciam selvagens.“.

Vince Treanor disse: “Alguém saltou para o palco e despejou champanhe no Jim então ele tirou a camisa, estava todo molhado. ‘Vamos ver um pouco de pele, vamos ficar nus.’ disse ele, e a audiência começou a despir-se. Uma coisa levou à outra.

 

A partir daqui, versões são conflitantes: há quem diga que:

a) Jim incita à nudez,

b) usa a camisa para se cobrir na virilha;

c) faz movimentos estranhos com a mão por trás;

d) pergunta à plateia se queriam ver o seu pênis

e) fez uma simulação de “sexo oral”  sobre os joelhos na frente de Krieger durante um solo.

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No dia seguinte, talvez prevendo as complicações que viriam a seguir, a banda entrou em férias e saiu dos Estados Unidos.

Em 5 de março já havia um mandado de prisão para Morrison por exibição indecente e obscenidade. Com isso, um a um, os shows de uma enorme turnê pelos Estados Unidos foram cancelados até que esta, por completo, teve o mesmo destino.

 

Em novembro de 1969, Jim compareceu à polícia e se declarou  inocente, seguindo-se uma longa querela judicial, cheia de depoimentos controversos de ambas as partes. Apenas em setembro de 1970, Jim foi considerado culpado, sendo condenado por atentado ao pudor e a trabalhos forçados por seis meses, além do pagamento de multa. Os advogados de Jim recorreram da sentença e ele foi libertado após pagar uma fiança de US$ 50.000.

 

Segundo Sérgio Pereira Couto, após o incidente em Miami,

“A única aparição do grupo foi num especial da rede de TV PBS, em que apresentam algumas canções do álbum seguinte, The Soft Parade. Com isso, a aparência de Morrison mudou completamente: do visual definido pelos jornalistas como o de “um jovem Adônis” ele apareceu em cena com uma barba densa, gordo, usando óculos de aviador e um pesado
casaco marrom.

Quando o quinto álbum, Morrison Hotel, ficou pronto, tanto a banda quanto o próprio Morrison já se achavam exauridos pelo enorme prejuízo financeiro da turnê cancelada e pelo fantasma de Miami que rondava seus negócios sem parar. Um cansativo julgamento aconteceu e o cantor foi acusado de profanidade e exposição indecente. O veredicto foi contestado e o processo ainda corria quando Morrison morreu.

Apenas em 2010 a Justiça da Flórida admitiu que não havia provas suficientes para condenar Jim Morrison, cantor do Doors, pelos crimes pelos quais fora acusado.

O incidente e suas consequências mandaram Morrison e o grupo para uma pirueta que terminou com a morte de Morriso.

O que Jim queria? Segundo Manzarek,

 “E Jim viu o The Living Theatre [um grupo de teatro que experimentou quebrar a quarta coluna e confrontar o público] e ele vai fazer a sua versão do The Living Theatre. Ele vai mostrar a essas pessoas da Flórida o que é o xamanismo psicodélico da West Coast.” 

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https://whiplash.net/materias/news_856/120358-doors.html

https://www.npr.org/2010/12/10/131960761/what-really-happened-at-the-doors-1969-concert

https://www.miaminewtimes.com/news/i-was-there-the-doors-miami-concert-was-a-mythic-ripoff-6556283

4 momentos controversos de Jim Morrison

Couto, Sérgio Pereira. Segredos e Lendas do Rock. São Paulo, Universo dos Livros, 2008

João e Maria (Chico Buarque) Lirismo ou crítica social?

 

Uma canção, quando feita e lançada, muitas vezes não pertence mais a seu autor, tamanhas as interpretações, os significados e as distorções que surgem a partir delas. Uma das referências mais interessantes é a famosa canção “João e Maria”, com letra de Chico Buarque para uma melodia de Sivuca, feita em 1944.

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A letra, muitos conhecem:

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

Como curioso que sou, fui buscar diversas interpretações da canção que achei por aqui ou por acolá na Internet. Olha algumas frases que eu encontrei:

1) Acho que o eu-lirico da canção é na verdade a instituição Forças Armadas brasileiras. Considerando que a música é de 47 (logo pós 2a Guerra) e a letra só foi escrita em 77 (como está no site do Chico Buarque) o autor primeiro tenta construir uma certa evolução cronológica da atuação dos militares (o que tem a ver com o tema de canção infantil, como se este estivesse tentando resgatar a infância das Forças Armadas e dos ouvintes a lembrar das impressões da época).

2) No texto, há uma apologia ao anarquismo proposto por Nietzche(um Estado sem Governo, já que se podia ser ao mesmo tempo bedel,juiz, herói,guerreiro,artista e a mulher princesa, plebeia e meretriz-andava nua pelo meu pais-); há também uma ligação do anarquismo ao Comunismo, já que a vitoria sobre os alemaes na segunda guerra, pode afirmar a hegemonia soviética e dividir o mundo entre as duas potencias mundiais

3) Na realidade, Chico fala de uma pessoa amada mas ele não tem essa intenção. A real intenção dele é falar da Liberdade que ele tanto queria, ou seja, da luta contra a ditadura militar.

4) O Chico se apropria da linguagem infantil para criticar governos autoritários.”Agora” eu “era” é assim que crianças fantasiam em suas brincadeiras nas quais enfrentam situações com grandes vilões e saem vencedoras.Quando vencem, logo inventam outro vilão para destruir. Chico tinha o nazismo, na Alemanha e a ditadura no Brasil. Faz referencia ao “dedos duros” (bedel, que eram infiltrados nas universidades para vigiar ações subversivas de prof. ou alunos e os juízes que eram grandes servidores da ditadura, nem todos, é lógico).Chico sonha com leis que pare com a censura, proibições em geral, que faz o povo infeliz e com medo.

Por mais que tentem estabelecer uma visão de crítica social na bela canção, Chico descartou esta interpretação, contida no livro “História das canções”

“Cada música tem uma história. Eu tenho uma parceria com o Sivuca que é engraçada. Ele fez a música, que ficou se chamando João e Maria. Ele mandou uma fita com uma música que ele compôs em 1944, por aí. Eu falei: “Mas isso foi quando eu nasci.” A música tinha a minha idade. Quando eu fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tem a infantil. A letra saiu com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha ele dizia: “Fiz essa música em 47.” Aí pensei: “Mas eu criança…” e me levou pra aquilo. Cada parceria é uma história. Cada parceiro é uma história.”

E, na mesma obra, consta um adendo:

 “Como qualquer artista, Chico não tem as chaves de sua criação. Quando fez a letra de João e Maria, de Sivuca, por exemplo, não entendeu o que ele mesmo tinha querido dizer com o verso “e o meu cavalo só falava inglês”; levou o enigma a Francis Hime, que arriscou: “Eu acho que é um cavalo muito educado.”

 

Sivuca, numa entrevista em 1986 dada da Moacir Oliveira, tratou da canção:

 

 A história de João e Maria é interessante porque foi uma música que eu fiz em 1947, em Recife. Eu não tocava daquele jeito que o Chico toca na nova versão. Eu tocava bem pesado, melodiosa, bem romântica para acordar as garotinhas (risos).

Aí quando eu mostrei a música, ele disse:
 –  Vou fazer uma letra para esta música que é muito linda. Fez.
Quando ele me mostrou a letra eu disse: O que é que eu posso dizer…
Ele colocou tudo no passado. (Agora eu era herói e o meu cavalo só falava inglês..)
Porque quando ele tinha três anos, só falava assim exatamente desse jeito. Então aproveitou o gancho e colocou a vivência dele. E saiu uma das melhores letras que o Chico já fez.

 

A música, de um belo lirismo, trata de uma história de amor desfeito a partir de uma narrativa de faz-de-conta, semelhante a uma história contada por crianças “Agora eu era herói”, a mistura de tempos verbais, em que a fantasia de hoje se refere a um tempo passado, a uma fantasia, do herói, do rei, do juiz que, na iminência da fuga da pessoa amada, contenta-se em ser o brinquedo, o peão, o bicho preferido.

 

E o faz de conta, pra lá do quintal, faz com que o eu-lírico sinta-se perdido com a ausência da personagem que faz parte da sua fantasia.

Chico fez esta letra logo após fazer a versão brasileira do musical italiano “os Saltimbancos”, uma história para crianças, mas com muita crítica social.  A primeira gravação coube a Nara Leão, num dueto com o próprio Chico Buarque

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Não parece constituir arte engajada ou crítica social. Mas vá saber….

 

http://portrasdaletra.blogspot.com/2008/11/joo-e-maria.html

Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano,  85 anos de Música Brasileira Vol. 2, 1ª edição, 1997, editora 34

Chico Buarque: História de Canções. Wagner Homem. ed. Leya

http://blogln.ning.com/profiles/blogs/dia-do-compositorsivuca-fala

 

 

quarta 03 abril 2013 03:06 , em MPB

Meu primeiro show de João Gilberto

João Gilberto falece no dia 06 de julho de 2019, aos 88 anos, deixando um legado musical que poucos artistas no mundo conseguem:  verdadeiro pai da bossa nova, com sua inigualável batida de violão, que inspirou artistas não só do Brasil, mas do mundo.

Se tivemos Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo, Elism, Gal, Bethania, Moraes Moreira, muito se deve ao violão de João.  

Em 1999 eu fui pela primeira vez a um show de João Gilberto. Na época, ele tinha causado o maior estardalhaço com as reclamações e a língua dada para o público no Credicard Hall, poucos meses antes.

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João Gilberto no Credicard Hall

João chegou com seu estilo de sempre, terno, seu violão, que ele afinava a cada canção. Brincou, inicialmente, como o “ar refrigerado”, dizendo ele queria cantar mais, mas que o “ar refrigerado” não deixava, fazendo até piadas com isso.

Antes de começar a música, ele fazia troça daqueles que diziam que ele era chato por afinar o violão a toda hora. Chegou a perguntar: já viram uma orquestra?  Os músicos afinam os instrumentos a todo tempo.

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E começou a desfilar suas canções de sempre, a bossa nova e os sambas que marcaram sua vida… Desafinado, Estate, Pra que discutir com madame, Fotografia, Isaura, até que uma mulher, na plateia, pediu, dengosamente que João fosse tocar “Joux-Joux et Balangandãs”, de Lamartine Babo. No momento em que ele estava começando a música, Faltou energia no Teatro. Foram momentos engraçados. João, sentado no seu banquinho, o teatro escuro, e alguém do público gritou: “João, não vá embora, pelo amor de Deus”… para risada geral. 

 Enfim, voltando a luz e cantada, enfim, Joux Joux et balangandãs, João começou a tocar Eu sei que vou te amar, e, no meio da música, diminuiu sua voz, para que a plateia presente cantasse ao som de seu violão. 

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Num certo momento do show, uma cena engraçada, inusitada, uma barata apareceu ao microfone, para o susto de João e risadas da plateia. A essa altura, metade do teatro já estava de pé, muitos fora de seus lugares querendo ficar mais próximos de João, e cada um deles pedia uma música, e João cantando, como se fora uma roda de violão particular com o maior violonista que eu já vi pessoalmente.

 Depois de mais de duas horas, entre coros, falta de energia e muita música, João encerrou cantando, a (meu) pedido, a música “Falsa Baiana“, de Geraldo Pereira, e foi aplaudido entusiasticamente… 

 Quem não era fã, tornou-se. Quem já era, viu um sonho… Dez anos depois ele voltaria para o Teatro Castro Alves, numa segunda exibição…

 

domingo 25 julho 2010 01:35 , em Bossa Nova

 

“Ainda é cedo, amor….” Cartola canta para sua filha em “O mundo é um moinho”

Pungente: essa pode ser a definição que se pode dar à bela canção O mundo é um moinho, da autoria de Cartola. Reza a lenda que o compositor teria feito a canção para a sua filha, quando ele descobrira que ela se tornara prostituta.

Mas a verdade não é exatamente assim.

Primeiro, a pessoa homenageada, Creusa Cartola, fora adotada pelo compositor quando ela tinha 5 anos de idade, após a morte de sua mãe biológica. Creuza é filha biológica de Rosa do Espírito Santo e Agenor Francisco dos Santos. Estes eram amigos de Cartola e Deolinda (então esposa de Cartola), sendo esta última madrinha de batismo da menina. Quando Rosa, a mãe, faleceu em 1932, Creuza tinha apenas cinco anos, e Deolinda e Cartola, juntos há sete anos naquela época, ficaram com ela.

Segundo relato da filha mais velha de Creusa, Irinéa dos Santos, Cartola compôs essa música quando Creusa era adolescente, e com a curiosidade normal de uma jovem de 16 anos por namoros. Não há qualquer registro de que Creuza se tornara prostituta

Na verdade, Creusa tornou-se cantora.  Artista precoce, ela começou a cantar aos 14 anos, acompanhando Geraldo Pereira, outro grande compositor de Mangueira, em apresentações na Rádio Nacional, nas quais também cantava músicas de Cartola, que a levava e ensaiava., teve uma carreira discreta

Na época, pode-se imaginar que então fosse normal dizer quer alguém caiu na prostituição apenas por interessar-se por homens, e daí certamente deve ter surgido a lenda… Mas isto jamais fora dito por cartola em lugar algum.

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A letra é realmente bonita, se inicia justamente com a referência a ser cedo… a personagem com quem o eu-lírico dialoga é jovem e inexperiente, não conhece nada da vida e anuncia sua partida, e ela é advertida de que segue um caminho sem rumo…

Na segunda estrofe, o eu-lírico tenta convencê-la (embora tenha consciência e até resignação de que não terá êxito) de que ao sair ela vai se perder, a vida vai se perder, sua própria identidade vai-se embora…

E, nesse momento, na terceira estrofe, vem a parte mais aguda, que compara o mundo a um moinho, que tritura sonhos e pulveriza ilusões… é uma imagem, um vaticínio de desesperança, como que a vida fosse sepultar as ilusões daquela que se despede, e que tem por trás o apelo implícito para que ela volte, ou melhor, para que ela não vá…

Repare-se, porém, que a letra fala em reduzir teus sonho, “tão mesquinho” e não mesquinhos. Isto muda completamente o sentido. O mundo é que é mesquinho, e não os sonhos…  

Por fim, ele alerta para as desilusões amorosas… “preste atenção querida”, a advertência de um pai que ama a filha, é como se a moça fosse cair na vida… e em vez de abrir-se ao amor, abre-se ao cinismo, e a busca, esta descoberta do suposto e dito falso “amor” seria um caminho que a personagem estaria cavando para a própria derrocada…

Mais que uma advertência, é um pedido desesperado para que ela permaneça… e a canção assim entrou para a história..

 

http://almanaquenilomoraes.blogspot.com/2017/04/duas-versoes-para-mesma-estrofe.html

http://dicionariompb.com.br/creusa/biografia

http://www.horadopovo.com.br/2013/12Dez/3210-06-12-2013/P8/pag8a.htm

Genival Lacerda – “LP” O senador do Rojão (1968) – Texto da contracapa

Genival Lacerda fez nasceu em 1931. Em campina Grande, na Paraíba. E faleceu em 2021. É um daqueles cantores inconfundíveis, dono de um estilo de forró escrachado, bem humorado, cheios de duplo sentido que parecem inocentes diante de algumas pseudomúsicas nas quais se abre mão de trocadilhos e tudo é explícito…

Sucessos como Severina Xique-Xique, Caldo de Mocotó, Radinho de Pilha (Ela deu o Rádio), Galeguim dos Zóio Azul, entre outros, colocam Genival Lacerda no panteão do forró.

E, pesquisando aqui em acolá, encontrei um disco de Genival Lacerda, gravado em 1968, chamado “O Senador do Rojão”. Nesse disco, achei muito interessante o texto da contracapa, que segue abaixo:

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Bahia: berço da cultura musical típica do Brasil. Presentes incontestáveis foram trazidos pelas “pratas negras” (mulheres de pele preta e dentes de marfim), como também, pelo couro cor de azeviche – homens de pele preta, nossos irmãos dos pântanos africanos. 

Lundus, pontos, cocos, etc. acalentaram nossos primeiros patrícios num período de quase trezentos anos. Mucamas, babás, cantarolavam e balançavam as redes de ouro branco, no ritmo de sua música nativa. O bebê dormia… e dormiu para despertar séculos após, com sua música metramorfoseada.

O batuque rude do negro transformou-se. Hoje, no século XX – baião, forró, arrasta-pé, não passam de reminiscências exatas daquela música gostosa. O maestro, o compositor, o intérprete, a trouxeram para outros moldes de uma outra civilização.

GENIVAL LACERDA.  O “Rei do Munganga” puro cantor desse gênero que bem transmite com excentricidade, além de ser o criador de uma série de passos e trejeitos, formando com isso um todo harmônico e agradável, é um artista ímpar na beleza de representar. Num bate-coxa, num alvoroso ( sic – o texto original tem ‘alvoroço’ escrito assim mesmo, com “s” em vez de “‘ç”) de pernas, num sestro de todo corpo, Genival objeta sua força mental no ângulo da coreografia absolutamente original. Por isso, tornou-se o espelho de quase todos os artistas do Gênero. Dançar coco, é Genival; Baião, é Genival; Forró, é Genival. Dizer o que ele faz não é possível. É preciso assisti-lo. Ver e ouvir o excepcional astro, é um momento de terapia.

E é por isso mesmo que a Chantecler o contratou. Em suas mãos, a chapa musical de o rei da munganga GENIVAL LACERDA 

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 O texto é curioso, primeiro, por fazer uma referência à Bahia, já que Genival é paraibano de Campina Grande (embora Genival homenageie a Bahia em diversas músicas, como Bahia de todos os nomes, Alô, Bahia e Fiquei na Bahia). Segundo, por fazer uma associação do Forró com a música negra (relação que existe, mas que tem também influxos da música indígena, portuguesa e até holandesa), e por fazer uma quase justificativa da contratação de Genival, que somente se tornaria conhecido nacionalmente em 1975, com a música “Severina Xique-Xique“. Por isso, ele, chamado de Rei da Munganga (que significa gestos ou trejeitos excêntricos, uma expressão nordestina).

Um elo de tudo isso pode ser a referência ao coco, um ritmo que tem parentesco tanto com o samba-de-roda como com o forró, e que deita raízes também africanas e indígenas.  Uma pérola, quando Genival tinha apenas 27 anos…

Mentiras sinceras me interessam… Por trás da canção “Maior Abandonado”, de Cazuza/Frejat, no auge do Barão Vermelho

“Maior abandonado” é uma das músicas mais significativas do Barão Vermelho . Composta em 1984, a música retrata, à primeira vista, uma pessoa maior “que está solta no mundo, precisa da proteção do governo e não tem” (Cazuza, Preciso dizer que te amo, Org. Lucinha Araújo, Globo, 2001).

 

No entanto, a letra é mais do que isso. Para além de uma espécie de denúncia sobre os maiores abandonados, que se interessam pelas “migalhas dormidas do teu pão“, das “raspas e restos“, a canção retrata em certa medida um abandono afetivo quando chega a maioridade, e, com ela, a responsabilidade.

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Cazuza e Frejat já trataram disso, no  livro organizado por Lucinha Araújo:

 

Cazuza: “É também aquele que está vivendo o trauma dos 18 anos.É quando você fica mais carente, porque sabe que está ficando mais velho e ainda não é muito safo (…) ‘mentiras sinceras me interessam’ , um verso da letra, é uma discreta e candente referência ao estertor da carência afetiva. parece um cara, às cinco horas da madrugada, andando pelas ruas, sozinho, atrás de uma mulher. E que dali saia um grande amor. O amor da sua vida. Pura ilusão  

  Frejat: “quase todos somos ´maiores abandonados’ no sentido afetivo, nessa de querer ficar com qualquer pessoa, só para não ficarmos sozinhos. Porque 99,9% da população é, ou já foi, algum dia, maior abandonado” 

 

A letra, então, transita pelas duas questões: o abandono material e o abandono afetivo. O primeiro deles é retratado nas raspas e nos restos, nas migalhas do pão; o segundo, nas “mentiras sinceras”, nas “porções de ilusão”  de alguém que está absolutamente carente do ponto de vista afetivo.

 

Assim, pode-se dizer que o maior abandonado é uma canção sobre carência. Primeiramente, carência daquele que está perdido e sozinho no mundo, sem nenhum amparo material. E também carência afetiva. O eu-lírico aceita qualquer coisa do outro, como um cachorro faminto que aceita qualquer coisa do seu dono. O maior abandonado, nesta visão, seria quase como um vira-lata querendo ser adotado, material ou afetivamente.

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Assim, a letra usa a imagem de alguém sozinho, carente, pedindo a proteção do outro. E a utilização de elementos de humor, em que em vez que o ato de pedir a mão tem um duplo sentido: como um pedido de casamento, pelo ato do noivo pedir a mão da noiva, mas também usando aquele ditado popular “você dá a mão, mas te pedem o braço”. O eu-lírico assume que, ao pedir a mão, quer mais do que isso. A utilização do advérbio “pouquinho” indica a submissão, mas o desejo de alguém que está perdido e quer um norte… (“me leve para qualquer lado”)

Numa entrevista a Danilo Gentilli, Frejat relatou uma discussão com Cazuza sobre um verso que acabou sendo excluído:

 

 

Segundo Frejat, havia um verso que ele considerava muito agressivo: “eu tô baixando o calção por qualquer trocado” . Frejat achava que a letra estava completa.  Cazuza acusou Frejat de ser careta, ao que este ponderou que não era questão de caretice, mas que este verso iria limitar a quantidade de pessoas que iriam se identificar com a música. Cazuza teria concordado, contrariado

 

Fonte: ARAÚJO, L. Preciso dizer que te amo: todas as letras do poeta. Rio de Janeiro: Globo, 2001, p-78

Esperando na janela

O forró clássico, tradicional, à moda de Luiz Gonzaga, tem algo de nostálgico, inocente… os ritmos juninos fazem a malícia ficar mais singela no friozinho aquecido pelas fogueiras de São João.  Com as festas juninas, parece que a canção de amor em ritmo de xote é mais singela, a saudade do baião é mais intensa, a alegria do xaxado é mais pura.

Não é por acaso que no mês de junho termina sendo inevitável falar de Forró, e com o forró falar um pouco daquela música de Targino Gondim que virou um clássico instantâneo na voz de Gilberto Gil: Esperando na janela. 

Targino Gondim – Ritmo Melodia

Targino Gondim é pernambucano, nascido em Salgueiro, e criado músico em Juazeiro-BA, começando a tocar sanfona desde os 12 anos, e sua inspiração, óbvia, era Luiz Gonzaga.

E foi inspirado em Gonzagão que surgiu seu maior sucesso, a música “esperando na Janela”, cuja história ele contou numa entrevista:

Esperando na Janela foi feita em agosto de 1998, enquanto eu tomava banho. Estava cantarolando uma música de Luiz Gonzaga e me veio a inspiração.  Completei a composição com versos de meus parceiros, Manuca e Raimundo do Arcodeon. Essa música está gravada no disco de 1999 e coincidiu com as filmagens de Eu, Tu, Eles, que acontecia em Juazeiro. Fui fazer um teste para participar do filme e o diretor me cortou, dizendo que eu não tinha cara de sanfoneiro, mas um dia estava fazendo um forró e os artistas foram lá e a Regina Case me reconheceu. Eles começaram a pedir músicas de Luiz Gonzaga e eu aproveitei para tocar também Esperando na Janela, que acabou virando a trilha sonora e carro-chefe do filme.

A música tem todas as receitas de um forró típico de São João: uma certa nostalgia, uma idealização da pessoa amada, a saudade do jeito, no cheiro, da mulher que não vem, mas cuja saudade faz com que ele vá atrás dela e vá declarar seu sentimento.

A canção venceu o Grammy Latino em 2001 (Targino Gondim \ Raimundinho do Acordeon \ Manuca Almeida), que também ganhou a voz de Gilberto Gil e deu ao artista espaço no filme “Eu, Tu, Eles”

Gil explicou como a canção passou a fazer parte do filme, no seu sítio digital:


É uma música de um menino lá, Targino Gondim, sanfoneiro da região onde o filme foi feito, no sertão. A direção do filme precisava de uma banda para tocar forró ao vivo, na locação. O sanfoneiro apareceu, cantou essa música e encantou todo mundo. Porque essa música é uma pérola”.

Uma canção singela, que, na hora certa, e impulsionada pela gravação de Gilberto Gil,  virou história…. Targino costuma dizer que ela é a sua “Asa Branca”

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A letra:

Ainda me lembro do seu caminhar
Seu jeito de olhar eu me lembro bem
Fico querendo sentir o seu cheiro
É da daquele jeito que ela tem
O tempo todo eu fico feito tonto
Sempre procurando mais ela não vem
E esse aperto no fundo do peito
Desses que o sujeito não pode aguentar
E esse aperto aumenta o meu desejo
E eu nao vejo a hora de poder lhe falar

Por isso eu vou na casa dela
Falar do meu amor pra ela vai
Tá me esperando na janela
Não sei se vou me segurar

Targino Gondim

https://www.uai.com.br/app/noticia/musica/2015/07/19/noticias-musica,169726/conheca-o-sanfoneiro-responsavel-pelo-refrao-mais-famoso-do-forro.shtml

quarta 20 junho 2012 17:52 , em Forró

Nomes de Mulheres nas canções de Chico Buarque

Uma das qualidades sempre elogiadas de Chico Buarque é sua capacidade de cantar canções aproveitando-se do “eu-lírico” no feminino, em que mulheres, com vários nomes,  profissões e histórias de vida, mulheres que são amadas, abandonadas, prostituídas, estigmatizadas…

É um resgate da tradição medieval galego-portuguesa… quem não se lembra dos trovadores cantando no eu-lírico feminino???

 

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Mas busquei aqui uma lista dos nomes de mulheres citadas nas canções de Chico. Que mulheres são estas? Vou apenas fazer uma breve viagem nesses nomes, e no que eles revelam sobre tais mulheres…. 20 nomes de mulheres nas canções de Chico.

 

  1. Ana [Ana de Amsterdã] (A Ana  de vinte minutos, a Ana da brasa dos brutos na coxa)
  2.  Angélica (Quem é essa mulher, que canta sempre esse estribilho?)
  1. Bárbara (Nunca é tarde, nunca é demais, onde estou, onde estás, Meu amor, vem me buscar). Umas das músicas que se refere à paixão de duas mulheres.
  2. Beatriz (Sim, me leva pra sempre, Beatriz, me ensina a não andar com os pés no chão, para sempre é sempre por um triz)
  3. Carolina (Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu).
  4. Cecília (Me escutas, Cecília? Mas eu te chamava em silêncio,na tua presença, palavras são brutas).
  5. Cristina [Será que Cristina volta?] (Será que Cristina volta, será que fica por lá, será que ela não se importa de bater na porta pra me consolar).
  6. Helena [Acalanto para Helena] (Dorme minha pequena, não vale a pena despertar) Uma referência à canção de Caymmi, certamente para sua filha Helena.
  7. Iracema [Iracema voou] (Iracema voou para a América… Se puder, vai ficando por lá, Tem saudade do Ceará, Mas não muita)
  8. Januária (Até o mar faz maré cheia pra ficar mais perto dela).
  9. Lola (Sabia, Que ia acontecer você, um dia, E claro que já não me valeria nada, Tudo o que eu sabia, Um dia).
  10. Luísa (Para ela que ele faz o bonito, para ela que ele faz o palhaço, para Luísa dormir em paz).
  11. Madalena (Madalena foi pro mar, e eu fiquei a ver navios, Quem com ela se encontrar, Diga lá no alto mar, que é preciso voltar já, pra cuidar dos nossos filhos).
  12. Maria [Olha Maria] (Mas hoje, Maria, Pra minha surpresa, Pra minha tristeza, Precisas partir).
  13. Nina (Nina diz que, embora nova, Por amores já chorou que nem viúva, Mas acabou, esqueceu)
  14. Renata Maria (Na minha boca as palavras que eu ia falar, Nem uma brisa soprou, Enquanto Renata Maria saía do mar).
  15. Rita (Levou os meus planos, Meus pobres enganos, Os meus 20 anos o meu coração, E além de tudo, me deixou mudo o violão).
  16. Rosa (Ah, Rosa, e o meu projeto de vida? Bandida, cadê minha estrela guia? Vadia, me esquece na noite escura, Mas jura, Me jura que um dia volta pra casa).
  17. Sílvia (Morre de amor quem é capaz, Sílvia, Jaz, Morro de amor e quero mais, Sílvia).
  18. Teresa [Teresa Tristeza] (Oh Tereza essa tristeza, Não tem solução…Não me espere não…  Ao menos sou sincero, Que te adoro, Que te quero, Mas não passo bem sem carnaval).

 

Não posso deixar de registrar que muitas das músicas são sambas que seguem a velha tradição do samba carioca, da mulher que faz sofrer… e cada uma delas pode merecer uma história à parte…

Aliás…. a história de Zanzibar….

Imaginar Calcutá, Zanzibar e Paracuru numa musica imagética, que remete a cores, a um azul que reluz no corpo “dela”, o objeto de desejo, que, por sua vez, usa um “tricolor colar”.

Esta é Zanzibar, que tem por subtítulo “As cores”, uma feliz parceria entre Fausto Nilo e Armandinho, na virada de 1979 para 1980, que remete a um jogo de palavras que termina remetendo sempre a um tom de azul, do céu, do mar, da estrela.

A canção fez um enorme sucesso, e foi narrada por Fausto Nilo e Armandinho, no terceiro volume do livro de Ruy Godinho,”Então foi assim?”

Narra Armandinho:

Eu fui às coisas da minha avó. Foi uma música que me remeteu a outros ares, outro tempo. E eu já tinha o compromisso de fazer uma parceria com o Fausto. Eu mandei a melodia e ele levou um tempo fazendo, até que concluiu. A gente já estava praticamente na boca. E eu disse: ‘Fausto, essa música já está praticamente gravada e eu preciso da letra pra gente sacramentar o negócio.’ E ele rebuscando rebuscando, rebuscando… Porque o Fausto faz uma alquimia, ele sabe captar o som em forma de letra, ele sabe extrair a letra da música. E a música tem todo um colorido, um céu azul, uma história tropical. O interessante é que quando ele me mostrou a letra eu não entendi nada.”

Não podemos tirar a razão do baiano diante da colagem de expressões de palavras soltas apresentadas pelo letrista.

Aí eu disse: ‘Fausto, eu gosto muito dos sons: Jezebel, Calcutá, Alah meu only you… Eu adoro isso, mas me explica um pouco o significado. Ele falou: ‘Rapaz, não tem uma explicação específica. Da forma que você entender é que é. Na verdade, eu viajei num trópico que tem o mesmo clima, o mesmo vento, o mesmo ar. Aí eu disse: ‘Realmente, essa música eu fiz no terraço da casa do meu pai, lá no Bomfim. Quando eu estava compondo, tive uma viagem muito espiritual, astral, eu sentia essa música assim, num clima inexplicável’. E ele fez uma letra um tanto inexplicável. Ficaram coisas assim [como] bazar da coisa azul”, diverte-se.

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Mar azul de Zanzibar

 

Fausto recebeu a melodia de Armandinho numa fita cassete, num dos inúmeros carnavais que passo na Bahia. “Eu voltei pro Rio num domingo de carnaval. Fiquei uns dias na praia, encontrei muito o Moraes, o Armandinho… Eles iam todo dia pro Rio Vermelho e, num desses dias, o Armandinho me deu uma fita e disse ‘Olha, tem aqui uma melodia’. 

“Tinha uma pichação em Salvador que era Zanziblue. Onde eu passava, eu via. E na hora em que fui ao aeroporto, eu vi repetidas vezes a Zanziblue. Quando entrei no avião, peguei meu fone de ouvido e o gravador e fiquei ouvindo a música que Armandinho tinha me dado. A primeira coisa que eu notei é que Zanziblue caía muito bem numa parte da música. Mas, ao mesmo tempo, eu não gostava, não era uma palavra, eu achava uma invenção assim meio…Eu rejeitei. Interessou-me a sonoridade, a métrica estava boa, mas decidi não escrever. Quando cheguei ao Rio, ouvindo de novo, vendo umas anotações que eu tinha, eu tive a ideia de fazer uma letra cheia de coisas do Oriente. Eu vi muito na Bahia aqueles blocos com coisas da África, imitando coisas do Marrocos. Aí misturei essas coisas todas e nasceu Zanzibar. Onde era Zanziblue eu botei Zanzibar”, que é o nome de um arquipélago localizado na costa da Tanzânia, formado por duas ilhas Unguja e Pemba. Os árabes chamavam Unguja de Zanj-Bar, que significa Costa dos Zanj (negros), depois adaptada ao jeito que se pronunciava, Zanzibar. E assim ficou conhecida.

 

“Aí escrevi a letra cheia de coisas engraçadas porque tive muita dificuldade de encontrar uma palavra com a prosódia boa e com a colocação certa naquele Paracuru, no azul da estrela… Aí me ocorreu uma praia aqui do Ceará, Paracuru.” O suficiente para que, com o sucesso da música, o prefeito da cidade convidasse Fasto Nilo para ser homenageado e pleno carnaval. Ele foi, Claro

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Curioso foi como “aliás” entrou na letra. Fausto Nilo Conta:

“Tinha uma frase que eu não encontrava a solução para ela. Ele gravaram tudo deixaram só o vazio dessa frase. Ficaram esperando. Eles estavam muito ansiosos. Todo dia eles cobravam: ‘Cara, cadê a frase? E eu respondia: ‘Prometo que hoje eu resolvo’. Eu virava a noite caçando a frase e não achava. Um dia, eu fui à avenida Jardim Botânico, perto da Tevê Globo, onde tem um boteco e um ponto de ônibus e fica muita gente na calçada. Eram seis, sete horas da noite. Eu fui cantarolando. Exatamente na hora dessa frase que eu não tinha, um sujeito que estava tomando umas biritas, saiu do bar, deu uma cusparada na calçada e disse assim: ‘Aliás’! E voltou para dentro do bar para continuar a conversa. E aí eu mandei: Aliás,bazar da coisa azul, meu only you… Fui ao orelhão e liguei pro Armandinho:

‘- Achei a palavra’! 

‘- Qual é’?

‘- Aliás’!

‘- Aliás’???

 

Meio surpreso, ele chamou os outros e disse: ‘Olha, ele falou aliás! Alguém perguntou:

‘- Bicho é, aliás’?

‘-É, aliás, ele confirmou’.

Depois de algum tempo, eles aceitaram: ‘Pô! Ficou legal’! E eu terminei a letra. Às vezes acontece isso. Eu trabalho com essas coisas, vou colando”, concluiu.

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Armandinho jura que não deu nenhuma dica para letra, porém…

“Essa coisa da letra sempre fica a cargo dele. Mas, por exemplo: No azul de Jezebel no céu do Ceará…Ele adorava isso. Aí eu disse: ‘Pô, Fausto, se você fizer isso, a música vai deixar de ser Bahia e vai ser Ceará’. Só que ele tirou o calcutá da manga:

‘- Olha aí Calcutá”!

‘- É! Calcutá’!

É mais interessante porque universaliza a música”, justifica o melodista.

 

Zanzibar, que recebeu o subtítulo de As cores, foi registrada pelo grupo A Cor do Som, no LP transe Total (Elektra/WEA, 1980), no CD Ao Vivo no Circo (Movieplay, 1996) e no CD a Cor do som – Acústico (BMG, 2005; Pelo trio Elétrico Dodô e Osmar, no LP Vassourinha Elétrica (Elektra, 1980); por Fausto Nilo, no CD Fausto Nilo – 12 Letras de Sucesso (Songs/CBS,1987); Por Elba Ramalho, no CD Baioque (BMG Brasil, 1997), entre outras regravações.

“Depois me veio o prefeito de outra cidade querendo que eu fizesse uma letra com o nome da praia dele. E eu tive de explicar que aquilo foi um acidente”, revela Fausto.

“O mais engraçado é que essa música fez um sucesso danado. Eu via todo mundo cantando a letra errada, cantava de outro jeito, mas o som estava ali. É o som das coisas, das palavras, que ele foi buscando na música e se transformou no que é”, decreta Armandinho.

 

 

 

Dez músicas nota 10, segundo Tom Jobim

No ano de 1970, Tom Jobim já era um compositor consagrado. Principal compositor da bossa-nova, já tinha feito sucesso nos Estados Unidos, gravado com Frank Sinatra, enfim, já se ensaiava a unanimidade que mais tarde só veio se consolidar.

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Sérgio Cabral, na biografia que escreveu sobre Tom Jobim, (Lazuli Editora: Companhia Editora Nacional, 2008), faz referência a uma entrevista dada por Tom ao jornalista Sérgio Bittencourt, para o Jornal O Globo, pedindo ao artista uma lista com 10 (dez) músicas que mereceriam nota 10.

Essa lista é importante, pois faz um retrato não só de Tom para o passado, mas também para o futuro. Repare que são 10 músicas nacionais, passando de Custódio Mesquita, passando por Pixinguinha, Ary Barroso e Dorival Caymmi, culminando em Chico Buarque e Caetano Veloso, que, em 1970, não eram os artistas consagrados que são hoje.

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Eis a lista, conforme a narrativa de Sérgio Cabral:

1) CARINHOSO, de Pixinguinha e João de Barro (Jobim contou a história dos americanos pedindo a partitura – essa eu conto em outra postagem)

2) NA BAIXA DO SAPATEIRO,  de Ary Barroso;

3) SAIA DO MEU CAMINHO, de Custódio Mesquita e Evaldo Rui;

4) MULHER, de Custódio Mesquita e Saidi Cabral;

5) SONHEI QUE ESTAVAS TÃO LINDA,  de Francisco Matoso e Lamartine Babo;

6) FEITIO DE ORAÇÃO, de Vadico e Noel Rosa;

7) ATÉ PENSEI,  de Chico Buarque;

8) PRA DIZER ADEUS,  de Edu Lobo e Torquato Neto;

9) CORAÇÃO VAGABUNDO, de Caetano Veloso;

10) ACALANTO,  de Dorival Caymmi (Dizendo “acho Caymmi um gênio”)

Obviamente, Tom não incluiu nenhuma música de sua autoria, algumas delas sucessos internacionais, que entraram para as músicas mais importantes do século, como Chega de Saudade, Garota de Ipanema ou  Desafinado,  só para citar três clássicas.

Uma lista de respeito de artistas que influenciaram Jobim, e alguns que ele influenciou..