Amor, meu grande Amor

 

“Amor, meu grande Amor” foi o primeiro grande sucesso de Ângela Ro Ro, gravado no seu primeiro disco, em 1979. A letra é de Ana Terra, que sequer conhecia Ângela antes de surgir a letra.

A música fala de características de um amor desejado, talvez idealizado, mas que não se enxerga como eterno (‘só dure o tempo que mereça”).

Ao mesmo tempo, representa uma crença num amor à primeira vista, num desejo de que venha de repente, e que possa, como num passe de mágica, fazer sentir como que dentro de uma bolha, em que o eu-lírico seja “a última e a primeira”

A história da canção, Ana Terra contou a Ruy Godinho, no primeiro volume do seu livro “Então, foi assim?”, bem como numa entrevista no youtube a Rodrigo Faour (https://www.youtube.com/watch?v=PteIxC8_Oso), como a letra foi feita:

Ana terra

Ângela Ro Ro estava selecionando repertório para a gravação de seu primeiro disco, em 1979 e Paulinho Lima empresário dela na época – perguntou para Ana Terra se ela dispunha de alguma letra para Ângela musicar. Ana lembrou-se que tinha algo fresquinho, escrito naquela semana. “Lembro bem que foi numa madrugada em que cheguei meio de porre do baixo Leblon e não conseguia dormir”, comenta.

Ana, na ocasião, já estava separada de Danilo Caymmi, com quem fora casada desde 1973. “Sentia-me muito só. Deseja viver outra vez um grande amor. E eu só acredito em amor à primeira vista, um reconhecimento sincrônico e imediato. Pensava nessas duas energias que se tocam harmonicamente e geram uma terceira força, essa coisa mágica chamada amor. Mas que nunca se pode prever, marcar hora, estabelecer regras, fingir que sente, pensar que sabe”, recorda-se a letrista.

   Mal sabia Ana Terra que, daquele momento de carência afetiva e aflorada solidão estava surgindo mais uma letra que seria sucesso nacional. “Escrevi o que estava desejando naquele momento. Sempre escrevo meus desejos para que eles ganhem forma e força”, afirma revelando-se adepta da neurolinguística, ciência que põe o universo para conspirar em favor dos desejos e metas. “Entreguei-a para a Ângela que tinha uma música com letra em inglês e onde o meu texto se encaixou perfeitamente. Ela gravou e é um sucesso até hoje.”

Angela Ro Ro (álbum) – Wikipédia, a enciclopédia livre
Disco de Ângela Ro Ro em que a canção foi gravada

   Ana diz que é completamente diferente de Ângela, só vindo a conhecê-la pouco antes dela gravar a canção, que foi gravada no LP Ângela Ro Ro, lançado pela Polydor, em 1979.

   Em 1996, a música foi regravada pelo Barão Vermelho.

Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões e as palavras

Me veja nos seus olhos
Na minha cara lavada
Me venha sem saber
Se sou fogo ou se sou água

Amor, meu grande amor
Me chegue assim bem de repente
Sem nome ou sobrenome
Sem sentir o que não sente

Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo
Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo

Amor, meu grande amor
Só dure o tempo que mereça
E quando me quiser
Que seja de qualquer maneira

Enquanto me tiver
Que eu seja a última e a primeira
E quando eu te encontrar
Meu grande amor, me reconheça

Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo
Que tudo que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo

¹Ângela Maria Diniz Gonçalves 05/12/1949 Rio de Janeiro-RJ

² Ana Maria Terra Borba Caymmi 20/5/1950 Rio de Janeiro-RJ

³ Entrevista concedida ao autor, em março de 2006, por e-mail.

Doces Bárbaros: “O seu amor” – Composição de Gilberto Gil

Eu sempre tive uma relação afetiva com a música “o seu amor”, cantada em 1976 pelos Doces Bárbaros (grupo formado por Caetano, Gil, Gal e Bethânia, esta última idealizadora do grupo como forma de comemorar dez anos de carreiras do quarteto baiano).

A música consegue passar uma mensagem política e uma mensagem de amor ao mesmo tempo.

Centrada na frase “O seu amor, ame-o e deixe-o”, é uma evidente mensagem dirigida ao famigerado bordão “Brasil; ame-o ou deixe-o” do governo Médici na década de 70, consegue dizer que havia quem amava o Brasil, e ainda assim  o deixava.

Brasil ame ou deixe o – https://bemblogado.com.br/site/

Este bordão, Ame-o ou deixe-o, nada mais é do que uma cópia do bordão “América: love it or leave it”, de Walter Winchell, um apoiador do Macartismo e a caça aos comunistas nos Estados Unidos.

A letra subverte a lógica da frase:

  1. De uma disjunção exclusiva “Ame-o ou deixe-o” em que a ideia é de quem ama, fica, quem não ama, deixa,
  2. Para uma conjunção, “Ame-o e deixe-o”, quando é possível deixar, mesmo amando (detalhe: Gil e Caetano foram exilados em 1969).

E, assim, além de ser possível amar e deixar, o canto passa a homenagear o amor não egoísta, o amor que preza a liberdade do ser amado, diferentemente de muitos amores possessivos e egoístas, que, sob o pretexto da intensidade de sofrimento, querem o ser amado só para si e transformam a relação numa prisão, em que a obrigação supera o afeto. 

Ame-o e deixe-o livre para amar | Revista Fórum

Sempre gostei do canto do amor verdadeiro, que, mesmo sendo arrebatador, permite que o ser amado ame como liberdade, e não como dever. É também a mensagem da música de Gil. 

No livro “Todas as letras”, de Gilberto Gil e organizado por Carlos Rennó (Cia das letras, 1996), há o comentário sobre a canção:  

A intenção foi brincar com o slogan da ditadura, ‘Ame-o ou deixe-o’, promovendo, através da substituição de uma conjunção, um corte profundo de ruptura no significado reducionista, possessivista e parcial do aforismo oficial, símbolo do fechamento e da exclusão maniqueísta, para criar um outro, com outra moral, a do amor – e, portanto, absolutamente generoso, democrático e libertário. A concepção de ‘amor livre’ é também reiterada, reintroduzida como objeto de respeito e admiração à liberdade no amor, e ampliada até para um sentido mais cristão, de amor irrestrito.

OLHO NA HISTÓRIA: Atividades de História do Brasil - DITADURA MILITAR OU  REGIME MILITAR

 Minimalista já na escolha de uma máxima tão concisa e conclusa, a letra também o é na construção – na maneira como suas significações se sobrepõem como degraus de uma escada tosca, de pedreiro, somando-se com certo desejo geométrico e uma ambição de organização aritmética de fatores numa conta de adição feita com números muito simples”

A música depois foi gravada por Gil, no seu disco Gil Luminoso, e por Caetano e seus filhos, no disco Ofertório

 O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar
Livre para amar
Livre para amar

O seu amor 
Ame-o e deixe-o ir aonde quiser 
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser

O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz

O seu amor
Ame-o e deixe-o ser o que ele é
Ser o que ele é

Todas as letras, Cia das letras, 1996

sábado 07 agosto 2010 13:50 , em MPB

O Toque de Silêncio (TAPS). A lenda por trás de uma das canções militares mais conhecidas

É comum, em cerimônias militares, que seja tocada uma canção, chamada de “Toque de Silêncio”, também conhecida como “Taps”. A referida canção tem uma história de composição relativamente simples, mas se criou uma versão melodramática que circula pela internet e pelas redes sociais sobre o tema.

Eis a versão:

Tudo começou em 1862 durante a Guerra Civil, quando o Capitão do Exército da União, Robert Ellicombe, estava com seus homens perto de Harrison’s Landing, na Virgínia. O Exército Confederado estava do outro lado da estreita faixa de terra.

Durante a noite, o Capitão Ellicombe ouviu o gemido de um soldado que estava mortalmente ferido no campo. Sem saber se era um soldado da União ou da Confederação, o capitão decidiu arriscar a vida e trazer o ferido de volta para atendimento médico.

Rastejando sobre o estômago através do tiroteio, o capitão alcançou o soldado atingido e começou a puxá-lo em direção ao acampamento. Quando o capitão finalmente alcançou suas próprias linhas, ele descobriu que era na verdade um soldado confederado, mas o soldado estava morto.

O capitão acendeu uma lanterna.

De repente, ele recuperou o fôlego e ficou entorpecido pelo choque. Na penumbra, ele viu o rosto do soldado. Era seu próprio filho. O menino estava estudando música no Sul quando a guerra estourou. Sem contar ao pai, ele se alistou no Exército Confederado.

Na manhã seguinte, com o coração partido, o pai pediu permissão a seus superiores para conceder a seu filho um enterro militar completo, apesar de seu status de inimigo.

Seu pedido foi parcialmente atendido. O capitão perguntou se ele poderia fazer um grupo de membros da banda do Exército tocar uma canção fúnebre para o filho no funeral.

Esse pedido foi recusado porque o soldado era um confederado. Por respeito ao pai, eles disseram que poderiam dar-lhe apenas um músico.

O capitão escolheu um corneteiro. Ele pediu ao corneteiro que tocasse uma série de notas musicais que encontrara em um pedaço de papel no bolso do uniforme de seu filho morto. Esse desejo foi atendido. Essa música era a melodia assustadora que agora conhecemos como “Taps”, usada em todos os funerais militares.

A história, todavia, é bem mais simples, e esclarecida pelo site snopes.com:

‘Taps’ foi composta em julho de 1862 em Harrison’s Landing, na Virgínia, mas, além desse fato básico, a peça fantasiosa citada acima de forma alguma reflete a realidade das origens daquela melodia.

Não havia filho morto, confederado ou não; nenhum corneteiro solitário sondando a última composição do menino morto. O modo como o chamado surgiu nunca foi nada mais do que um soldado influente decidindo que sua unidade poderia usar um toque de clarim para ocasiões particulares e se preparando para inventar um.

Se alguém pode dizer que compôs ‘Taps’, foi Brig. Gen. Daniel Butterfield, Comandante da 3ª Brigada, 1ª Divisão, V Corpo de Exército, Exército do Potomac, durante a Guerra Civil Americana. Insatisfeito com o disparo habitual de três tiros de rifle na conclusão dos enterros durante a batalha e também querendo um toque de clarim menos severo para sinalizar cerimonialmente o fim do dia de um soldado, ele provavelmente alterou uma peça mais antiga conhecida como “Tatuagem”, um toque de clarim francês usado para sinalizar “luzes apagadas” na chamada que agora conhecemos como ‘Taps’.

Convocando o corneteiro de sua brigada, o soldado Oliver Willcox Norton, para sua tenda em uma noite de julho de 1862, Butterfield (tenha ele escrito ‘Taps’ direto do punho ou improvisado algo novo reorganizando uma obra mais antiga) trabalhou com o corneteiro para transformar a melodia em sua forma atual. Como o soldado Norton escreveu mais tarde sobre a ocasião:

O general Daniel Butterfield … mostrando-me algumas notas em um cajado escrito a lápis no verso de um envelope, pediu-me para tocá-las no clarim. Fiz isso várias vezes, tocando a música conforme escrita. Ele mudou um pouco, alongando algumas notas e encurtando outras, mas mantendo a melodia como ele primeiro a deu para mim. Depois de obtê-lo de forma satisfatória, ele me orientou a soar aquela chamada para ‘Taps’ depois disso, no lugar da chamada regulamentar. A música era linda naquela noite tranquila de verão, e foi ouvida muito além dos limites de nossa brigada. No dia seguinte, fui visitado por vários corneteiros de brigadas vizinhas, pedindo cópias da música, que forneci com prazer. Acho que nenhuma ordem geral foi emitida pelo quartel-general do exército autorizando a substituição desta pela chamada de regulamento,

‘Taps’ foi rapidamente assumido por ambos os lados do conflito e, em poucos meses, estava sendo soado por corneteiros das forças da União e da Confederação.

Então, como agora, ‘Taps’ serve como um componente vital nas cerimônias de homenagem a militares mortos. Também é entendido pelos militares como um sinal de fim do dia de ‘luzes apagadas’.

Quando “Taps” é tocado em um funeral militar, o protocolo exige que os militares façam continência se estiverem uniformizados ou coloquem a mão sobre o coração, caso não estejam .

Fonte: http://www.snopes.com

Ô coisinha tão bonitinha do pai….

Almir de Souza Serra quase ninguém conhece. Ele tinha um apelido, Almir Magnata. Depois, de magnata virou Almir Guineto. Ele integrou um grupo musical que fez sucesso nos anos 60, chamado Originais do Samba (Mussum talvez seja o membro mais conhecido do grupo). Atribui-se a Guineto, , inclusive, a introdução do Banjo em grupos de samba (objeto de controvérsia, que não cabe tratar aqui, por enquanto). O certo é que Almir teria uma forma particular de tocar banjo, cujo volume, ao contrário do cavaquinho, era capaz de soar mais alto junto aos instrumentos percussivos.

Compacto 7" - Os Originais Do Samba ‎– Os Originais Do Samba

Almir, carioca do morro do Salgueiro, teve que se mudar para São Paulo junto com o grupo Originais do Samba. E morava numa casa com vários homens. Ali surgiu “Coisinha do pai”, que é contada por Ruy Godinho, no volume 1 de seu livro “Então, foi assim?”

“Eu comecei a fazer na Rua Aurora, 544 apto 105, eu e o Luiz Carlo Chuchu. Nós morávamos juntos no apartamento do meu irmão Chiquinho, que era um dos integrantes dos Originais do Samba, no tempo do Mussum. E ali só morava homem: Eu, Chiquinho, Luiz Carlos Chuchu e Lelê, que também fazia parte do grupo. Cada dia era um que fazia a comida ou a limpeza. E nesse dia era meu dia de limpar. Eles até brincavam: ‘hoje a Raquel é você!’ cada um tinha o seu dia de sofrimento. E, de madrugada, eu, embriagado como sempre, pintou essa música: “Ô coisinha tão bonitinha do pai/ô coisinha tão bonitinha do pai…”

Homenagem Almir Guineto - Marcinho Moreira [ SÓ NO BANJO ]
Almir Guineto

Eu fiz a primeira parte. Aí o Luiz Carlos, que é um compositor muito bom, botou a segunda parte: “Você vale ouro todo o meu tesouro/Tão formosa da cabeça aos pés”

O Beto Sem Braço era o parceiro que iria fazer a terceira parte, já estava até na cabeça dele. Mas o Jorge Aragão ouviu a gente cantar e e pediu para botar a terceira parte, em homenagem à filha dele que tinha nascido: Vou lhe amando lhe adorando/Digo mais uma vez/Agradeço a Deus por que lhe fez

Assim, despretensiosamente, o samba caiu no colo de Beth Carvalho, que a gravou em 1979, no disco “Pagode”. Foi um sucesso absoluto. A letra, que inicialmente sugere uma relação de admiração pela mulher, no aspecto sensual, termina por desembocar numa relação de amor pai-filha, indicada nos versos finais de Jorge Aragão.

 

Flor de Lis/Djavan – A lenda de que teria sido feita para uma filha que morreu no parto

A mulher e a filha de Djavan morreram durante o parto? Mais cedo ou mais tarde você vai receber uma mensagem com essa, entre tantas lendas que circulam pela internet. Estas histórias circulam pela rede com a mesma intensidade que nossos avós falavam da mula-sem-cabeça… Os autores da lenda buscam dar credibilidade à história citando alguma suposta fonte (que ninguém se dá ao trabalho de conferir), e essa notícia se espalha e as pessoas começam a citá-la como verdade. 

Djavan – Flor De Lis (1987, CD) - Discogs

Uma dessas lendas do ciberespaço diz respeito ao primeiro sucesso de Djavan, Flor de Lis, gravado no seu primeiro álbum: A voz, o Violão, em 1976. Ninguém sabe ao certo como e onde ela surgiu, mas o certo que antes da internet ela não existia…

Segundo circula na internet, Djavan era casado com uma mulher chamada Maria, os dois teriam uma filha que se chamaria Margarida, mas sua mulher teve um problema na hora do parto e ele teria que optar por sua mulher ou por sua filha…. seguindo a lenda, Djavan teria pedido ao médico que fizesse tudo que pudesse para salvar as duas, mas o destino foi duro e a mulher e a filha faleceram no parto. Essa seria a inspiração de Flor de Liz.

Djavan, no Palco MPB, em novembro de 2010, esclareceu a história:

“Existe uma explicação na internet completamente falsa, nada daquilo jamais aconteceu, não é uma experiência pessoal, é uma invenção. De um modo geral a minha composição não fala de mim mesmo. É claro que eu não posso negar que está embutido ali coisas da minha experiência de vida, até coisas que aconteceram realmente, mas não são autobiográficas, de modo algum, essa não é a intenção. (…) E a explicação que deram pra “Flor de Lis”, que eu tive uma mulher, que deu a luz a uma criança, e a mulher morreu no parto, isso é de uma imaginação incrível, Muitas vezes  Minhas canções, embora tenham algo de mim, não possuem intenção autobiográfica. A primeira vez que eu li isso eu fiquei assustado. As pessoas realmente tem muita criatividade”.

O boato na imagem abaixo

flor de lis | Segura o Picumã

Mas o mais incrível é que gente na internet divulga, e ainda diz que pouco importa que seja verdade ou não, alguns dizem que a “história é linda, mesmo que não seja verdadeira”.  

Djavan efetivamente teve uma esposa chamada Maria: Maria Aparecida dos Santos Viana, com quem viveu entre 1972 e 1998. Mas ela está bem viva, e estava com o cantor quando do lançamento da música.

Em 2013 o cantor contou, numa entrevista ao programa Viva Voz, falando de  sua intenção com a letra:

Eu nunca tive por essa música uma impressão de tristeza, embora ela fale sobre um grande amor que não aconteceu. É uma música que conta uma história, de maneira leve, e a conclusão é isso [E o meu jardim da vida ressecou, morreu/Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu…]com o refrão], mas ele não está se lamentando. Ele está concluindo a história que acabou de contar. É a enésima vez que eu estou falando, nunca aconteceu nada disso, essa música nem mesmo fala de uma experiência pessoal…

Flor de Lis | Amazon.com.br

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“Flor de Lis”

“Valei-me, Deus! É o fim do nosso amor

Perdoa, por favor, eu sei que o erro aconteceu.

Mas não sei o que fez, tudo mudar de vez.

Onde foi que eu errei?

Eu só sei que amei, que amei, que amei, que amei.

Será talvez que a minha ilusão, foi dar meu coração,

com toda força, pra essa moça me fazer feliz,

e o destino não quis, me ver como raiz de uma flôr de liz.

E foi assim que eu vi nosso amor na poeira, poeira.

Morto na beleza fria de Maria.

E o meu jardim da vida ressecou, morreu.

Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu.

E o meu jardim da vida ressecou, morreu.

Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu…

Originalmente publicada em janeiro de 2011. – Flor de lis – a lenda

Poema. A canção póstuma de Cazuza…

Cazuza tinha um grande amor por sua avó paterna, Maria José. Segundo conta Lucinha Araújo, mãe do cantor (Só as mães são felizes , Globolivros, 2004) ela era uma das válvulas de escape do artista, em cuja casa de Vassouras ele passou as férias dos 3 aos 15 anos. Relata que na casa da avó Cazuza era era tratado como um príncipe, cercado de todos os mimos.

A avó materna de Cazuza, a Vó Lice, morreu quando Cazuza tinha 17 anos. Ele, então, fez um poema, cujos versos estão gravados hoje no túmulo de sua avó:

Você foi embora

deixou vazia a casa

o riso num álbum de fotografias

e aquela imagem de Santa Rita…

e eu fiquei lá fora

brincando de cidade deserta

chupando manga

pedindo um beijo…

e agora é a velha história

você virou saudade

daqueles tempos de carochinha

daquela vida que eu inventei

daquela reza que decorei…

agora eu vou vivendo

no mundo sem sonho ou lenda

e só de noite, quando me lembro

eu sinto um troço no meu peito

e durmo…

Seu neto

Lucinha Araújo, tanto no Livro “O Tempo Não Para – Viva Cazuza”, quanto em entrevista a Pedro Bial (https://globoplay.globo.com/v/6643455), conta que a avó paterna de Cazuza disse, então, que ele não esperasse que ela morresse para que recebesse um poema dele, pediu para que ele desse a ela um poema enquanto ela estivesse viva. Numa tarde, Cazuza presenteou sua avó com este poema.

Depois da morte de Cazuza, sua mãe (Lucinha Araújo) começou a fazer um acervo com o material pertencente ao filho. Ela sabia que sua sogra guardava com carinho o poema escrito pelo neto, e pediu a ela o poema, para que fizesse parte do acervo. Mas a avó de Cazuza recusou, pois disse que não poderia entregar um presente.

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Após o falecimento de Maria José, as cunhadas, filhas de Maria José, ´perguntaram se Lucinha desejaria alguma lembrança dela. Lucinha pediu então as fotos que ela tinha com Cazuza e alguns LP’s autografados, e tinha um papel dobrado, escrito “poema para Maria”.

Tornada conhecida 23 anos depois, Lucinha ligou para Roberto Frejat (parceiro musical de Cazuza com quem fazia parte na Barão Vermelho), perguntando se ele aceitava idealizar uma música a partir do poema. Frejat atravessou uma noite e transformou o poema em música.

A pessoa escolhida para cantar não poderia ser outra senão Ney Matogrosso, grande responsável pelo boom da carreira do Barão vermelho, com “pro dia nascer feliz”, em 1985. Ney gravou a canção em 1999, no seu álbum “Olhos de Farol”. É, inclusive, a canção mais tocada na voz de Ney.

Eu hoje tive um pesadelo

E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás

Poemas de Arnaldo Antunes para Cássia Eller e para Marisa Monte

Marisas Monte e Cassia Eller são as maiores cantoras de sua geração. A década de 90 não seria a mesma se não houvesse o contraste entre a suave voz de soprano de Marisa, e o rascante timbre vocal de Cassia. Me deparei então com dois textos de Arnaldo Antunes, um para cada cantora, ambos encontrados em “Música Popular Brasileira”, de Mário Luiz Thompson, editora Bem Te Vi, São Paulo, 2001″. Vale a pena ver o trecho para cada uma delas: 

A relação musical de Arnaldo Antunes com Cassia, do ponto de vista das músicas gravadas, é escassa. Cassia Eller Gravou “Socorro”, música de Arnaldo Antunes para um poema de Alice Ruiz, em 1994.

Tributo a Cássia Eller na primeira noite do Rock In Rio | VEJA

Cássia Eller
Arnaldo Antunes
2001

O rugido do mar. A rocha. A lambida da fera. A guitarra. O raio surdo antes do trovão. A faísca que escapa do fio. 
Tudo ali no canto de Cássia Eller.
A brasa do cigarro brilhando na tragada, com a intensidade do que não dura, como a nota; sílaba.
Tudo sob controle sobre descontrole sob controle.
Sua voz parece um corpo material, de carne e osso e músculo e sexo. Um corpo opaco, massa compacta de graves e agudos soando juntos como um soco, um trago, uma onda de éter na cabeça.

Com Marisa Monte a relação é muito mais próxima. Além de formarem os Tribalistas, junto de Carlinhos Brown, a primeira música gravada por Marisa Monte no seu primeiro álbum é “Comida”, parceria de Arnaldo, Sérgio Britto e Marcelo Frommer, na época dos Titãs. E Arnaldo acompanha a trajetória Musical de Marisa, com duas músicas em “Mais”, três músicas em “Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão” (duas em parcerias coma própria Marisa), parceria que se repete em “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor“. “Infinito Particular”, “Universo ao meu redor” “O que você quer saber de verdade”

Bahia Notícias / Cultura / Notícia / Arnaldo Antunes e Marisa Monte  processam Doria por usar música sem autorização - 31/07/2018

Marisa Monte
Arnaldo Antunes
2001

Marisa Monte expressa uma consciência impressionante do que está cantando, quando canta. Como se dissesse ao máximo aquilo que a canção está dizendo. Seu canto é esclarecedor. Revela significados ocultos nas palavras. E essa é para mim sua maior qualidade, como é para mim a maior e mais rara qualidade de uma intérprete. 
A inflexão certa, a intenção justa, o timbre adequado. A pronúncia, a duração, o gesto. Tudo ali parece trabalhar junto e com muita naturalidade para carregar ainda mais de sentidos as canções.
E essa consciência se expande inevitavelmente ao som, à banda, ao repertório, aos arranjos e, principalmente, às composições próprias, de algumas das quais eu me orgulho em ser seu parceiro.

Como pode isso emocionar assim?

Interessante reparar que as referências a Marisa são prosa, enquanto Cassia é poesia. Enquanto Arnaldo destaca a capacidade de Marisa esclarecer ao cantar, ressalta a capacidade de Cassia emocionar. O preciso e o impreciso.  Vale o registro. 

Chão de Giz

Há muitas análise e especulações sobre como foi composta a composição “Chão de Giz”, que integra o primeiro álbum de Zé Ramalho (1978). A canção, imagética e cheia de metáforas, revela um relacionamentos que o artista teve, muito jovem, com uma mulher mais velha, casada, que fazia parte da chamada “alta sociedade” de João Pessoa.

Em entrevistas, Zé Ramalho apenas revela esta condição, sem contar detalhes sobre a história que viveu. O que resta são as inúmeras análises que se faz da letra da canção.

Zé Ramalho no música de segunda e Táxi Boy | Imaginação Fértil

Na letra, o eu-lírico se despede de uma relação, que possivelmente ocorreu ou atravessou um carnaval. Inegavelmente, revela uma frustração por uma relação não correspondida

Há relatos, que constavam no próprio site do artista que ele se apaixonou por esta mulher, casada com uma pessoa influente da sociedade, e que não estaria disposta a abandonar sua posição por aquela relação adolescente.

Diz-se, também, que Zé Ramalho ficou arrasado por meses, e chegou a mudar de bairro, pois morava próximo a ela. E, nesse período de sofrimento, compôs a canção.

chão de giz} bordado objeto no Elo7 | Rebecca Jacob ~ Bordado Livre  (11A674B)

Zé Ramalho, recentemente, numa entrevista, disse que em nenhuma música dele contém a frase “eu te amo”. esta frase é dita por outros caminhos. E ele, nesta canção, relata a experiência do desamor, ou melhor, do amor que se desfez.

E assim ele relata, no chão de giz, efêmero, frágil, dissipável, no qual as lembranças e devaneios daquela relação que se finda o torturam…

E as imagens daquela mulher, recortadas em folhas de jornais, seriam guardadas “no pano de guardar confetes’, ou seja, ficarão nas memórias e nos restos daquele carnaval.

E por mais que ele tente lutar, usando toadas as suas armas (“balas de canhão”), existe o Grão-Vizir, o marido. Mais do que a referência à posição, há uma referência à vilania, associada certamente a Kara Mustafá, um famoso grão-vizir otomano que é associado á ganância e à vilania. O Grão Vizir é o antagonista, e, em certa medida, o vencedor deste jogo de amor

E, numa manifestação de um certo despeito, ele diz ser o colibri que pode polinizar outras violetas velhas, assim como ela, e, diante da impotência, faz referência à loucura (camisa de força) e aos desejo (camisa de vênus) reunidas numa mesma pessoa.

E ele se resigna, pois não quer com ela apenas o cigarro efêmero do pós- sexo, nem o beijo passageiro. E por isso, nocauteado, vai embora, pois não quer, como um escravo, ficar acorrentado no calcanhar da pessoa, como uma forma de subordinação.

E na juventude dele, ele relata algo um tanto edipiano neste amor pela mulher mais velha (“Freud Explica”), e que a história acabou, o carnaval dele com ela acabou, e ele está indo embora.

Resta claro que a despedida, diante do contexto, é a única opção.

Significado da música Chão de Giz - Análise e Interpretação - Cultura Genial

http://museudacancao.blogspot.com/2012/11/chao-de-giz.html

http://www.cronistas.com.br/default.asp?ID_CRONICA=141

Minha fama de Mau – A biografia de Erasmo Carlos

Depois de algum tempo com o livro, resolvi ler “Minha fama de mau”, biografia de Erasmo Carlos. Na verdade, o livro é uma coleção de histórias, que revela muito do personagem Erasmo Esteves, que mais adiante resolveu adotar o nome artístico Erasmo Carlos, numa dupla homenagem ao seu “amigo de fé” Roberto Carlos, e ao seu chefe Carlos Imperial.

Resumo - Minha Fama de Mau - Mais comentadas - 1

Interessante é que o livro tem o título “Minha Fama de Mau”, título de uma canção da parceria Roberto/Erasmo, mas que, na verdade, de “mau” mesmo, não revela nada. No máximo as zoações que ele fazia quando adolescente em relação ao “Careca” que namorava uma garota que ele desejava, no bairro da Tijuca, no rio de Janeiro.

Erasmo, no livro, não fala mal literalmente de ninguém, e arranja um jeito de contar uma história/homenagem em relação a pessoas importantes na MPB. Estão lá João Gilberto (de quem se declara fã incondicional, junto com Elvis Presley), jorge Benjor, Tim Maia (que o ensinou a tocar violão), Wanderleia, Caetano, Gal, Chico Buarque, entre tantos outros. Não falta, claro, um capítulo inteiro do livro para contar de sua relação com Roberto Carlos, uma amizade que, segundo ele, ficou estremecida apenas uma vez.

Mês das Noivas - músicas da dupla mais retrô | Jovem guarda, Roberto carlos  cantor, Roberto carlos

Erasmo por Erasmo é alguém fissurado em mulheres, carros e rock’n roll. Conta por alto sua aventuras com mulheres, conta sua rotina louca na época da Jovem Guarda, os conselhos de Carlos Imperial, sua vida de casado com Narinha nos anos 70/80, em que ele meio que aderiu a uma vida mais hippie, As famosas vaias que recebeu dos metaleiros no Rock in Rio em 1985.

Escrito de maneira leve e positiva, o livro agrada a quem lê e passa ao largo claramente de questões polêmicas, como questões relativas a álcool, drogas, a acusação de corrupção de menores nos anos 60, e tangencia, bem superficialmente, o suicídio de sua ex-mulher, Narinha, após alguns anos de separação.

No mais, é um livro que se lê rapidamente, em que Erasmo é um cara boa praça, parceiro, de bem com a vida e namorador. Vale como o registro de uma época, como uma leve coleção de histórias de vida.

Canção da despedida. A única parceria de dois Geraldos (Vandré e Azevedo)

Poucos sentiram tão fortemente o peso da ditadura militar como Geraldo Vandré. E a maior responsável por isso foi sua canção “Pra não dizer que não falei de flores”, ou “Caminhando”, apresentada no III Festival Internacional da Canção, no dia 29 de setembro de 1968. A canção ficou em segundo lugar (perdeu para Sabiá, de Chico e Tom Jobim, que receberam a maior vaia de suas vidas), mas foi cantada e recantada pelo público e chamada como a “Marselhesa Brasileira”. 

O certo é que, após o sucesso estrondoso de “Caminhando”, um verdadeiro hino contra a ditadura, a vida de Vandré tornou-se um martírio. Para se ter uma ideia, Zuenir Ventura faz uma referência a um artigo revoltado de um General, publicado no Jornal do Brasil em 06 de outubro de 1968, com o militar dizendo que a final do Festival da canção contemplara 3 injustiças:

1. Do Júri, ao colocar a música em segundo lugar, desconsiderando a “pobreza” da letra com seus gerúndios e rimas terminadas em “ão”, sem falar da canção em dois acordes.

2. Do público, que vaiou “Sabiá”

3. De Geraldo Vandré, que se insurgira contra “soldados armados”. Mas neste caso o general dizia que apenas essa terceira injustiça poderia ser reparada. 

Geraldo Vandré: o último show e a volta silenciosa
Vandré

No Jornal Estado de São Paulo de 05/08/1995, consta que Geraldo Vandré teria rompido com o Trio Marayá, que cantou com ele no Festival da Canção de 1968, e montou um novo grupo para acompanhá-lo numa turnê: o Quarteto Livre, do qual Geraldo Azevedo fazia parte do grupo.

Antes mesmo da canção “Caminhando” ser proibida oficialmente no dia 23 de outubro de 68, os discos já eram apreendidos, e Vandré vivia na paranoia de ser preso. Medo que se intensificou na sexta feira 13 de dezembro de 1968, quando veio o AI-5, uma das passagens mais vergonhosas da nossa história, que fechava o congresso, suprimia garantias individuais (como o habeas corpus) e fazia com que a ditadura mostrasse sua faze mais horrenda.

Vandré é advogado, e sabia dos riscos que corria, passou a esconder-se, viver na clandestinidade, mesmo sem saber se ele seria preso ou não, e, como relata Dalva Silveira, no seu livro “Geraldo Vandré: A vida não se resume em festivais (FT Editora), ele passou a planejar a fuga para um autoexílio.

Mas, antes de fugir do Brasil, Vandré passou um tempo escondido com ajuda da viúva de Guimarães Rosa. 

No período em que estava foragido, uma das pessoas que tinha acesso a Geraldo Vandré era Geraldo Azevedo, que compunha o “Quarteto livre”, banda que o acompanhara na turnê do Show “pra não dizer que não falei de flores”, cujo título, censurado, passou a ser “Socorro – a poesia está matando o povo”. 

Tarati Taraguá: Geraldo Azevedo - Jornal Nossa Música (1983)
Geraldo Azevedo

Geraldo Azevedo disse que, para ver Vandré, tinha que se comportar “como um militante de organização clandestina; entrava num carro, mudava para outro, fazia tudo para despistar pessoas da repressão que pudessem estar me seguindo para, por meu intermédio, chegar a Vandré” 

Nesse clima compuseram em parceria, Vandré e Azevedo, a “Canção da Despedida”, cuja letra é absolutamente clara e explícita. 

O eu-lírico anuncia sua despedida do seu amor, anunciando, todavia, seu futuro retorno. Afirma não poder ficar tendo em vista que um Rei mal coroado (que vem a ser, obviamente o governo militar) não deseja o amor em seu reinado.

No entanto, ao mesmo tempo em que se despede, anuncia a morte do “rei” velho e cansado, ao mesmo tempo em que anuncia a permanência do amor de hoje.  

 Obviamente, a música foi censurada. Numa entrevista para o site (www.abarriguda.org.br), Geraldo Azevedo conta:

Eu fui censurado várias vezes, teve uma canção minha que foi censurada até a ditadura acabar, que foi uma musica que eu fiz com Geraldo Vandré, a Canção da Despedida, foi muito censurada, insistimos, cheguei a colocá-la muitas vezes com nomes diferentes, mas não passava não!

Geraldo Vandré, todavia, numa entrevista a Ricardo Anísio em 2004, afirmou: 

“RA – Mas o Geraldo Azevedo também tem uma estória. Você disse que ele nunca foi seu parceiro em “Canção da Despedida”. Confirma isso?

GV – Claro que confirmo. Eu nunca tive parceiro nessa canção, a escrevi sozinho e ela está gravada no disco que fiz na França (“Das Terras de Bemvirá) mas quando foi lançado no Brasil veio sem essa faixa, não sei porquê, se foi por censura ou algo que o valha. A verdade é que depois que a marca Vandré virou um mito monstruoso apareceram parcerias que eu nunca fiz”.

Canção da Despedida - Geraldo Vandré (Compositores: Geraldo Vandré e Geraldo  Azevedo) | Geraldo azevedo, Letras de musicas, Musicas trechos de

O fato é que em 16 de julho de 1973 Vandré retornara ao Brasil. Ficara incomunicável nos quartéis do exército. Ao sair, disse que sua canção teria sido injustamente apropriada por grupos políticos e que dali para a frente só faria canções de ‘amor e paz’.

O artista Geraldo Vandré “morreu” ao voltar do exílio, restando apenas o advogado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias. A ponto de que, quando Elba Ramalho foi gravar a “Canção da Despedida”, após sua liberação pela censura no fim da década de 70, Vandré não quis autorizar a sua execução, só o fazendo quando seu nome foi retirado dos créditos.

 Mas parece que era realmente uma despedida. Geraldo vandré nunca mais retornou… Ele jamais gravara esta canção. 

Canção da despedida – segunda do disco 2. Créditos Geraldo Azevedo/Geraldo

Geraldo Azevedo conta que, com a abertura política, disse que a “Canção da Despedida”, seguidamente censurada, poderia ser gravada. Aí ele procurou Vandré. Nas palavras de Geraldo Azevedo:

Minha conversa com Vandré foi difícil; ele não queria que a música não fosse gravada. resolvi que seria. Elba registrou-a em um belo disco, em 1980. (Só que, nos créditos, apareceram como autores Geraldo Azevedo e Geraldo – sem o sobrenome). Em 1985, Geraldo Azevedo colocou a autoria completa, pois soube que Geraldo Vandré se incomodara por não ter seu nome registrado integralmente.

Fontes: Silveira, Dalva, Geraldo Vandré: A vida não se resume em festivais (FT Editora)

http://www.abarriguda.org.br/destaques/entrevista-com-geraldo-azevedo/

https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19950805-37180-nac-0078-cd2-d4-not