Beija Eu

Em 1991, Marisa Monte lança seu primeiro disco de estúdio, “Mais”. Ela começa a aparecer como compositora, principalmente com suas parcerias com os então Titãs Nando Reis e Arnaldo Antunes.

Depois da explosão de “Bem que se quis”, dois anos antes, “Mais” foi o disco que confirmou a carreira de Marisa, que veio a se consolidar com Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-rosa e Carvão, em 1994.

A primeira música do disco, “Beija eu”,  considerada uma das melhores canções pop da década, tem uma inspiração singela. Arnaldo Antunes inspirou-se no modo com que seus filhos falavam. Disse, então, numa entrevista à Folha:

Já me inspirei muito neles [os filhos]. ‘Beija eu’, por exemplo, tem esse jeito de dizer que era o deles quando pequenos. ‘Pega eu’, Leva eu”, claro que transmitido para uma relação adulta amorosa, só que pegando um pouco a afetividade que vinha da sintaxe que eles usavam comumente”

Aquarelas Culturais: 15 - Beija Eu - Marisa Monte e Arnaldo Antunes

A letra começa justamente com a forma da criança se expressar, na própria visão de Arnaldo, em vez de “me beija”, há o “beija eu”, e isso, trasladado na relação amorosa, começa com um pedido, uma súplica de que o eu-lírico possar ser ele/ela mesmo(a). Em síntese, o recado da primeira estrofe é: ” deixe que eu seja eu mesmo, e aceite o que eu te der”

Seja eu,
Seja eu,
Deixa que eu seja eu.
E aceita
o que seja seu.
Então deita e aceita eu.

Beija Eu – Wikipédia, a enciclopédia livre

Em seguida, há referências claras a um encontro amorosos, com secos e molhados, o dormir e acordar juntos, os corpos tocando, e o desejo de continuidade no anoitecer e no amanhecer.

Molha eu,
Seca eu,
Deixa que eu seja o céu.
E receba
o que seja seu.
Anoiteça e amanheça eu.

Nielson Ribeiro Modro faz uma análise da canção: 

Trata-se da utilização intencional de um ‘ready made’ da linguagem infantil. Segundo declarações do próprio Antunes, sempre que perguntado a respeito, esta é uma estrutura inspirada no falar das crianças, que utilizam estruturas semelhantes na fase inicial da aquisição da fala e só adquirem o domínio da forma átona pronominal numa fase posterior à aprendizagem da forma pronominal pessoal.

A utilização desta forma infantil na canção resulta em frases simples mas de efeito enriquecedor, visto que demonstra uma certa dependência por parte do eu-lírico, como se fosse uma criança indefesa. Esta dependência resulta ainda numa maior proximidade entre o eu-lírico e a pessoa amada, demonstrando que, apesar dos imperativos utilizados, o resultado final desejado é a comunhão amorosa. Pode-se ter, ainda, um remetimento metafórico a uma criança que, apesar de dependente, ordena o que deseja de forma sutil, sempre despojando-se: “então beba e receba/ meu corpo no seu corpo/ eu no meu corpo/ deixa/ eu me deixo”. Ou ainda, a sugestão de que a voz adulta infantilizada resulta numa proposta amorosa ingenuamente maliciosa

Camiseta Beija eu | Vandal

Beija eu,
Beija eu,
Beija eu, me beija.
Deixa
O que seja ser.
Então beba e receba
Meu corpo no seu corpo,
Eu no meu corpo
Deixa,
Eu me deixo.
Anoiteça e amanheça.

Isso acaba fazendo vir à tona aquele jeito que os casais apaixonados às vezes conversam entre si, com voz e jeito de criança, e todas as implicações desse comportamento.

https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/24379/D%20-%20MODRO,%20NIELSON%20RIBEIRO.pdf?sequence=1

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/151171-monica-bergamo.shtml

http://aquarelasculturais.blogspot.com/2011/09/beija-eu-marisa-monte-e-arnaldo-antunes.html

Dora

“Dora, rainha do frevo e do maracatu…” com estas palavras, Caymmi começa uma homenagem a Recife, e à mulher brasileira que simboliza a cidade. A morena, cafusa, que dança o maracatu melhor que ninguém.

O curioso é que Dora foi composta num momento de saudade, composta em 1941, quando se despediu de sua esposa Stella. Caymmi conta assim, no episódio “Caymmi por ele mesmo”, exibida pela Rádio Cultura:

Dora

“Dora foi feito debaixo de uma coisa meio dolorosa: nós estávamos em plena guerra, estávamos eu e Stella (minha mulher ) em Fortaleza já com data marcada de viagem para o Rio de Janeiro. Ficou decidido em Fortaleza que ela viria pro Rio, porque me ofereceram compromisso de trabalho em Recife por 18 dias e eu relutei com medo daquela coisa que havia dificuldade de condução aérea e por mar, havia a chamada prioridade militar da guerra então sua passagem comprada podia ser cedida a um militar; e aconteceu desse roteiro que eu calculava para um mês e pouco fora de casa sem Stela, e eu fiquei dois meses pingando, pingando de Recife  até chegar ao Rio de Janeiro.

Viemos de Fortaleza naquele navio que parou em Recife e eu teria que ficar em Recife e Stella teria que vir direto pro Rio. Nana ia pro sexto mês de idade, estava aos cuidados da minha sogra mãe de minha mulher Stela  e que já deveria estar se sentindo na  saudade de mãe jovem, de qualquer mãe, não é? De qualquer idade. Muito justo e eu tinha que trabalhar 18 dias fazer um no rádio, fazer o Jóquei clube, enfim tinha que ficar em Recife e o navio iria embora.

Fotografias do Recife de 40 e 50 à venda no Museu da Cidade
Recife nos anos 40

Passamos (eu e Stella) o dia esperando o navio em Recife, no Hotel Central. Ficamos ali ela se arrumou, se ajeitou arrumou as bagagens bem de acordo do que precisava ali, algumas compras que fez e às onze horas da noite estávamos no porto de mar. Então ela partiu e eu fiquei chocado: a partida, aquela coisa, nós tínhamos apenas nem dois anos de casado, é um negócio assim, que é chocante à beça.

Pois bem: aquela separação me doendo terrivelmente. Cheguei no Hotel Central (onde estávamos hospedados) e tudo me doeu, tudo me lembrou Stella: peguei meu pente, escova, encontrei os cabelos dela ai fiquei  torturado. Em suma: fechei a mala, fechei tudo e saí. Saí assim de louco com a esperança de encontrar lugar no grande hotel  e não tinha vaga pra ninguém tão cedo. Então peguei minha mala meu violão e fui pro cais e sentei defronte do grande hotel, numa murada acabei de ver o navio saindo, saindo levando Stella pro Rio de Janeiro, muito longe….

E naquela melancolia aquela coisa e tal, eu ia no lá no bar (aberto lá dentro do hotel) e pedia: “você dá um conhaque?’ ele disse: “dou” dava o conhaque eu pagava, voltava pro meu ponto lá.

Mas enquanto isso eu puxei o violão que estava comigo no cais, na murada, o violão e a mala  e olhava o mar, a noite ali e tal o hotel, a fachada luminosa. De repente bradou um som assim, era um som de frevo, metais né? Trombones, pistões e tal, aquela coisa, um negócio bonito, um ritmo bonito que é o frevo né? A marcha agitada. Quando olhei vinha de lá o cordão puxando tudo à paisana e perguntei a uns: ‘isso é o que? isso é um carnavalzinho?’ ‘Não isso é que o pessoal tá correndo a bandeira pra pegar ajuda para o carnaval’. É um habito antigo né? Correr a bandeira pra pegar dinheiro. Aí chegava nos hotéis e pedia ‘ajuda aqui’ . Então esse bloco chamado o Pão da Tarde foi a informação que eu tive vinha buscar na porta dos hotéis aquele aquela ajuda e estavam tocando um frevo maravilhoso.

a roda dos brincantes festeiros: Maracatu
Maracatu

De repente eu vi que saía uma morena de lá e fazia o passo. Ela já vinha de longe, eu não tinha visto. Não era nenhum exemplo de beleza, era uma moça dançando. Tinha um daqueles bailarinos de rua, assim. O frevo sempre teve bonitos dançarinos, bonitas dançarinas né, fazendo um passo maravilhoso aquela sombrinha, aquele negócio  é uma coisa importantíssima.

Pois bem: foi nesta hora que quando o bloco saiu dali que foi andando e tal foi embora, bater em outros hotéis, outros buracos outras padarias, pastelarias, bares abertos pela madrugada, e já era por ai o que uma e meia da madrugada, eu voltei estava mais solitária ali a noite  né?

Edifício do Hotel Central, no Recife, é tombado pelo governo estadual |  Pernambuco | G1
Hotel Central de Recife

Foi quando me ocorreu a lembrança daquela moça de branco, assim, meio cor de rosa…. de vez em quando ela tirava a sandália e fazia descalça no trilho do bonde um passo ali, e era um requinte, o frevo do passo. E então deixei passar um pouco e saiu aquele som de música e tal, e eu fiquei com aquela ideia: ‘Dora rainha do frevo….’ Comecei a enfeitar e adornar aquela moça como rainha do frevo, rainha do maracatu, rainha de uma porção de coisas pra  arranjar um som e uma distração porque o navio já tinha ido né…

E a ideia de Dora nasceu ai ‘Dora rainha do frevo e do maracatu, Dora rainha cafuza….’ e o cafuza é bom, vem aquela analisezinha que a gente faz né? Cafuza, aquela mestiça, aquele tipo tá, calhando bem, de uma rainha de um maracatu, aquele esplendor daqueles três dias de  maracatu, carnaval…. ainda não tinha visto carnaval em Recife. ‘Te conheci no Recife dos rios cortados de pontes…’ ai eu fui fazendo já estava conhecendo Recife estava ali já há alguns dias e a canção foi aumentando, aumentando ‘Coloniais….’ achei bonito ‘Dos bairros das fontes, coloniais… Dora chamei….’ e fiquei por ai mais ou menos por ai.

em depoimento prestado à Associação de Pesquisadores da Música Popular Brasileira, em 1983, ele arrematou: “até que veio um empregado do hotel me avisar que havia desocupado um quarto. No dia seguinte fiz mais um pedaço. Mais adiante, já em Maceió, cheguei naquela parte que diz: ‘Os clarins da banda militar / tocam para anunciar…’”.

Recife nos anos 40

A música foi gravada por Caymmi em 1945, e o lançamento se deu em agosto do mesmo ano, disco 12606-A, matriz 7856, com acompanhamento da orquestra de Fon-Fon.

Fontes:

http://museudacancao.blogspot.com.br/

Stella Caymmi. “Dorival Caymmi: O ma e o tempo”

http://culturabrasil.cmais.com.br/programas/caymmi-por-ele-mesmo/arquivo/sereias-de-terra

Os Doces Bárbaros – O filme

O ano: 1976. Para comemorar os dez anos comuns de carreira, Bethania chama Caetano, Gil e Gal para formarem um conjunto para se apresentar pelo Brasil. Fazem um repertório especial, com músicas como O seu amor, Esotérico, Pé quente cabeça fria, Um índio, além de Fé cega, faca amolada, de Milton, e Atiraste uma Pedra, de Herivelto Martins.

Tudo isso foi documentado por Tom Job Azulay. E com algumas situações divertidas, e outras nem tanto.

Esfinge Cultural: Resenha de Filme: Documentário "Doces Bárbaros" Mostra  Uma das Fases Mais Criativas de Monumentos da MPB.

Mostra a amizade entre os quatro, a descontração dos ensaios, tudo entremeado com as músicas do show.

Há muito destaque para a prisão de Gil por porte de drogas, ocorrida em Florianópolis, mostrando como houve um “consentimento” para que se entrasse nos quartos do hotel. Gil estava com um cigarro de maconha e mais um pouco para fazer mais um cigarro.

Há filmagem da própria audiência em que ele foi condenado, mostrando o quão, amiúde, a justiça criminal pode ser ridícula. Não dá para deixar de notar o sorriso de Gil enquanto o juiz profere a sentença. No que ele estava pensando? 

Entremeada com as canções, é divertido ver como Caetano e Bethania ridicularizam elegantemente os repórteres que os entrevistam. 

Num determinado momento, um repórter pergunta porque a Banda é “tão doce”. Segue o diálogo: 

Por que um grupo tão doce, tão açucarado, no atual momento da conjuntura nacional?
(Repórter 1).

Não entendi a sua pergunta (Caetano).
Por que o tão doces? (Repórter 1).
Não é tão doces. É Doces Bárbaros. O tão é seu, você é que está falando em nome da conjuntura, então você ponha o tão… (Caetano).
Vai dar um LP dos quatro? (Repórter 2).
Vai, a gente já fez um compacto duplo (Caetano).
Eles já vêm com um esquema comercial montado, não se preocupe (Repórter 1).
Claro! (Caetano).
Não seria mais um produto para consumo imediato? (Diversos repórteres).
Mas é claro que é mais um produto (Caetano).
E vocês estão bem convictos disso. O Gil, agora há pouco, disse que era pra tocar no rádio, pra vender mesmo (Repórter 1).
Não, claro, como todo mundo. Não conheço ninguém que faça o oposto (Caetano).
Não, porque você me perguntou, disse assim: tem umas músicas que você faz de vez em quando pra tocar no rádio, e eu disse: não, eu faço todas pra tocar no rádio. Eu não sou louco. E disse mais: aquela que se chamava “Essa é pra tocar no rádio” nunca tocou no rádio (Gil).

Bethânia também tem a oportunidade de desconstruir tudo o que o repórter pergunta, desde a suposta influência de Caetano na sua carreira, (Bethania deixa claro que ela lançou Caetano) passando pela religiosidade e adesão a movimentos.

Divertida a visita de Baby Consuelo e Paulinho Bocade Cantor aos Doces Bárbaros. 

Valem muitas sensações que o filme passa. O visual do grupo, a voz, ou melhor, as vozes, a beleza de Gal, o cenário que hoje parece tosco, o colorido, o universal e o regional, um certo ar de prazer e de improviso, e, sobretudo, o prazer daqueles quatro excepcionais artistas cantando juntos.

Gal mostra clique antigo e brinca: "Saudade de encontrar os amigos, né,  minha filha?" - Revista Marie Claire | Cultura

Era a invasão dos Doces Bárbaros, que vieram da Bahia para, dez anos depois, consolidar o que tinha trazido o Tropicalismo. Vale a pena.   

segunda 16 julho 2012 21:44 , em MPB

“Por duas polegadas a mais…” A marchinha em homenagem a Martha Rocha

No último dia 4 de julho o Brasil perdeu Martha Rocha, a primeira Miss Brasil, em 1954, e que se tornou fruto, na época, de uma grande polêmica no concurso de Miss Universo daquele ano.

Martha Rocha ficou em segundo lugar no concurso, e se atribuiu, na época, que o motivo da americana Miriam Stenvenson ter ganho o troféu seria o fato de que Martha ter duas polegadas a mais de quadril.

Reportagem de O Globo em julho de 1954

A versão se tornou mais divertida que os fatos, terminou por ser fruto de uma onda nacionalista que valorizava os quadris da mulher brasileira.  

Por duas polegadas”, Martha Rocha perde o Miss Universo ...

Quem inventou a história foi o jornalista João Martins, da revista O Cruzeiro, do Rio de Janeiro,[7] para consolar o orgulho brasileiro. Tudo foi combinado com os demais jornalistas brasileiros que estavam em Long beach, onde se realizava o concurso A própria Martha autorizou a versão, conforme consta em sua autobiografia (Martha Rocha, Uma Biografia em depoimento a Isa Pessoa, Objetiva, 1993). “Nos Estados Unidos, nunca ninguém me tirou as medidas”, disse ela.

Outra especulação é que haveria a necessidade de que uma americana ganhasse, pois o Miss Universo estaria perdendo audiência nos Estados Unidos. Mas nada ficou provado.

A polêmica fez bem a Martha. Ela passou a ser cultuada no Brasil, passou a ser capa de revista, virou receita de bolo e passou a fazer campanhas publicitárias.

E isso virou marchinha de carnaval. Isso inspirou canções em homenagem ao episódio.  A marchinha “Duas Polegadas”, de Pedro Caetano, Alcyr Pires Vermelho e Carlos Renato, exaltou a beleza da baiana e as controvertidas duas polegadas a mais de quadril.

Há 65 anos, falsa versão tentava explicar a derrota de Martha ...
Miriam Stevenson e Martha Rocha

A letra da música fazia referência ao violão: : “Por duas polegadas a mais, passaram a baiana pra trás/Por duas polegadas, e logo nos quadris/Tem dó, tem dó, seu juiz!”. Martha, Martha, não ligue mais pra isso, não/ Martha, Martha, ninguém tem o seu violão.

Fontes;

http://www.missnews.com.br/historia/ha-65-anos-falsa-versao-tentava-explicar-a-derrota-de-martha-rocha-no-miss-universo

https://brasil.elpais.com/cultura/2020-07-05/morre-martha-rocha-a-primeira-miss-brasil.html

https://jacarezinho.portaldacidade.com/noticias/cidade/o-dia-em-que-a-primeira-e-mais-conhecida-miss-brasil-visitou-jacarezinho-5934

Martha Rocha, uma Biografia. Depoimentoa Isa

https://pt.wikipedia.org/wiki/Martha_Rocha

Dois pra lá, dois pra cá, um bolero clássico de Aldir Blanc

Aldir Blanc faleceu em 04 de maio de 2020. Médico psiquiatra, foi como compositor e cronista que ele se notabilizou. Dentre as parcerias musicais – que não foram poucas – a que formou com João Bosco gerou pérolas da música brasileira, que se tornaram eternas. Uma delas é o bolero “Dois pra lá, dois pra cá”, marcado pela interpretação de Elis Regina, em 1974.

A canção, notadamente um bolero, se passa em dois momentos: o primeiro, em que o eu-lírico, tímido, “sentindo um frio n’alma”, convida alguém para uma dança. Parece que o eu-lírico não dança bolero, mas o parceiro de dança acalma: “são dois pra lá, dois pra cá”.

A partir de então a música passa a ser sinestésica, em que há uma série de comparações… o coração treme de forma descompassada, ao contrário do bongô e das maracas que animam a música.

A cabeça roda, como que numa vertigem, em que sobressaem as notas de gardênia do perfume, e as costas macias, cuja lembrança em certa medida atormenta o eu-lírico até o presente.

O bolero torna-se um condutor dos outros sentidos. A sensualidade da cena está na música, no perfume, nas costas macias e na mão no pescoço, e na embriaguez sugerida no “dois pra lá, dois pra cá”

E não há nenhum texto sobre a canção que não faça alusão ao “band-aid no calcanhar”, que protege do atrito do calçado barato, que juntamente com o “falso brilhante” e aos ‘brincos iguais ao colar”, fornecem uma imagem dramática e decadente daquela cena

E a ponta de um torturante band-aid no calcanhar | Elis Regina em Dois Pra Lá, Dois Pra Cá por pedroluiss

E a música termina num presente melancólico, em que o eu-lírico, embriagando-se de uísque com guaraná, relembra a voz dizendo, “São dois pra lá, dois pra cá”

Em diversas entrevistas, Aldir Blanc relatou ter sido uma das letras mais complicadas para colocar na música de João Bosco. Disse, todavia, que a letra veio toda de uma vez depois de uma “esbórnia”, num táxi, de madrugada.

“Não pego lápis nem papel. Escuto, e uma hora a letra começa a vir … Um dia, voltando da casa do Mello (Menezes), tô num táxi e veio: “Sentindo frio em minha alma, te convidei pra dançar”. Aí abre bolsa e não tem papel, não tem lápis, entrei correndo no cafofo da Maracanã (onde morava na época), anotei aquilo tudo, fui desesperado ouvir e tava em cima, do começo à ultima palavra. Dei aquela respirada. Comecei a escrever do primeiro verso e fui até o fim direto.

Coluna | Aldir Blanc vive, Bolsonaro não | Brasil de Fato

Merece também referência à coda que homenageia e cita o bolero “La puerta”, do compositor mexicano Luis Demetrio, acrescentada como coda em fade out nos versos “dejaste abandonada la ilusión que había en mi corazón por ti”.

Enfim, um clássico eter

Sentindo frio em minha alma
Te convidei pra dançar
A tua voz me acalmava
São dois pra lá, dois pra cá

Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor

Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume, gardênia
E não me perguntes mais

A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias

No dedo, um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar

Eu hoje me embriagando
De whisky com Guaraná
Ouvi tua voz murmurando
São dois pra lá, dois pra cá

Dejaste abandonada la ilusión
Que había en mi corazón por ti

Fontes:

http://365cancoes.blogspot.com/2010/12/354-dois-pra-la-dois-pra-ca.html#:~:text=Definitivamente%2C%20%22Dois%20pra%20l%C3%A1%2C,das%20nossas%20can%C3%A7%C3%B5es%20mais%20sensuais.&text=O%20%22dois%20pra%20l%C3%A1%2C%20dois,e%20emparelhado%20dos%20amantes%20bailando.

https://extra.globo.com/tv-e-lazer/em-entrevista-aldir-blanc-revelou-bastidores-de-cancoes-famosas-como-bebado-a-equilibrista-escritas-por-ele-rv1-1-24408959.html

“Eu me amo”. Blitz e Ultraje a Rigor, ao mesmo tempo. Plágio?

No ano de 1984, a Blitz lançou uma música chamada “Egotrip”, praticamente ao mesmo tempo em que a banda Ultraje a Rigor lançava a música “Eu me amo”. Na época, a Blitz estava no auge, lançando seu terceiro disco, e o Ultraje a Rigor estava começando sua trajetória. Ambos tinham refrões quase iguais.

Em “Egotrip”, era: Eu me amo/eu me adoro/eu não consigo viver sem mim”

Em “Eu me amo”, era: “Eu me amo/Eu me amo/não posso mais viver sem mim”

Como o Ultraje lançou a música primeiro, Evandro Mesquita, vocalista da Blitz, foi acusado de plágio. Justificou então numa entrevista ao Jornal da Manhã, em 1984:

“Foi coincidência mesmo, essa nem Freud explica: Esse texto eu já utilizava há dois anos numa peça, ‘A incrível história de Nemias Demutcha’. Depois, resolvemos incluir na letra da música. Acredito que o pessoal do Ultraje, gente fina, tenha feito a música deles com praticamente o mesmo refrão na base do acaso. Mas como gravaram primeiro – e nós fomos avisados que o disco deles estava saindo – , resolvemos mudar o refrão. Ficou ainda melhor”  

Blitz 3 Egotrip 1984 Lp Em Estado De Novo - R$ 150,00 em Mercado Livre

Na verdade, o refrão ficou: Eu te amo/eu me adoro/eu não consigo te ver sem mim

Perdeu um pouco o sentido. Na verdade, Roger disse, numa entrevista reproduzida no livro “As Aventuras da Blitz” (Rodrigo Rodrigues, Ediouro, 2009), que a polêmica foi boa para o Ultraje, pois a Blitz era um sucesso e o Ultraje estava sendo conhecido. Houve uma provocação daqui ou dali da imprensa, mas o fato não foi muito adiante.

Rebelde Sem Causa Compacto Ultraje A Rigor Eu Me Amo - Música ...

Andrea Ascenção conta, no livro “Ultraje a Rigor” (Belas Letras), conta que na época da composição  Roger (vocalista ) estava lendo um livro que poderria hoje ser chamado de autoajuda. Ele pensava em fazer algo na linha de “Inútil”, primeiro sucesso da banda.

Eu me amo nasce quando Roger está lendo Solidão ou Medo do Amor (Ira Tanner),  é um livro de psicologia, que aborda análise transacional. Era uma coisa que estava na moda na época, foi um pouco antes dos livros de autoajuda.
O livro foi um achado na casa de um amigo no Rio de Janeiro, durante as férias. Roger utiliza a tese do livro que defende que as músicas de amor são sempre autodepreciativas e compõe justamente aquilo que não existe de acordo com o autor.
− Tudo bem, eu tenho um pouco de narcisismo, mas o lance da música não é esse. (…) Há uma ligação da letra de Eu me amo com a de Inútil, porque o lance de Inútil é dizer que a gente não é inútil… O livro dizia que, na criança, é natural isso de se amar, de, por exemplo, não emprestar seus brinquedos. E essas  músicas do tipo “não posso viver sem você”, “sem você a vida não vale nada”, são uma mentira. O bom mesmo é gostar de você mesmo. Partindo dessa ideia, tirei um sarro em cima desses clichês.

Lá vem o Brasil descendo a ladeira… Como João Gilberto inspirou a canção de Moraes Moreira

“Quem desce do morro, não morre no asfalto…” Com esta frase Moraes começa a letra  de “Lá vem o Brasil descendo a Ladeira”, talvez o samba de maior sucesso de Moraes Moreira após sua saída dos Novos Baianos.

Antes de se notabilizar por ser o primeiro cantor de Trio Elétrico, Moraes sempre se dizia um sambista baiano, como na letra da música “O que é o que é”, em que se definia “um sambista baiano, um artista, um bandido cigano, que é com a bola no pé e a viola na mão”.

Por dónde empiezo | Fotos históricas, Fotos do rio, Fotos antigas

Numa entrevista ao Jornal o Globo, em 1976, narrada por Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, no livro “A canção no tempo”, Moraes diz:

No fundo eu sou só um sambista baiano. samba baiano é diferente do carioca, é outra coisa. O carioca é lindo, mas tende para a melancolia, muitas vezes.O samba baiano é alegre, é pra cima, é outra malandragem” 

Voltando à música,  ela retrata uma sequência de imagens, em que uma mulata desce a ladeira com a lata na cabeça, com o dia amanhecendo…

Moraes narra que, numa dessas madrugadas, João Gilberto caminhava com Moraes numa das ruas do Rio de Janeiro , quando percebeu uma mulher descendo a ladeira, com todo vigor, todo suingue, todo gingado, e uma lata na cabeça. Estava partindo para vida, sem se queixar de nada…

João não titubeou e disse: “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”…

Esse foi o verso que “arriscou o poeta” João Gilberto, ao que Moraes respondeu com um samba “sem medo”, em que exalta a mulher negra brasileira, do morro, do samba, que anda na sola e no salto… no equilíbrio da lata…

2]

E a introdução já faz imaginar a cadência desta mulher anônima homenageada. Moraes faz uma pequena referência a esta canção no Livro “A história dos novos baianos e outros versos

Estes versos foram escritos depois que ouvi uma exclamação poética de João Gilberto. Ao ver uma linda mulata descendo o morro, ele disse: “Olha o Brasil descendo a ladeira.” Depois dessa, só mesmo um samba pra comemorar. Na parte musical contei com a participação de Pepeu Gomes.

Compacto Moraes Moreira - La Vem O Brasil Descendo A Ladeira - R ...

Um samba bem cadenciado…Segue a letra…

Quem desce do morro
Não morre no asfalto
Lá vem o Brasil descendo a ladeira
Na bola, no samba, na sola, no salto
Lá vem o Brasil descendo a ladeira
Na sua escola é a passista primeira
Lá vem o Brasil descendo a ladeira
No equilíbrio da lata não é brincadeira
Lá vem o Brasil descendo a ladeira

E toda cidade que andava quieta
Naquela madruga acordou mais cedo
Arriscando um verso, gritou o poeta
Respondeu o povo num samba sem medo
Enquanto a mulata em pleno movimento
Com tanta cadência descia a ladeira
A todos mostrava naquele momento
A força que tem a mulher brasileira

(Moraes Moreira e Pepeu Gomes)

segunda 06 janeiro 2014 12:37 , em Samba

Moraes Moreira e o Carnaval da Bahia

 

“Olhos negros cruéis, tentadores das multidões sem cantor”... Esse é um trecho de Chão da Praça, de Moraes Moreira, que ele cantou no seu último carnaval em Salvador, em 2020.

Engraçado que, para uma geração que chega aos 40, durante muito tempo o carnaval da Bahia estava órfão. Órfão de seu primeiro cantor, aquele que primeiro colocou sua voz no trio elétrico e tem uma série de canções voltadas para tocar nas ruas, em cima de um trio elétrico. Como diz Moraes em Cantor de trio:

 

Cenas de Carnaval: Moraes Moreira - Jornal CORREIO | Notícias e ...

“Eu sou um cantor do Brasil/que canta em cima do trio/jogando através do fio/uma energia pra massa”. (Cantor do Trio)

Moraes cantava, e uma multidão o seguia na pipoca. Para os baianos, Moraes Moreira é muito, muito mais do que o cantor/compositor que integrava os Novos Baianos, responsável por uma revolução musical na década de 70: Moraes Moreira é o rei do trio, que inspirou os cantores de trio que estão aí desde sempre, o cantor que tem uma série de canções maravilhosas que celebram a alegria, o prazer que é estar na rua pulando ao som de música de carnaval.

“Lá vem o trio/na contramão/um caminhão de alegria/ pelas ruas da Bahia/da Bahia de São Salvador”(Ligação, de Osmar e Moraes Moreira)

Moraes Moreira lança box "Anos 70" em alusão aos 40 anos de ...

 

Quando Moraes Moreira desfilava sua coleção de músicas de Carnaval, como Pessoal do Aló, Chame Gente, Ligação, Assim pintou Moçambique, Festa do Interior, o público que acompanhava o trio estava numa verdadeira catarse, pulando muito, cantando a todos os pulmões as músicas de carnaval compostas e que compunham os verdadeiros hinos do Carnaval nas décadas de 70 e 80, quando a voz de Moraes Moreira, aliado à inigualável guitarra baiana de Armandinho reinventaram o frevo pernambucano com um toque baiano, como bem dizia a famosa música Vassourinha Elétrica.

 

Moraes conta sua incursão no trio elétrico no seu livro “A história dos Novos Baianos e outros versos”

“Em 1975 resolvi botar meu bloco na rua

Iniciando a carreira solo, grande parte das novas composições tinham como tema o carnaval.

Logo no primeiro disco, tive a felicidade de contar com Armandinho, genial instrumentista que, já naquela altura, era a grande estrela do trio elétrico. Comecei no ato a frequentar a escola Dodô e Osmar, ou seja, a escola dos criadores do trio, porque não dizer, do carnaval da Bahia”.

 

SONHOS ELETRICOS - Moraes Moreira: Livro

O certo é que Moraes se reinventou muitas vezes. Formava uma parceria de composição com Galvão nos Novos Baianos, e teve inúmeras parcerias das mais variadas; de fausto Nilo a Marisa Monte; de Paulo Leminski a Antônio Cícero; de Evandro Mesquita a seu filho Davi.

Mas se Dodô e Osmar são os pais do trio elétrico, Moraes é o primogênito. Foi quem ensinou uma geração o que era ser cantor de trio. Contou isso no seu livro sonhos elétricos:

Modéstia à parte, eu cantei em cima do trio elétrico quando ninguém o fazia e criei um repertório de sucesso de músicas que continuam até hoje no coração e na alma do povo baiano e, por que não dizer, brasileiro. Então, realmente se criou uma escola de cantores a partir desse momento em que foi viabilizada a voz em cima do Trio Elétrico Dodô & Osmar. Praticamente fui adotado por eles”. 

 

Tudo o que se pode dizer, depois do último carnaval de Moraes Moreira, é fazer referência a uma música que ele compôs inspirada no fim do Carnaval, na Quarta-Feira de Cinzas, no encontro de Trios, na praça Castro Alves. Quando o carnaval termina, as pessoas cantavam. “Por que parou? Parou por que?”

Virou um grande sucesso no Carnaval de 1988.

E hoje, Moraes, seus fãs perguntam: “Por que parou? Parou por que?”

Vai deixar muitas saudades…

 

 

 

 

Norte da saudade – Quando Gil compôs um Xote-reggae na estrada…

 

“Norte da saudade” é uma parceria de Gilberto Gil com Perinho Santana e Moacyr Albuquerque, que logo na primeira frase, se revela como uma “road song”. O pé na estrada, sem noite passada, sem ninguém…

DISCO DE VINIL GILBERTO GIL – REFAVELA | Armazém Do Vinil - Loja ...

 

Gravada no Disco Refavela (1977), a canção sai um pouco da temática geral do disco, que é uma (re)descoberta de uma arte negra de comunidades que contribuíram para formação de novas etnias e novas culturas no novo mundo.

Ainda assim, é possível perceber esta música como uma espécie de conexão entre o disco anterior – Refazenda, em que há um resgate de elementos culturais do sertão e do interior – com a música negra, tanto que Gilberto Gil classifica esta canção como sendo um Xote-Reggae.

Livro: Nada Sera Como Antes Mpb nos Anos 70 - Ana Maria Bahiana ...

Em entrevista a Ana Maria Baiana, denominada  “A paz doméstica de Gilberto Gil”, e que consta do seu livro “Nada Será como Antes: MPB nos anos 70, Gil revela:

 “pra ser mais claro: nós estávamos andando pelo Norte, com um trabalho que era com a presença do Dominguinhos, eu, Moacyr Albuquerque, Perinho Santana e outros. Ao mesmo tempo que nós escutávamos muito Django Reinhart, Bob Marley, a gente vivia todo aquele clima musical do Norte e do Nordeste, de ser Refazenda, de ser lá no habitat básico da Refazenda, de ser Campina Grande, Mossoró, Natal, João Pessoa, ser tudo aquilo e ao mesmo tempo estar discutindo sobre reggae, sobre a emergência de movimentos   musicais na América, o punk, e a salsa e o reggae….”

“Então a música foi feita por Moacye e Perinho muito neste sentido, como é que era fazer um xote, uma música que fosse o som daquelas estradas que a gente estava rodando e ao mesmo tempo fosse a soma de todas estas experiências musicais vividas”

Gilberto Gil - Refavela Lyrics and Tracklist | Genius

Fica evidente o clima musical que contagia músicos fazendo uma excursão.

Em primeiro lugar, dá para imaginar o ônibus com os músicos se deslocando de cidade a cidade no Nordeste;

Depois, a saudade de casa, do amor, do “meu bem”;

Por fim, como o próprio Gil relata, a integração de elementos musicais da vivência atual dos músicos (reggae) com a paisagem específica dos locais (xote).

 

Fé na Festa – Wikipédia, a enciclopédia livre

Todo este clima fez nascer Norte da Saudade, que é uma das músicas do álbum mais presente nos dias atuais. A sonoridade, a temática, o clima, faz “Norte da Saudade” ser uma bela música, revisitada posteriormente pelo próprio Gil em 2010, no disco “Fé na Festa”, já com uma pegada de xote mais explícita.

 

 

 

 

 

Solidão que nada (feita depois de um beijo no aeroporto….)

 

Eu me divirto com a história de canções que surgem a partir de pequenos acontecimentos dos dia; músicas que viram verdadeiras limonadas a partir de um limão, isto é, um fragmento da criatividade que faz o caminho surgir a partir de pequenas coisas. Neste caso, me refiro à música “Solidão, que nada”, uma música de George Israel que recebeu letra de Cazuza e Nilo Roméro, o “inspirador” da canção. O baixista Nilo Romero contou a história da música, no livro Cazuza – Preciso dizer que te amo: todas as letras do poeta (Globo, 2001), que surgiu depois de um beijo de despedida num aeroporto…

“O meu nome no alto-falante do aeroporto interrompeu o beijo. Senhor Nilo Romero, voo 427 para o Rio de janeiro, embarque imediato! Tchau, a gente se vê. Ah! E o telefone? Tem um papel? tenho. Cadê a caneta? Então tá. Saio correndo, subo as escadas e, finalmente, entro no avião. Me deparo então com todos os passageiros olhando para mim com aquela cara de reprovação. Caí na real.

Procuro então com meu olhar os companheiros de banda, em busca de alguma cumplicidade. Estava atrasado, mas, afinal era por uma boa causa! Não adiantou. Estava todo mundo puto., a fim de ir logo embora pra casa. Tudo bem, então vamos sentar. Mas cadê o meu lugar? Só tinha um lugarzinho no meio, e quem me conhece sabe que odeio viajar no meio. Sou meio claustrofóbico e gosto mesmo é de corredor.

Sentado num das poltronas de corredor, observando tudo, estava Cazuza, uma das únicas pessoas de bom humor naquele avião. Ele sabia que eu detestava a poltrona do meio. ‘Nilo Romero’ (ele tinha a mania de chamar as pessoas pelo nome e sobrenome). Trocamos. Na passagem, eu deixo cair um papel do bolso. Cazuza pega, olha, me sacaneia e pronto. Ele iria chegar em casa e fazer uma de suas maravilhosas letras. Desta vez seria uma road song. Uma homenagem à vida na estrada, com todo seu glamour e vazio.

 

Resultado de imagem para cazuza e nilo romeroCazuza e Nilo Romero em 1987

Cada aeroporto
É um nome num papel
Um novo rosto
Atrás do mesmo véu


Alguém me espera
E adivinha no céu
Que meu novo nome é
Um estranho que me quer

E eu quero tudo
No próximo hotel
Por mar, por terra
Ou via Embratel

Ela é um satélite
E só quer me amar
Mas não há promessas, não
É só um novo lugar

Viver é bom
Nas curvas da estrada
Solidão, que nada
Viver é bom
Partida e chegada
Solidão, que nada 

 

A música faz referência a um encontro numa viagem, uma história que termina no aeroporto. A referência ao nome no papel, numa época em que não havia celulares para se anotar números.  O nome escrito no papel é uma esperança de que o que aconteceu na viagem não cabe ali.  São os encontros e desencontros que se tem em cada aeroporto, em cada hotel, em cada viagem… esses amores que são deliciosos porque são fugidios, mas que também se tornam enfadonhos quando são repetitivos…

Estes são os amores fugazes da vida da estrada… o novo nome no aeroporto, o rosto novo, o véu antigo… uma pessoa estranha, um amor de retas perpendiculares, que se encontram num ponto da viagem, e depois se afastam para não mais se encontrar… e o refrão final é meio irônico… “Solidão, que nada… ” ou, quem sabe, solidão.