Gestos de amor romântico podem ser grandiosos ou singelos. Há quem goste daqueles gestos exagerados, superlativos, ou há quem goste de algo mais simples, mas com um significado simbólico mais particular.
A história que vou contar aqui mais se adequa ao segundo caso. No Livro “Adoniran: dá licença de contar”, Ayrton Mugnaini jr. conta que o grande amor da vida de Adoniran Barbosa, talvez o maior representante do samba paulistano, foi sua segunda mulher Mathilde de Lutiss.
Assim, Adoniran pegou a corda “mi” do cavaquinho (uma curiosidade, as cordas do cavaquinho são 4 – ré/si/sol/ré. Logo, não existe a corda “mi”) e fez uma aliança e ofereceu para Mathilde, em 1942.
Assim, tendo por mote esta oferta, Adoniran pôs a letra na melodia do maestro Hervé Cordovil, mineiro de Viçosa, que então trabalhava com Adoniran na Rádio Record.
O Eu-lírico conta a história de alguém que tira uma corda de um cavaquinho e forja uma aliança, como prova de amor. A canção reflete uma situação típica de meados do século passado, quando havia um conflito entre o casamento e a boemia. Na canção, são relatados os sacrifícios feitos por ter escolhido a aliança (a mulher amada) em detrimento da boemia (as serenatas que se deixou de fazer pela corda ausente no instrumento).
Assim, na canção, o sujeito tira a corda do cavaquinho como prova de amor.
No texto disco póstumo de Adoniran, denominado o sambista – ‘Documento Inédito’ -, Mathilde relatou : “Ele fez a aliança com a corda do cavaquinho, e eu tenho essa aliança até hoje, que é verdade, ele fez uma aliança pra mim com a corda do cavaquinho”.Ima
A aliança foi divulgada pela filha do compositor, Maria Helena Rubinato, e faz parte do acervo de Adoniran Barbosa…..
Com a corda mi
Do meu cavaquinho
Fiz uma aliança pra ela
Prova de carinho
Quanta serenata
Eu tenho que perder
Pois meu cavaquinho
Já não pode mais gemer
Quanto sacrifício
Eu tive que fazer
Para dar a prova pra ela
Do meu bem querer
Ninguém nega a importância de Ruy Barbosa, como grande jurista, advogado, escritor e político. Mas ele também tinha suas quizilas e preconceitos. Um deles se refere ao episódio chamado “Escândalo do Corta-Jaca”, em 1914, quando foram revelados alguns dos seus preconceitos musicais, tudo isso motivado por Nair de Teffé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, o qual derrotara Ruy Barbosa na eleição de 1910.
Nair de Teffé, caricaturista e tida como “moderninha”, casou-se com Hermes da Fonseca em 1913, após ele ficar viúvo em 1912 de sua primeira esposa, Orsina da Fonseca.
Nair, de uma família aristocrática (era filha do Barão de Teffé, sobrinha de Jorge João Dodsworth, Baão de Javari e Neta do Conde von Hoonholtz, era caricaturista, tendo estudado em Paris e Nice, na França, onde passou a infância e adolescência.
Tendo regressado ao Brasil com 19 anos, entre 1905-6, Nair volta ao Brasil influenciada pela Bella Époque, cheia de ideias na cabeça e inspirada nos cartunistas europeus. Assim, começa a desenhar caricaturas para várias revistas como O Malho e a Fon-Fon e os periódicos O Binóculo e A Careta.
No começo ela assinava como o pseudônimo Rian (seu nome ao contrário). Ela foi responsável, entre outras coisas, por lançar a moda de calças compridas para mulheres e montar a cavalos “como homens” (antes, as mulheres montavam a cavalos sentadas de lado.
Entusiasta da Música popular, promovia saraus no Palácio do Catete (então palácio presidencial), sendo entusiasta da música brasileira e amigo de Catulo da Paixão Cearense (músico, poeta e compositor que, apesar do nome, é de São Luiz do Maranhão).
Nair de Teffé um dia ouviu de Catulo que nas festas palacianas nunca se executava música nacional. Intrigada, ela resolveu consultar Emilio Pereira, seu ex-professor de violão, no momento morando em Petrópolis. Foi ele quem lhe apresentou o tango Corta-Jaca de Chiquinha Gonzaga.
O Corta-jaca é o nome popular pelo qual se tornou conhecido a canção “Gaúcho”. Nasceu nos palcos dos teatros musicados, onde foi dançado na cena final da opereta burlesca Zizinha Maxixe, imitada do francês por autor anônimo, representada no Teatro Éden Lavradio, em agosto de 1895.
Em 1914, era uma música conhecida nas ruas do Rio de Janeiro…
Na noite de 26 de outubro de 1914, houve um desses saraus, nos quais foram apresentados números musicais de música erudita, tendo na programação músicas de compositores como Arthur Napoleão, Gottschalk, e Franz Liszt,
Ao final do sarau, Nair pegou o violão (instrumento que então era considerado “menor”, associado à malandragem) e executou o Corta-Jaca, acompanhado de Catulo ….
Pela primeira vez na história do Brasil a música eminentemente popular fora executada na sede do governo, diante do corpo diplomático
O fato gerou muito disse-me-disse, havendo muitas críticas nos jornais e nos meios acadêmicos, pois havia quem considerasse inadequado música popular no Palácio do Catete, sede da Presidência da República.
.
O que aconteceu naquela noite de 26 de outubro de 1914 vem relatado e documentado no jornal A Ruado dia 6 de novembro às vésperas da transmissão do cargo de presidente de Hermes da Fonseca para Venceslau Brás, que ocorreria no dia 15 de novembro.
“Nos salões do palácio do Catete houve no dia 26 do mês passado, uma ‘soirée’ muita fina a que compareceram os representantes do nosso corpo diplomático e da ‘elite’ carioca. Na ‘soirée’, que era a última recepção dada pelo sr. presidente da República, ‘fez-se música’, como costumam dizer os cronistas mundanos.
“‘Fez-se música’ e em grande escala. Houve piano, bandurra e até violão…
“Ao som deste último instrumento tocou-se a festejada e dengosa produção da maestrina Francisca Gonzaga — ‘Corta-Jaca’. Os jornais desde esse dia não têm cessado de criticar, de muitos e diferentes modos, a inclusão do tango magnífico no programa de uma festa diplomática no Catete.
“O ‘Corta-Jaca’ andou tanto tempo pelos arraiais da pândega e da populaça que se desmoralizou por completo, tornando-se indigno do Palácio das Águias… por muito que as produções de D. Chiquinha Gonzaga sejam tidas como a essência da música genuinamente indígena.
“E tão mal estão a considerar o pobre tango que muita gente acredita ser toda essa crítica uma simples intriga de oposição.
“O ‘Corta-Jaca’ no Catete?
“Pode lá ser isso, dizia ontem no Senado o velho Sr. Glicério ao sr. Raimundo de Miranda.
“— Esses jornais são medonhos. Pois V. não viu a maneira por que está sendo atacado o Lalau… V. conhece o Lalau e sabe que ele é incapaz dessas coisas…
“Pois se tocou sim. Tocou-se ao violão o ‘Corta-Jaca’, no dia 26, no Catete. E querem provas? A melhor prova que podemos dar é a publicação do programa da festa. Vêde. Ele encima esta notícia.
“Esta, tenham paciência, não foi obra da oposição, não, foi obra e talvez a última dele…”
Em sessão do Senado Federal, Ruy Barbosa, como dito, opositor de Hermes, solta sua verve contra a atitude da polícia, que reprimia os estudantes das Faculdades de Direito, Engenharia e Medicina, os quais colavam inúmeros cartazes com caricaturas do presidente, ridicularizando o episódio. Vejam as críticas de Ruy:
“Por que, Sr. Presidente, quem é o culpado, se os jornais, as caricaturas e os moços acadêmicos aludem ao Corta-Jaca?
“Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao pais o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”(5. Diário do Congresso Nacional, 8/11/1914, p. 2789. Refere-se á 147ª sessão do Senado Federal, em 7 de novembro de 1914.)
Ou seja, o batuque, o cateretê e o samba eram, segundo Ruy, as mais vulgares manifestações populares, que deveriam ser afastadas das solenidades e eventos oficiais. De fato, ainda bem que Ruy Barbosa não se notabilizou por ser crítico musical…
Maria da Graça Costa Penna Burgos. Este é o nome de batismo de uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos. Gal Costa. Sempre tive curiosidade para saber a origens dos nomes artísticos de grandes ícones da Musica.
Neste caso, a história é contada por caetano , no seu livro Verdade Tropical, como Guilherme Araújo, empresário dos tropicalistas, acabou escolhendo o nome de Gal:
Uma discussão paradigmática desses conflitos sutis foi a que envolveu o nome artístico de Gal. Seu nome de batismo é Maria da Graça Costa Penna Burgos. Desde Salvador, escrevíamos Maria da Graça nos cartazes e nos programas dos shows do Vila Velha, e a chamávamos de Gracinha no dia-a-dia e, carinhosamente, de Grau. Havia e há milhares de Graus na Bahia: é o apelido carinhoso de todas as Marias das Graças ou da Graça de lá. Na verdade, no caso da nossa Gal, Maria das Graças era apenas o nome que constava na carteira de identidade e era usado como nome artístico; para todos os efeitos, seu nome era Gracinha: assim é que a apresentávamos a novos amigos. Na intimidade, no entanto, nós a chamávamos de Grau.
Guilherme achava Maria da Graça inviável como nome de cantora. Ele concordava que era belo e nobre, mas sugeria uma antiga intérprete de fados portugueses, não poderia servir para uma cantora moderna, muito menos – e aqui ele voltava a sorrir diabolicamente – para uma nova rainha do iê-iê-iê. Ele gostava de Gau. Nós também. Em primeiro lugar porque era seu nome real (isso era fundamental para nós), e depois porque era bonito e fácil de aprender, além de ser marcante, uma vez que no Rio (e em São Paulo, pelo menos) esse não era um apelido comum como na Bahia.
Guilherme Araújo, Gal e Caetano
Mas havia dois problemas: Guilherme achava vulgar e “pobre” artista de nome único (para ele era indispensável um sobrenome se o nome não fosse composto, e mesmo os nomes compostos raramente eram aceitáveis: Maria Bethânia era, é claro, uma exceção genial); e Gau, escrito assim, com u, parecia-lhe pesado e pouco feminino. Como em quase todo o Brasil Gal e Gau tem pronuncia idêntica, achamos praticamente indiferente que a grafia fosse a escolhida por ele (que se referia a uma cantora francesa chamada Francis Gal como exemplo).
Restava a questão do sobrenome. Gal Penna? Gal Burgos? Guilherme, não sem razão, preferiu Gal Costa. Este era mais eufônico do que os outros dois. Ele não ousava sair dos nomes verdadeiros por saber de nossa intransigência quanto a isso. Mas eu não gostei. Eu achava que já tinha concedido o bastante em aceitar o l, que ele aceitasse o nome único: Gal, simplesmente, era a melhor solução. Mas ele insistiu no sobrenome e eu disse que Gal Costa parecia um nome inventado, parecia nome de produto, parecia nome de pasta de dentes e, finalmente, se Gau não era suficientemente feminino, Gal era abreviatura de general. Com a subida de general Costa e Silva ao poder, em substituição ao marechal Castelo Branco, Gal Costa passava a ser homônima do segundo presidente do período militar. Mas a própria Gal, de quem afinal devia ser a última palavra, aceitou o nome e ele funcionou muito bem com a imagem pop que se criou para ela.
Até hoje me irrita ouvir alguém comentar que Gal Costa é um nome criado e que o verdadeiro nome dela é Gracinha ou Maria da Graça, e só quem não a conhecia de perto é que pensa que seu nome íntimo era Gracinha – e, no entanto, esse nome Gal Costa teve sabor de coisa inventada para mim mais do que para qualquer outro.
Hoje, que todos a chamam simplesmente de Gal, fico inteiramente em paz com essa história: é seu nome, seu nome verdadeiro, e é um nome baiano, profundamente autêntico e revelador da cultura particular do recôncavo da Bahia e da Cidade do Salvador, além de ser bonito sonoramente e o modo mais carinhoso de se a chamar. É, como queria Guilherme, internacional e pop, mas é pessoal e regional até a ponta da raiz. É, um lance de poesia profunda, feito de acaso e equívocos, que serve como síntese do drama tropicalista.
Mas na altura, eu que hoje o amo mais que ninguém, fui quem mais reagiu contra esse nome. Lembro de comentar com Rogério a discussão e ouvir dele a declaração de que sempre estaria no extremo oposto de Guilherme, de quem se sabia fatal antípoda: E impossível que o que ele planeja seja o mesmo que eu planejo, pois ele é o empresário e eu sou o desempresário”.
Contudo, e apesar de falar com alguma ira na voz, ele se esforçava para me fazer entender que ele pensava mais numa dialética necessária ao processo, ou, melhor ainda, numa complementaridade, do que numa competição que implicasse inimizade reles. O mais bonito de tudo foi que Roberto Carlos e Erasmo Carlos, atendendo a um pedido de fazer uma canção para o primeiro disco tropicalista que ela gravou, apresentaram” Meu nome é Gal”, em que, sem nada saberem das exigências de Guilherme, insistem no apelido monossilábico e, num texto escrito para ser declamado por ela, frisam que “não precisa sobrenome, pois é o amor que faz o homem”.
Tunai se foi no dia 26 de janeiro de 2019. Aos 69 anos, deixou como maior sucesso a música “Frisson”, cuja história conto aqui.
“Você caiu do céu, um anjo lindo que apareceu….”
Essa frase talvez seja a mais marcante da música Frisson, uma música que celebra a chegada de um amor arrebatador, á primeira vista.
Mas quem seria a mulher que inspirou a canção? A letra é do Poeta Sérgio Natureza. Interessante é que algumas mulheres com quem ele se relacionou acharam que a música foi feita para elas. E aí, negar ou alimentar a ilusão? Sérgio conta o episódio, no Livro “Então, foi assim?”, de Ruy Godinho:
“Ainda há pouco, apareceu uma senhora americana. Senhora hoje, mas que eu namorei quando ela estava com 20 anos. Linda e loira. Hoje uma senhora bonita e casada. Mas ela apareceu e depois de muita timidez me disse, falando em inglês:
‘ – Aquela música você fez para mim, não foi?
‘ – É, foi. Com certeza. Como é que você adivinhou?
Não, porque não custa nada. Pra bem da verdade a música foi feita um pouco pra cada uma, senão, não faz sentido. Como ela alcança todo mundo, as pessoas se veem na música. Algumas se acham as próprias musas, outras não. .
Mas quem é a verdadeira musa? Sérgio conta a história:
“Tinha um lugar aqui no Rio chamado Beco da Pimenta. Era um sobrado na rua Real Grandeza, no Botafogo. E havia shows. Um desses foi do cantor e compositor Moacyr Luz, que eu conheço há duzentos anos. Ele estava tocando e de repente começou a fazer sinais com a cabeça. .
“Ele insistiu. Eu olhei pro lado e vi uma mulher linda, um tipo totalmente diferente, parecia uma camponesa do leste europeu, com um pano na cabeça. E eu que sempre fui extremamente recatado, tímido mesmo – eu nunca fui de atacar – nesse dia não me contive. A entrada para os toaletes era comum e depois bifurcava. E era bastante ampla. Aí eu me tomei de sem-vergonhice e decidi: “Eu vou atrás dessa mulher”. Tomei coragem e fui. Quando eu a vi não conseguia falar. Ela era linda, parecia uma coisa onírica mesmo. Isso não existe. Ela me olhou e disse:
‘ – Oi’!
‘ – Oi’!
‘ – Me desculpe eu estar olhando pra você assim. Você é linda’.
‘ – Obrigada’.
‘ – Você não existe’.
‘ – Não, não sou nada disso que você está falando’.
‘ – Você realmente caiu do céu. Você é um anjo’.
‘ – Que nada. Obrigada’.
‘ – O que é que você faz’?
‘ – Eu, sou modelo fotográfico’.
‘ – Olha, eu estou assim com falta de ar’.
‘ – Que nada’.
‘ – Você deve estar com alguém’…
‘ – Não. Eu estava com uma amiga, mas ela já foi’.
‘ – Depois a gente conversa’.
Era a modelo Isabel, conhecida como Bebel. “Na verdade, partiu disso. Depois eu a encontrei, a namorei, mas eu sempre fiquei um pouco distante, porque eu achava que era meio uma criação da minha cabeça. Ela era muito linda. Uma pessoa adorável, doce. E depois, não era só a beleza. Era a simplicidade. E a vestimenta era uma coisa meio oriental. Ela estava com uma roupa que me pirou. Eu acho que é porque ela desfilava, fazia fotografias.
E a música?
“O Tunai me mostrou uma música que ele já tinha, chegou assim em cima do laço. E a letra partiu de ‘você caiu do céu, um anjo lindo que apareceu’ e foi embora. Ela era bonita e eu acho que a música passava a leveza que eu queria dizer. .
Mais tarde, Tunai acabou conhecendo a beldade. “Ele a conheceu anos depois, por uma circunstância de vida, acho que na praia e falou pra mim. Ela se apresentou: “Eu sou a Bebel. Você que é o Tunai? O Sergio fez aquela música pra mim’. Tunai confirmou que fez a música comigo”, conta Sergio.
Frisson foi gravada por Tunai no CD Em Cartaz (1984). Ivete Sangalo e grupo Ketama ( Espanha) a regravaram em português e espanhol, no CD Eu e Você (Banda Eva).
A letra:
Meu coração pulou
Você chegou, me deixou assim
Com os pés fora do chão
Pensei: que bom…
Parece, enfim acordei
Pra renovar meu ser
Faltava mesmo chegar você
Assim sem me avisar
Pra acelerar…
Um coração que já bate pouco
De tanto procurar por outro
Anda cansado
Mas quando você está do lado
Fica louco de satisfação
Solidão nunca mais
Você caiu do céu
Um anjo lindo que apareceu
Com olhos de cristal
Me enfeitiçou
Eu nunca vi nada igual
De repente…
Você surgiu na minha frente
Luz cintilante
Estrela em forma de gente
Invasora do planeta amor
Você me conquistou
Me olha, me toca, me faz sentir
Que é hora, agora, da gente ir
Como Reconvexo, um dos mais belos sambas de Caetano, foi uma espécie de resposta a Paulo Francis, que costumeiramente criticava Caetano em suas crônicas. O ápice do azedume veio quando Caetano, convidado pela extinta TV Manchete, entrevistou Mick Jagger. Paulo Francis não gostou da entrevista e escreveu o artigo “Caetano, pajé doce e maltrapilho“, na Folha de São Paulo do dia 25 de junho de 1983. Eis a crônica:
PAULO FRANCIS,de Nova York
Se a intelectualidade oficial no Brasil é representada por bacharéis como Roberto Campos, e é, não é difícil entender por que a juventude se rende a alguém como Caetano Veloso. Tudo é preferível ao pedantismo, à auto-satisfação mascarada de bonomia e humor, à cara selvagem de Campos. Crianças, como animais, sabemos “sentem” os bichos ainda que não saibam o que pretendem.
Caetano, claro é um compositor de talento, ainda que não crie músicas que sobrevivam sem ele, como Tom Jobim e Chico Buarque fazem. E é na minha opinião um cantor que sabe como ninguém unir e valorizar ritmos brasileiros e os subprodutos populares que vieram do “jazz cool” e do “bebop”, esses dois marcos da história da música popular.
Quando não o vejo, gosto. E até vendo no palco, nos tempos pós-golpe de 1964-1968, era uma presença poderosa, naquela minirrenascença que foi a reação das chamadas classes artísticas ao advento do urubu Campos e outros tecnocratas pela mão militar. Nada saiu que perdurasse dessa “mini”, talvez porque o Brasil seja um país de “máxis”. Mas a “mini” foi “legal”. Quem viveu, sabe. Mas Caetano não era então um totem. Não falava de tudo com autoridade imediatamente consagrada pela imprensa, que é mais deslumbrada do que o público em face dele. É evidente, por exemplo, que Mick Jagger zombou várias vezes de Caetano na entrevista na TV Manchete. O pior momento foi aquele em que Caetano disse que Jagger era tolerante e Jagger disse que era tolerante com latino-americanos (sic), uma humilhação docemente engolida pelo nosso representante no vídeo. E não só ele. Li duas matérias, uma na “Folha” e outra no “Jornal do Brasil”, em que as duas repórteres prostradas como sempre ficam diante de Caetano, citaram essa resposta ofensiva sem acharem nada de mais. O totem não pode errar. É Deus na carne humana, Daí a origem tribal de Jesus Cristo.
O primeiro totem foi Frank Sinatra. Não quero dizer que antes dele (década de 1940) não houvessem cantores, sem falar de estrelas de Hollywood, que o público jovem não adorasse. Mas Sinatra literalmente iniciou o fenômeno de adolescentes tendo ataques de histeria em público, para horror do filósofo Theodor Adorno, exilado nos EUA, que viu nisso uma forma de totalitarismo cultural, em que a massa se submerge sensorialmente a um ruidoso cavalheiro de microfone, como alemães caíram sob a “hipnose” de Hitler. E Adorno só pegou o início da histeria dos anos 60. John Lennon, filósofo, eros encarnado, Paul McCartney, escritor, o rock como filosofia de vida, etc. O pobre Caetano não é bem dessa corrente (que deverá chegar ao Brasil pelos meus cálculos em 1990).
Na mesma entrevista, ele fez uma pergunta que deve ter dado ao amável e brilhante Roberto D’Ávila vontade contida de matá-lo. É aquela de “como você situa o rock na história da música ?”. D’Ávila e companheiros (Fernando Barbosa Lima e Walter Moreira Salles Jr.) afinal idealizaram a entrevista, um grande evento jornalístico em TV. Caetano é uma atração. Ninguém resistiria incluí-lo. Mas essa pergunta simplesmente não se faz em televisão, ou até em jornal. É de um amadorismo total. Só serve para seminários de “comunicação” no interior da Bahia. Não é uma pergunta jornalística. Jagger começou a debochar aí. Estava delicado com a figura década de 1960 de Caetano. A moda agora é a de Jagger, cabelo curto e roupa simples, sem adornos. Começou aqui e na Europa em 1970. No Brasil chegará também nos 1990 ? E foi nesse charme perverso que Jagger, que lê tudo, não disse a Caetano que rock não é música (ver obras completas de Ellen Willis, entrevistas com Janis Joplin, etc.), mas uma manifestação de vida, ou, clichê abominável, de estilo de vida. Willis sempre se refere desdenhosamente aos “music boys”. Uma leitura ocasional como a minha é do “Rolling Stone” deixaria claro. Mas no Brasil é difícil… Sabemos tudo.
Caetano é melhor compositor e cantor do que Jagger. Mas não fez nada comparável a “The Citadel”, cuja letra terrível foi adotada pelos soldados americanos no Vietnã, como hino de desespero. E por que não pode ? Quando me lembro que Caetano, esse doce de coco é conterrâneo de Antonio Conselheiro, tremo, tremeria, se ainda conseguisse. Mas ele prefere fazer o que chamei outro dia de “maltrapilho estilizado”. Simbolizar a miséria raquítica do baiano e interiorano brasileiro, para efeito de mero consumo visual, enquanto muito agradavelmente acaricia as fantasias de amor ilimitado que fazem o narcisismo da classe média confortável no Brasil, um conforto porque pagam cerca de 100 milhões de brasileiros no nosso “Alagados” nacional. Não é que eu queira que ele faça música “enganjada”. A poesia nada faz acontecer, notou Auden, e concordo, sempre concordei, me forçando muito na época do meu engajamento, é bem diferente do que adular os privilegiados.
Jagger, é claro, é um farsante. Aquele sotaque de Londres (e não “cockney”, que é outra coisa) é pose, pois Jagger é de classe média e estudou na London School of Economics, onde se falasse assim seria rudemente corrigido. É uma pose, uma imitação de trash dos Beatles, estes sim, autenticamente proletários. Mas está zombando quando diz que subiu por sorte. Ninguém sobe por sorte. Não dá para escrever neste jornal de família como se sobe no mundo do “rock”. Jagger tem pelo menos 150 milhões de dólares, segundo meus banqueiros, mas fala de “algum dinheirinho”. Essa grana aplicada legalmente dá 1,5 milhão de dólares por mês, depois dos impostos, ou no “negro”, 1 bilhão e 200 milhões de cruzeiros por mês
Caetano não gostou. Em entrevistas, chamou Paulo Francis de “Bicha amarga”. No seu blog, pode-se encontrar uma resposta inteligente à crítica de Paulo Francis…
Incrível. Como é que o Paulo Francis escreveu que Mick Jagger tinha me respondido que era tolerante com latino-americanos — e ainda pôs um “sic”? Perguntei a Mick de sua tolerância com jovens. Ele fez uma cara safada e respondeu que era tolerante, “especialmente na Colômbia”. Bem, a cara safada foi dirigida ao dono da casa, Julio Santo Domingo, um colombiano que, amigo de Walter Salles, tinha emprestado o apartamento nova-iorquino para a entrevista. Walter era o diretor. Mas quem me convidou para ajudar na conversa com Jagger foi Roberto D’Ávila. Sinceramente, pensei que a cara maliciosa de Mick sugeria sexo: Julio era muito bonito. Mas Waltinho me disse que não (claro): sugeria droga. Colômbia nos anos 1980, você sabe. Mas Francis precisava dizer que Jagger nos humilhara e que eu não tinha sido valente o suficiente para revidar o golpe: ele queria que o leitor aderisse ao rancor contra mim, e para isso apelava ao fácil nacionalismo ressentido. D’Ávila, comigo, chiou do que Francis escrevera e disse que ia responder de público. Nunca vi tal resposta.
Eu não guardei o artigo. Reli agora. Na altura, li a bordo de um avião a caminho da Europapara uma turnê longa. Mostrei a Guilherme Araújo. Rimos, protestamos, e eu, como sempre, tentei sem sucesso dormir no voo. Cheguei a Lisboa exausto e no dia seguinte já estava num palco. No fim da excursão o assunto já era algo remoto. De volta ao Brasil, percebi que não era tão remoto assim. Demonstrei minha indignação caracterizando Francis como bicha travada. Ele respondeu. Primeiro: que eu devia ser infeliz, pois usava como xingamento minha própria condição. Comentei, numa entrevista, que Francis não entendia nada de bicha. Depois: “Fiz uma crítica cultural a Caetano e ele responde com ofensas: puro Brasil.” E eu: Francis é quem me ofendeu, e eu fiz, em resposta, uma crítica cultural à figura dele: “bicha travada” era análise de tipo encontradiço em sua geração. Ele preferiu não entender que o núcleo pejorativo era “travada”, não “bicha”.
Li outros textos do livro antes desse. Queria sentir o artigo em meio ao que ele escrevia então. Escrevendo sobre mim ele me mostrou demais os defeitos de caráter que se podia notar em quase todo o resto. Por exemplo, ele descreve minha música como fusão ineditamente bem-sucedida de ritmos brasileiros com bebop e cool jazz. Numa frase, ele finge que conhece muito bem o que desconhece. E termina sendo injusto com Tom Jobim. Ninguém fez melhor do que Jobim o que ele descreve. Em outro trecho, ele corrige Deus e o mundo que dizem que Mick imita sotaque cockney: seria sotaque londrino, cockney “é outra coisa”. Que outra coisa? Cockney é o dialeto popular de Londres. Por muito tempo significou simplesmente “de Londres”. Dizer que rock não é música era lugar-comum. Francis faz de conta que eu não sabia. Eu não era (e não estava ali) como jornalista. A certa altura ele afirma que sou melhor compositor do que Jagger, mas pergunta por que eu não fiz “Citadel”, cantada por soldados no Vietnã. A resposta simples seria: porque o Brasil não invadiu o Vietnã.
A força de dominação da cultura anglófona é assunto que pervade tudo. Ninguém mais esmagado por essa força do que o próprio Francis. Ficava no Rio sonhando que conversava no Algonquin. Fez esforço para desprovincianizar o ambiente cultural brasileiro. Tema também meu. Desde sempre. Mas eu não tive oportunidade de bater cabeça para ele. Simplesmente não calhou, no ritmo de sucessão de gerações, de termos um encontro amigável. Glauber, que o arrasou na Bahia, cooptou-o aqui. O Algoquinho carioca grilou com o surgimento de minha geração: Millôr contra Chico, “Pasquim” contra “baihunos”. Zé Agrippino, em 1968, achava Francis um atraso de vida. Seus esforços de aggiornamento me atingiram em Santo Amaro, em 1959, na revista “Senhor”. Devo muito a Francis.
Passou parte da juventude em Nova York: natural que visse em mim o tabaréu. Ele percebia que entendo mal o inglês falado. Algo da crítica seria utilizável. Até por mim. Mas o que há de bebop ou cool em “Tropicália”, “É proibido proibir” ou “Nine out of ten”? E ele me descreve talvez com imagens já então velhas da paródia de grupo que foi Doces Bárbaros. Depois da entrevista, Marina Schiano fez um jantar para mim, com Mick, Bianca, Jerry Hall, Warhol. Este me perguntou se eu não o queria para fazer a capa do meu novo disco. Era “Uns”. Respondi que já tinha capa (de Oscar Ramos), em que apareço de cabelo curto e terno. Mick Jagger nunca teve cabelo curto. O fato de ele ser inglês encandeia Francis. Jovens paulistanos com veleidades de gênios da crítica o seguiriam como cães alemães.
No artigo sobre mim ele está dando adeus às agressões a Roberto Campos e acenando pela última vez para quem chora com frases como “adular os privilegiados”. Dois anos depois ele saudava Campos como um guerreiro. Um pouco mais e ele louvava Collor por ser “bonito e branco”.
Mas o retrato de Jango, as análises que juntam Schumpeter e Lenin, a ligeireza com que narra as conversas de Golbery com Ênio Silveira, toda essa competência periodística compensa o desconforto da prosa de seus romances, embora não dê para justificar as tiradas racistas. Sou vítima de uma delas. Ele escreveu que o Rio começou a decair quando Bethânia substituiu Nara no Opinião e, com ela, “veio essa gente”.
Tropicalistas são referência. Francis não emplacou nem uma frase no “NYT”.
Terminando a saga sobre a histórica briga entre Paulo Francis e Caetano Veloso, segue aqui uma reportagem de Ruy Castro sobre o assunto. Durante a polêmica, Ruy Castro escreveu a reportagem que segue abaixo, com histórias divertidas.
QUEM FAZ MAIS A SUA CABEÇA: PAULO FRANCIS OU CAETANO VELOSO
Por RUY CASTRO
8 de outubro de 1983 – Ilustrada Com colaboração de Âmbar de Barros
É a polêmica do século. Ou a deste fim de semana – por aí. A cidade está acompanhando, entre perplexa e apaixonada, a briga entre o jornalista Paulo Francis, correspondente da Folha em Nova York, e o cantor e compositor Caetano Veloso, pelas páginas deste caderno. Há algumas semanas, Paulo Francis criticou a entrevista que Caetano realizou com Mick Jagger no programa “Conexão Internacional”, da TV Manchete, classificando de reverente e submissa a postura de Caetano diante do complacente líder dos Stones.
Caetano não gostou e, numa entrevista coletiva nesta terça-feira, rompeu publicamente com Francis, a quem sempre admirou, chamando-o de “bicha amarga” e “boneca travada”. A resposta de Paulo Francis foi publicada na edição de quinta, em que ele devolve a Caetano os epítetos e lamenta que um argumento cultural seja respondido com insultos.
Tsk, tsk. Mas a briga existe e não se fala em outra coisa. Espera-se que ela sirva pelo menos como base de discussão sobre o conceito do intelectual no Brasil, a liberdade de expressão e a maior ou menor qualidade da nossa atual produção artística. Afinal, ambos têm mais do que cacife para isso.
São pessoas corajosas, inteligentes e talentosas. E estão entre os intelectuais e artistas que mais fizeram cabeças neste país nos últimos 20 anos. Quem faz mais a sua cabeça: Paulo Francis ou Caetano Veloso? Esta foi a pergunta que a Folha fez a várias pessoas influentes. Eis as respostas. (E, ah sim, antes que eu me esqueça: nenhum dos dois é bicha.)
AUGUSTO DE CAMPOS, poeta e tradutor: “Não tem dúvida: sou 100% Caetano”.
JÚLIO MEDAGLIA, maestro e um dos inventores do tropicalismo: “Neste momento, Paulo Francis é mais criativo. Ultimamente, Caetano só tem feito boleros”.
DÉCIO PIGNATARI, poeta e professor de literatura: “Os dois fazem igualmente a minha cabeça. Paulo Francis é um homem claramente ideológico e às vezes incursiona no terreno artístico. Caetano é o contrário”.
MINO CARTA, jornalista e editor da revista Senhor: “Com respeito por ambos, nem um nem outro”.
GILBERTO BRAGA, autor de novela “Louco Amor”: “Pela emoção, Caetano. Pela razão, Paulo Francis. Mas, pelo que andam dizendo um do outro, eu poria os dois de castigo durante uma hora”.
CARLOS BRICKMAN, jornalista, editor de economia da Folha: “Entre os dois, graças a Deus fico com Millôr Fernandes”.
HENFIL, cartunista: “Paulo Francis. Pela sabedoria, pelo compromisso com as outras pessoas e pelo seu orgulho de ter sido preso por suas idéias, enquanto Caetano se envergonha disso. Caetano diz que não lê jornais, mas é capaz de citar o dia e a página de qualquer jornal que tenha falado dele, mesmo que seja a ‘Gazeta de Nanuque’. E eu gosto mais da música do Francis”.
BELISA RIBEIRO, apresentadora do programa “Canal Livre”: “Caetano. Porque, por ele, dá para a gente se apaixonar”.
ZÓZIMO BARROZO DO AMARAL, colunista: “Paulo Francis. Eu faço parte da macaquice do auditório dele”.
FÁBIO MAGALHÃES, secretário da Cultura municipal: “Nenhum dos dois”.
JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI, filósofo e professor: “Os dois não fazem nem o meu pé, quanto mais a minha cabeça”.
CARLITO MAIA, publicitário: “Quem faz a minha cabeça é o Goulart, que me corta o cabelo”.
FLÁVIO GIKOVATE, psicanalista: “Caetano Veloso. Sem comentários”.
JOÃO CÂNDIDO GALVÃO, jornalista, editor-assistente de Veja: “Paulo Francis, porque é mais paradoxal. Caetano anda muito óbvio”.
SÓCRATES, jogador do Corinthians e da Seleção: “Admiro os dois como profissionais destacados em suas respectivas áreas, mas nenhum deles faz a minha cabeça. Aprecio informações do Paulo Francis, gosto de muitas músicas do Caetano, mas nenhum deles influi na minha maneira de pensar ou agir”.
CASAGRANDE, centroavante do Corinthians: “Caetano Veloso. É um poeta. Gosto também do comportamento dele, que é agressivo com a sociedade. Aliás, como o meu”.
MARÍLIA GABRIELA, apresentadora do programa “TV Mulher”: “Quando eu quero poesia, prefiro Caetano. Quando quero bom jornalismo, prefiro Paulo Francis”.
JOÃO DÓRIA JR., presidente da Paulistur: “Nenhum dos dois. Mas eu prefiro a doçura musical do Caetano à acidez redacional do Paulo Francis”.
ANGELI, cartunista: “Eu misturo os dois. Pego o lado doce do Paulo Francis e o ferino do Caetano”.
GERALDO MAYRINK, jornalista, editor-assistente de IstoÉ: “Paulo Francis – porque, pelo menos, nunca pediu a minha cabeça, como fez o outro. Além disso, Francis se tornou um dos maiores entertainers do nosso show business”.
EDUARDO MASCARENHAS, psicanalista: “Caetano, claro, porque tem mais humor, talento e arte que o sr. Paulo Francis. Caetano já me faz a cabeça há 15 anos. Já o sr. Paulo Francis, no que respeita a subjetividade, é extremamente primário. Mas eu não sei como andam os interiores do sr. Paulo Francis”.
WASHINGTON OLIVETTO, publicitário: “Que país mais chato este, em que os inteligentes brigam e os burros andam de mãos dadas!”.
ANTONIO MASCHIO, ator e proprietário do Spazio Pirandello: “Paulo Francis, sem dúvida. É um homem do mundo. Caetano, quando muito, é um homem do Brasil. Se todas as bichas do Brasil fossem ‘travadas’ como o Paulo Francis, este país estaria muito melhor”.
CLODOVIL, costureiro: “Eu, hein? Nesse angu, eu não me meto!”.
APARÍCIO BASÍLIO DA SILVA, escultor e perfumista: “Paulo Francis. É um conselheiro literário formidável”.
PIETRO MARIA BARDI, diretor do Museu de Arte de São Paulo: “Na minha idéia, é Paulo Francis, hoje o maior, mais atual, mais vivo, mais inteligente e mais inventivo escritor brasileiro”.
TÃO GOMES PINTO, jornalista da Folha: “Caetano Veloso”.
CAIO TÚLIO COSTA, jornalista, secretário da Redação da Folha: “Entre a razão e a emoção, eu fico com Paulo Francis”.
MARTA SUPLICY, sexóloga: “Eu gosto dos dois, mas nenhum faz a minha cabeça”.
TAVARES DE MIRANDA, colunista social da Folha: “Quem faz a minha cabeça é Jesus Cristo”.
RUBENS GERCHMAN, artista plástico: “Paulo Francis. Ele está há anos no centro da ação –sempre no front”.
JOSÉ GUILHERME MERQUIOR, diplomata, ensaísta e acadêmico: “Não gosto da expressão ‘fazer a cabeça’. Acho-a alienada. Quem faz as minhas idéias, com muita dificuldade, sou eu mesmo. Não tenho nada a considerar sobre esses dois personagens”.
THOMAZ FARKAS, produtor cinematográfico e empresário: “Os dois me fazem a cabeça, cada qual do seu jeito”.
HELENA SILVEIRA, jornalista e colunista da Folha: “Quem me faz a cabeça é Anthonio Carlos, meu cabeleireiro. Admiro Paulo Francis como colega, gosto de Caetano com restrições. Guru é coisa que já era”.
JOSÉ ROBERTO AGUILAR, artista plástico: “Caetano é meu amigo, moramos três anos juntos em Londres. Mas o Francis também é genial e seus livros são monumentais. O problema do Francis é que ele é de uma geração que só ouve jazz e música clássica, e passou a largo da geração do rock. Assim, fica reduzindo tudo a uma coisa de ‘lumpenproletariat’. Mas o rock não é só isso. O rock já tem sua literatura e sua cultura”.
CARLOS VOGT, lingüista e professor da Unicamp: “Gosto da música do Caetano e acho divertida a destemperança com que escreve Paulo Francis”.
JOSÉ MIGUEL WISNIK, professor de literatura: “Cada um de nós faz a sua própria cabeça, mas as sete faces do Caetano ressoam mais em mim do que a cabeça de papel do Paulo Francis”.
JULIO BRESSANE, cineasta: “Minha cabeça é feita pelos dois. A região que Caetano ocupa, que é a da poesia e onde habito, é a maior. Mas o Paulo Francis, que é hoje o maior articulista do Brasil, também ocupa uma região imprescindível. Inclusive já começamos a trabalhar juntos numa adaptação para o cinema do seu romance ‘Cabeça de Papel'”.
ZIRALDO, teatrólogo e humorista: “Sou Caetano. Mas não assumo”.
MILLÔR FERNANDES, pensador e humorista: “Olhem, não me meto em briga de baianos”.
A letra de Reconvexo, um belo samba de roda de Caetano Veloso gravado por Maria Bethania, revela um orgulho de ser brasileiro, de ser baiano, de ser de uma parte do mundo que é “out“, e que, pelo mesmo motivo, é “in“.
A canção estabelece uma dicotomia entre o “eu” – que é uma séria de referências baianas, brasileiras e universais – e o “você”, o careta, “que não que não e nem disse que não”. Assim a identidade do eu-lírico é construída pelos sons, pelas imagens, pelas referências, em contraposição àquilo que o “careta” não consegue perceber.
A música faz muitas referências baianas (a novena de dona Canô, a elegância sutil de Bobô, o Olodum balançando o Pelô), brasileiras (o mendigo Joãozinho/Beija Flor – em referência ao célebre enredo “ratos e urubus- larguem minha fantasia” de Joãozinho Trinta na Beija-Flor de 1989, a destemida Iara da Amazônia), e universais (A risada de Andy Warhol, o suingue do Francês da Guiana Henri Salvador, o americano negro com brinco de ouro na orelha).
Caetano e Paulo Francis vez ou outra protagonizavam polêmicas. Francis vivia em Nova Iorque e tinha um estilo sarcástico/irônico sobre o Brasil.
Então, ao reafirmar ao todo tempo o que é Recôncavo (fazendo referência à região da Bahia no entorno da Baía de Todos os Santos), e ao “careta” que sequer pode ser Reconvexo (um neologismo, como uma forma de dizer que ele sequer pode ser o outro lado, a antítese do que é o Recôncavo), a música faz uma homenagem a “Gita” de Raul Seixas (que viria a falecer naquele ano) e a “Fruta Gogóia”, canção folclórica gravada por Gal Costa no famoso disco “Fa-Tal: Gal a todo vapor”. A estrutura do “eu sou, eu sou eu sou” como se fosse uma lista tem inspiração em ambas as canções
Caetano, no livro “Sobre as letras”, organizado por Eucanaã Ferraz (Cia das Letras, 2003), explica a canção:
Compus para Bethania gravar. Eu estava em Roma quando um dia acordei e vi os carros empoeirados, todos cobertos de areia. Perguntei: ‘Gente, o que tem nesses carros aí?’. Uns italianos, amigos meus, responderam: ‘isso é areia que vem do deserto do Saara, que o vento traz’. Com essa imagem, comecei imediatamente a compor a música.
“A letra fala em Gita Gogóia, porque a letra de Gita diz ‘eu sou, eu sou, eu sou’… e porque a a canção ‘Fruta Gogóia’ também se estrutura do mesmo modo eu sou, eu sou, eu sou’.
A letra é meio contra o Paulo Francis, uma resposta àquele estilo de gente que queria desrespeitar o que era brasileiro, o que era baiano, a contracultura, a cultura pop, todo um conjunto de coisas que um certo charme jornalístico, tipo Tom Wolf, detestava e agredia.
Segue a letra e o belo samba de roda, que descarta quem “não é recôncavo e nem pode ser reconvexo”
eu sou a chuva que lança
areia do Saara
sobre os automóveis de Roma
sou a sereia que dança
destemida Iara, água e folha
da Amazônia
eu sou a sombra da voz
da matriarca da Roma negra
você não me pega
você nem chega a me ver
meu som te cega careta
quem é você?
que não sentiu o suingue
de Henri Salvador
que não seguiu olodum
balançando o pelô
e que não riu com a risada de
Andy Warhol
que não que não
e nem disse que não
sou um preto norte-americano
forte com um brinco de ouro na orelha
sou a flor da primeira música
a mais velha e a mais nova
espada e seu corte
sou o cheiro dos livros desesperado
sou Gita Gogóia
seu olho me olha
mas não me pode alcançar
não tenho escolha careta
vou descartar
quem não rezou a novena de
D. Canô
quem não seguiu o mendigo
Joãozinho Beija-flor
quem não amou a elegância sutil
de bobô
quem não é recôncavo e nem pode
ser reconvexo
Em 1955, Octávio Henrique de Oliveira, nascido em 1919 e falecido em fevereiro de 1983, foi apelidado de “Blecaute” ou também “General da Banda”, com´pôs uma das canções natalinas brasileiras mais conhecidas: “Natal das crianças”.
Blecaute era um compositor conhecido pelas canções carnavalescas, e também fazia parte das famosas chanchadas da Atlântida (estilo cinematográfico nacional em que há um humor ingênuo, popular.
Mas ele surpreendeu o público com uma canção singela que recebeu mais de 40 regravações. Uma letra simples, que celebra as crianças, e os símbolos natalinos, desde o nascimento de Jesus, a estrela guia, Papai Noel, as orações pela felicidade do mundo, em que um clima de bondade impera, em que todos são incluídos, até “Vóvó e Vovô”.
Há um contraste entre esta canção, alegre, ingênua, com a outra canção brasileira de Natal conhecida: “Boas Festas“, de Assis Valente, em que há uma crítica à seletividade do “Papai Noel”.
“Natal das Crianças” é uma valsa feliz, uma canção de alegria e inspiração que virou um clássico natalino
Natal, Natal das crianças
Natal da noite de luz
Natal da estrela-guia
Natal do Menino Jesus
Blim, blão, blim, blão,
blim, blão…
Bate o sino na matriz
Papai, mamãe rezando
Para o mundo ser feliz
Blim, blão, blim, blão,
blim, blão…
O Papai Noel chegou
Também trazendo presentes
Para Vovó e Vovô
Chico Buarque por diversas vezes já homenageou seu parceiro e amigo Tom Jobim. Apenas para citar, muitos conhecem a expressão “Maestro Soberano”, cunhada por ele no disco “Paratodos”. Chico disse, no documentário “Meu caro amigo”, que as várias composições deixadas por Jobim continuam sem letras. Chico diz que gostaria de fazê-las, mas sem as “implicâncias” de Tom Jobim não teria sentido.
Chico sempre falou brincando amistosamente desse jeito dele compor com Jobim, de estabelecer uma correspondência entre as sílabas e as notas, a prosódia musical e o sentido, e de como Jobim, músico exigente, discutia com ele sobre tais coisas.
Um dos episódios divertidos da parceria entre Chico Buarque e Tom Jobim (há muito a falar sobre isso, mas vou deixar para outras postagens), diz respeito à canção “Retrato em Branco e Preto”.
A melodia foi composta por Jobim em 1965, e se chamava Zíngaro (e foi com esse título que João Gilberto a gravou, em 1977, no disco Amoroso). Em 1968, a música foi para Chico colocar a letra. E aí Wagner Homem, no Livro Chico Buarque – História das canções (Ed. Leya, 2009), conta um pouco dessas “implicâncias” na composição da música.
Uma delas, quando o Quarteto em Cy foi gravar a canção, Chico Buarque teria decidido substituir a expressão “Trago o peito tão marcado” por “peito carregado”, sob o argumento de que o “tão” funcionou como uma muleta para completar as sílabas da canção. No entanto, Tom Jobim, que aceitara relutantemente a mudança, ligou para Chico pedindo a manutenção da versão original, porque a expressão “peito carregado” tinha a conotação de tosse. Ponto para Tom.
Mas o episódio mais engraçado da música foi sobre a expressão “
“vou colecionar mais um soneto
outro retrato em branco e preto
a maltratar meu coração”
Assim narrada por Wagner Homem:
“Em outra ocasião Tom teria dito a Chico que ninguém fala ‘retrato em branco e preto’ e que a expressão correta seria ‘retrato em preto e branco’. Ao que Chico teria respondido: ‘Então tá. Fica assim. ‘vou colecionar mais um tamanco/outro retrato em preto e branco’. Diante de uma tamancada tão convincente, Tom entregou os pontos.
E das implicâncias surgiu uma das mais belas músicas…
Lamartine Babo foi um dos principais compositores de marchinhas carnavalescas do Brasil. Bem-humorado e irreverente, tornou-se também conhecido por ser o compositor dos hinos dos clubes de futebol do Rio de Janeiro, inclusive o do América, seu clube de coração.
Lamartine nasceu em 1904, e morreu de infarto, em 1963. Ele Lamartine Babo nunca se casou. No entanto, celebrizou, na década de 30, uma curiosa história que acabou sendo imortalizada numa canção. Serra da Boa Esperança.
De acordo com Áurea Netto Pinto, no princípio da década de 1930, seu irmão, o dentista Carlos Alves Netto (chamado “Caro”, pelos amigos) colecionava fotos de celebridades do rádio. Para conseguir as fotos, “Caro” costumava escrever aos artistas no Rio, chegando, às vezes, a adotar um um pseudônimo feminino.
Uma das “vítimas” foi justamente Lamartine Babo, que estava no auge do prestígio, pela composição de marchinhas carnavalescas. Assim, Carlos Netto escreveu a Lamartine Babo, fazendo se passar por uma certa “Nair Oliveira Pimenta”, mineira de Dores da Boa Esperança, distrito do Município de Boa Esperança, em Minas Gerais (que fica a 450 km do Rio de Janeiro e 280 Km de Belo Horizonte)
Com o tempo, Lamartine e “Nair” passaram a se corresponder com mais frequência. Eles se comunicavam em verso e prosa, e Lamartine estava admirado com a inteligência da sua correspondente, enviou as fotos e mantiveram contato por cerca de um ano.
Certo dia, a “Nair” interrompeu as cartas, alegando que iria se casar com um primo e que “tudo não se passava de um sonho impossível”.
Assim, diante da notícia, Lamartine resolve, em 1937, ir a Boa Esperança para conhecer Nair e dissuadi-la do casamento com o primo.
Segundo Áurea, Lamartine, ao chegar na cidade, era “magro, feio e desdentado; porém, um sultão orgulhoso de seu harém”.
Procurou a jovem Nair,mas ninguém a conhecia. A única Nair da cidade era uma menina de 6 anos de idade. Decepcionado, não desistiu e continuou sua busca pela cidade, até que a verdade lhe fora revelada: “Nair” na verdade era o dentista Carlos Alves Netto, que era o efetivo remetente das cartas.
Sebastião Nunes conta como teria sido a chegada de Lamartine, recepcionado por Carlos Alves Neto, no Jornal GGN:
O sol estava alto quando Lalá desembarcou na estação de pouco movimento. Não conhecia ninguém, claro. Olhou para os lados. Viu, no meio da pracinha em frente, um sujeito de terno, gravata e chapéu, que parecia esperar por ele.
– Não tenho nada a perder – resmungou mais uma vez. – Já que estou aqui, vamos em frente. Aquele camarada deve conhecer Nair.
– Boa tarde – disse, tirando o próprio chapéu. – O senhor é da cidade?
– Perfeitamente – concordou o outro. – Nascido e criado aqui. Só estive fora, na capital, estudando odontologia. Sou dentista. Meu nome é Carlos Alves Netto.
– Ah, bom – fez Lamartine, confuso. – Já que é assim, teria a bondade de me indicar um bom hotel?
– Pois não – disse o dentista, atencioso. – Logo ali, do outro lado da praça, está vendo? O Hotel Central é o melhor da cidade.
– Ora, quem diria! – espantou-se Lalá. – Tão pertinho!
– O senhor está chegando do Rio, não é?
– Estou – respondeu Lalá. – Como adivinhou?
– Ora, quem não reconheceria o grande Lamartine Babo? Sou seu fã!
– Obrigado – disse Lalá. – Estou com uma sede danada depois dessa longa viagem. Aceitaria beber uma cerveja comigo?
– Certamente, senhor Lamartine. Puxa vida, com o maior prazer. O melhor bar e restaurante da cidade fica também no hotel.
– Vamos lá – moveu-se Lalá, desenferrujando com alegria as pernas. – Não precisa me chamar de senhor. Lamartine tá bom. E queira me desculpar o interesse, mas por acaso conhece uma moça chamada Nair? Nair Oliveira Pimenta?
SAINDO DA ENCRENCA
O dentista ficou vermelho. Pigarreou. Passou um lenço na testa.
– Então é só Lamartine, obrigado – desconversou. – Que tal a gente beber a cerveja e conversar um pouco? Temos muito que conversar.
Só passados dois dias, sempre enrolado pelo dentista, Lalá ficou sabendo que a verdadeira Nair tinha seis anos de idade e era irmã de Carlos. Tudo não passava de uma farsa do dentista para arrancar fotos, cartas e autógrafos dos compositores que admirava. Lamartine Babo era um deles, e foi o único a fazer uma viagem por nada.
Ao saber de tudo, Lamartine capitulou. Ficou na cidade, e terminou fazendo amizade com Carlos Netto. Lamartine virou atração na cidade. A juventude e os músicos do lugar passaram a se reunir, diariamente, com ele.
Depois de alguns dias, foi marcado um piquenique para sua despedida e retorno ao Rio, quando Lamartine, olhando a Serra da Boa Esperança que emoldurava a paisagem, começou a solfejar as notas, que eram postas num pedaço de jornal improvisados por Carlos Netto. E com as notas, foi saindo a letra.
A canção popularizou Boa esperança, tanto que, na cidade, há um monumento a Lamartine Babo.
Lamartine Babo
Serra da Boa Esperança,
Esperança que encerra
No coração do Brasil
Um punhado de terra
No coração de quem vai,
No coração de que vem,
Serra da Boa Esperança,
Meu último bem
Parto levando saudades,
Saudades deixando,
Murchas, caídas na serra,
Bem perto de Deus
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus
Vou-me enbora
Deixo a luz do olhar
No teu luar
Adeus!
Levo na minha cantiga
A imagem da serra
Sei que Jesus não castiga
Um poeta que erra
Nós, os poetas, erramos
Porque rimamos, também
Os nossos olhos nos olhos
De alguém que não vem
Serra da Boa Esperança,
Não tenhas receio,
Hei de guardar tua imagem
Com a graça de Deus!
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus,
Vou-me embora
Deixo a luz do olhar
No teu olhar
Adeus!
A canção “Olhos Coloridos”, que se tornou sucesso na voz de Sandra de Sá em 1982, é o resultado de um episódio de racismo vivenciado pelo seu compositor, Macau, na década de 70.
Macau era morador da Cruzada São Sebastião, na Zona Sul do Rio, onde muitos moradores tinham origem na Favela da Praia do Pinto, na mesma região, que foi destruída por um incêndio em 1969.
Macau já era cantor e compositor na década de 70. Ele foi com seu amigo Jamil, no começo da tarde, para ver um evento escolar no Estádio de Remo da Lagoa. Negros, eles estavam com roupas simples e cabelo black, quando foram abordados foi interpelado por um policial militar, considerados e convidado a passar por uma averiguação.
Ele, inicialmente, se recusou a ir, pois disse que não estava fazendo nada errado. O policial, então, disse que se ele não fosse, seria levado á força.
Conduzido para uma sala, foi ofendido por um sargento. “Ele me levou para um escritório. E tinha um sargento, baixinho, que quando eu cheguei ele ficou rindo e disse: ‘eu estou vendo você lá de baixo, você não é fácil, hein? Você ri demais, fala demais’”, conta Macau.
Macau e Sandra de Sá
As ofensas continuaram: “esse cabelo enrolado, esse sorriso, essa roupa, ao cabelo, a roupa que ele vestia e ao local onde ele morava, quando Macau alegou, em sua defesa, que era morador da Cruzada São Sebastião.
“O policial disse: ‘Você mora naquela lama ali, cheia de bandido’. Eu disse que bandido não, ali não tem bandido. Eles são moradores da Cruzada São Sebastião.
Macau, então, começou a discutir com o policial, dizendo que não tinha feito nada de errado: “Mas qual é o problema do meu cabelo, da minha roupa? O cabelo é meu, eu uso como eu quero, a roupa eu uso como eu quero….
Nas palavras de Macau:
Olhos Coloridos surgiu de uma repressão policial que sofri em um evento escolar realizado pelo Exército, no Estádio de Remo da Lagoa. Eu e meu amigo Jamil estávamos vendo as crianças brincarem na roda-gigante, quando um policial militar veio até a mim e me obrigou a acompanhá-lo até a coordenação do evento. Me recusei porque não entendi o motivo pelo qual tinha que me afastar de onde estávamos. Acabei acompanhando o PM, que me levou até o Sargento e, a partir daí, sofri todos os tipos de discriminação: fui chamado de “nego abusado”, agredido com palavras e força física, zombaram da minha cor, da minha pele, do meu cabelo e de minha roupa, riram até do meu sorriso. O impressionante é que o policial também era “sarará crioulo”.
Aí Macau chegou para o policial e disse a frase que acabou acarretando sua prisão:
Eu sou negro e você também é , você é sarará crioulo, o sangue que corre nas minhas veias é o mesmo que o seu, então somos da mesma origem e você é sarará….
O sargento ficou furioso, deu um tapa em Macau e mandou que ele fosse conduzido.
Macau foi preso e colocado em um camburão no meio da tarde. O veículo circulou por toda a cidade, vários “suspeitos” foram também colocados ali dentro e, no fim das contas, ele só chegou à delegacia à 1h do dia seguinte. “Era uma escuridão, eu sendo esmagado de gente, eu me senti dentro de um porão. Eu fiquei muito mal, fragmentado, com a alma ferida”.
Ele e todos os homens que estavam aglomerados foram colocados em uma cela apertada, onde Macau passou a noite, ao lado de um vaso sanitário, agachado por causa da falta de espaço.
Mas não parou aí: fiquei horas no camburão com outras pessoas como se fôssemos lixo, um por cima dos outros, como lata de biscoito. Rodamos horas pela cidade até que resolveram nos levar para a delegacia para averiguação. Não havia nada que me mantivesse preso e, mesmo assim, só de madrugada fui liberado com a ajuda do padre Bruno Trombeta, da Pastoral Penal. Saí dali triste e revoltado, chocado e com forte depressão.
Quando foi libertado, o padre fez menção de levá-lo para casa, mas ele não quis. “Eu fiquei tão revoltado que queria explodir. Eu falei: ‘Eu vou para o mar, quero ficar sozinho’”, conta Macau.
Diante do mar do Leblon, Macau, revoltado, sentou na areia e ficou refletindo…. e compôs a letra em que ele falava com deus e consigo mesmo, isso acabou anestesiando a raiva… a letra veio de uma vez só. “Eu comecei a olhar o mar e veio, de uma forma única, o texto dos ‘Olhos coloridos’. Eu comecei a chorar, veio na minha mente todo esse texto. Eu corri para casa, peguei o violão e comecei a tocar a canção”, conta o cantor.