Somente Chico Buarque conseguiria transformar a palavra “escafandristas” numa poesia. A ideia de se encontrar vestígios daquele amor não vivido nas ruínas submersas da cidade, em que o passado das águas vai resgatar um amor que não morreu, mas que também não foi plenamente vivido.
Esse é o mote da canção “Futuros Amantes”, de Chico Buarque, gravada no disco “Paratodos”, em 1993. Na história de um amor que não é vivido no presente, mas que pode esperar, haja vista sua eternidade. Um amor recôndito, em silêncio…
Na verdade, ele deseja ser vivido, quer ser vivido, mas termina por esperar, em silêncio, escondido,e que deixará um legado nas ruínas da cidade submersa, que ensejarão discussões sobre o significado deste amor, e que inspitrarão futuros amantes, assim como hoje ainda o fazem Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Lancelote e Guinevere.
O amor que não é vivido preserva o consolo de eternizar-se em amantes do futuro, o amor que ficou guardado.
Chico, falando no DVD Romance, explicou a inspiração da canção… (Publicado no Livro Chico Buarque- História de Canções – Wagner Homem. Leya, p. 271)
“Eu estava mexendo no violão, comecei a fazer a melodia, e a primeira coisa que apareceu foi exatamente cidade submersa, isolada de tudo… Porque cantarolando parecia cidade submersa, parecia que a música queria dizer isso. E eu tinha que ir atrás depois, tinha que explicar essa cidade submersa, tinha que criar uma história.
Aí eu coloquei esses escafandristas e esse amor adiado, esse amor que fica pra sempre, né?
Essa ideia do amor que existe como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor vai ficar até debaixo d’água e vai ser usado por outras pessoas.
Amor que não foi utilizado. Porque não foi correspondido, ele ficou ímpar, pairando ali, esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor.”
Trata-se, portanto, de um amor incompleto, não realizado – ou, pelo menos, não realizado na sua integralidade – mas que permanece latente. Trata-se quase de um consolo, uma resignação com o fato de que este amor, de alguma forma, ficará preservado e será, de alguma forma, concretizado.
Dia 27 de maio de 1966 Carlos Drummond de Andrade publicou um poema contra um suposto desejo dos militares de que Nara Leão fosse presa depois de uma entrevista que ela deu na imprensa.
No dia 22 de maio de 1966, foi publicada uma entrevista da cantora, em que o título da matéria já falava por si. “Nara é de opinião: esse Exército não vale nada”. Não por coincidência, no mesmo dia, o mesmo jornal ostentava uma manchete do futuro presidente, o General Costa e Silva. “Costa e Silva: governarei com o povo”
Embora a manchete não correspondesse exatamente àquilo que Nara tivera dito na entrevista, ela já seria suficiente para causar estardalhaço: disse que os militares poderiam entender de canhões e metralhadoras, mas não de política; disse que o mundo seria melhor se não existisse exército; que numa guerra moderna, o Exército brasileiro não serviria para nada; e que um país desigual como o Brasil teria outras prioridades, como escolas e hospitais.
Segundo Tom Cardoso, na biografia que escreveu sobre Nara (Ninguém Pode com Nara Leão – ed. Planeta, 2021), o mudo teria caído sobre Nara. Os jornais teriam repercutido a notícia, e o pai da cantora, o advogado Jairo Leão, teria sido intimado a comparecer no Palácio Duque e Caxias, onde ficava o Ministério da Guerra. No entanto, ele teria dito a Mario andreazza, chefe de gabinete de Costa e Silva:
– Minha filha é maior de idade e livre para dizer o que pensa
Não foi convencido, portanto, a fazer Nara desmentir o que dissera ao Jornal.
No entanto, já circulava na imprensa boatos de que o governo pretendia enquadrar Nara leão na Lei de Segurança Nacional e que ela poderia ser presa. Havia pressão da linha mais dura do Exército no sentido de que a suposta afronta não ficasse impune.
Segundo a biografia de Nara escrita por Sérgio Cabral (Lazuli, 2000), o serviço secreto do Ministério da Guerra, temendo a repercussão da entrevista, sugeriu três alternativas a Costa e Silva, Ministro da guerra e futuro presidente do Brasil:
a) o próprio exército responder ao artigo, “focalizando a atuação do exército na conjuntura do país”
b) responder indiretamente, por meio de artigo em que se focalizasse a atuação do exército “através de articulista identificado com a revolução”
c)verificar os antecedentes de Nara Leão e difundir na imprensa.
Havia, no entanto, rumores de que setores mais rigorosos do exército recomendariam a prisão imediata de Nara Leão.
O Jornal do Brasil ,em editorial, afirmou que nara teria sido vítima “da extravagância de um repórter”
Ibrahim Sued, conhecido colunista da época, insinuou que Nara estaria sendo “joguete da esquerda festiva”, estaria fazendo declarações que seus “mentores não teriam coragem de fazer”. E ainda afirnou que ela “como talento não era lá grande coisa”.
Do outro lado, diversos artistas prestaram solidariedade a Nara, como Edu Lobo, Fernanda Montenegro, Mario Lago, Ferreira Goulart, Tonia Carrero, Flavio Rangel, João do Vale e Odete Lara. Foi feito um abaixo-assinado contra a prisão de Nara, com assinaturas de mais de 150 artistas.
Além disso, teve manifestações públicas favoráveis na imprensa de Rubem Braga, Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta, entre tantos outros.
Moacyr Werneck de Castro mandou um blilhete a Nara: “Você é uma menina de atitudes claras. Deus a conserve assim. Você tem uma visão geral das coisas e por isso sua aceitação pelo público não está na dependencia dos caprichos moda. O Brasil precisa de você, que não é boneca de microfone, mas pensa nos problemas da arte”
No entanto, o mais conhecido manifesto contra a prisão de Nara Leão veio de ninguém mais, ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade. O poeta publicou um poema no Correio da Manhã, no dia 27 de maio de 66:
APELO (excerto)
“Meu honrado marechal dirigente da nação, venho fazer-lhe um apelo: não prenda Nara Leão (…)
A menina disse coisas de causar estremeção? Pois a voz de uma garota abala a Revolução?
Narinha quis separar o civil do capitão? Em nossa ordem social lançar desagregação?
Será que ela tem na fala, mais do que charme, canhão? Ou pensam que, pelo nome, em vez de Nara, é leão? (…)
Que disse a mocinha, enfim, De inspirado pelo Cão? Que é pela paz e amor e contra a destruição?
Deu seu palpite em política, favorável à eleição de um bom paisano – isso é crime, acaso, de alta traição?
E depois, se não há preso político, na ocasião, por que fazer da menina uma única exceção? (…)
Nara é pássaro, sabia? E nem adianta prisão para a voz que, pelos ares, espalha sua canção.
Meu ilustre marechal dirigente da nação, não deixe, nem de brinquedo, que prendam Nara Leão.”
Carlos Drummond de Andrade
Depois de tanta manifestação, o governo recuou. Mem de Sá, Ministro da Justiça, disse que não enquadraria Nara na Lei de Segurança Nacional, embora considerasse seus comentários “atrevidos” e o seus conceitos “injustos”
Nara não se fez de rogada Na biografia de Nara escrita por Sérgio Cabral, consta que Nara consultou Ferreira Goulart e recebeu desta a recomendação de não fazer novas declarações contra os militares. Disse que estava exausta e não tinha vocação para Joana D’arc. Disse que tudo aquilo valeu a pena pela inspiração a um de seus poetas preferidos.
A canção “Tigresa”, de Caetano Veloso, sempre gerou controvérsias de quem seria a musa que inspirou a canção. A necessidade de se personificar a mulher “de unhas negras e íris cor de mel” gerou uma série de discussões, que se iniciaram com o lançamento da música, no álbum Bicho, de 1977.
Na verdade, Tigresa é um mosaico de várias mulheres, que Caetano contou, à época, e depois foi publicado na compilação “O mundo não é chato”
“Gente” ainda não estava de todo pronta quando fiz, sem pensar, a melodia do que veio a se chamar “Tigresa”. Algumas pessoas estavam conversando aqui na sala de som da minha casa e eu não estava a fim de prestar atenção na conversa delas. Fiquei tocando violão e assoviando e cantarolando qualquer coisa. Fui dormir sem planos de voltar a pensar nela, uma vez que meu projeto era compor canções doces suingadas. Mas a música era linda mesmo e resolvi fazer uma letra. Mas não sabia o que dizer com palavras, uma coisa que ficasse dentro do clima que já era para nós essa melodia. Mas também não quis forçar muito a cabeça“.
Portanto, primeiro veio a música. A inspiração da letra veio depois. Conta Caetano:
Um dia estava com Moreno vendo um seriado de televisão no qual apareciam uns meninos indianos que andavam com um elefante e encontravam outro menino, que era selvagem e não sabia falar e reagia como um felino. Quando eles tentavam se aproximar do menino selvagem, um grande tigre vinha protegê-lo. O menino tinha sido criado por aquele tigre que, na verdade, era fêmeo. O fato é que pensei que tigre fêmeo diz-se tigresa, e aí estava a palavra. Dessa palavra parti para inventar uma letra que mantivesse o clima da música. Imaginei logo uma mulher e queria algo assim como uma história. Essa mulher foi se nutrindo de imagens de mulheres que conheço e conheci, e essa história foi se nutrindo de histórias que vivo.
Imagino que a série seja Maya, inspirada num filme de 1966, e que foi transmitida pela NBC nos Estados Unidos, e no Brasil pelas Tv’s Record e Tupi na década de 70. E assim Caetano prossegue:
Terminou pintando também um pouco de história, uma vez que o interesse que as pessoas da minha classe e da minha geração uma vez demonstraram pelo assunto política aparece datado. Mil pessoas me perguntaram quem é a “Tigresa”, ou para quem a música foi feita.
Pois bem. Depois da mamãe tigresa da televisão, a primeira imagem de mulher que veio à minha cabeça foi a de Zezé Mota, e isso está bem evidente nas unhas e na pele. Mas terminei descobrindo que os olhos cor de mel são da Sônia Braga, embora não deixem de ter um parentesco com os cabelos da menina Maribel. Mas Bethânia e Gal já estavam lá. E Norma Bengell, Clarice, Claudinha, Helena Ignêz, Maria Ester, Silvinha Hippy, Marina, muitas outras meninas que eram bebês em 1966, Suzana e Dedé. Por fim a “Tigresa” sou eu mesmo. É minha primeira canção parecida um pouco com Bob Dylan.
O fato é que a primeira pessoa a se “apropriar” da canção foi Sônia Braga. Protagonista da novela “Espelho Mágico”, cujo tema musical era a “Tigresa”, na voz de Gal Costa. No ano seguinte, Sônia Braga protagonizava a novela “Dancin’ Days”, interpretando uma ex-presidiária. Mais um ponto que ligava Sônia Braga à canção.
Zezé Motta e Caetano
Além disso, Sônia era atriz e trabalhou no espetáculo Hair. Rosane Queiroz conta um pouco desta história no seu livro “Musas e Músicas ”
“Roubei ‘Tigresa’ para mim”, admitiu Sônia Braga, em uma entrevista que fizemos em 2006, publicada na Marie Claire. “Comecei a encontrar Caetano na praia, não lembro bem a época, só sei que a gente acordou juntos pra assistir o casamento da Lady Di [1981]. Foi uma relação bonita, de amor mesmo. A gente fez uma viagem de trem inesquecível de São Paulo ao Rio, daí ele compôs ‘Trem das cores’ para mim (Teu cabelo preto/ Explícito objeto…). A ‘Tigresa’ ele começou pensando na Zezé Motta, logo depois a gente se conheceu”, diz ela.
Caetano e Sônia Braga
Tanto que Ivete Sangalo, em 2012, no especial que fez com Gil e caetano, perguntou se a música teria sido feita para Sônia Braga, ao que Caetano respondeu “Mais ou Menos”. “Nós mulheres sempre achamos que as músicas são feitas para nós”, brincou a cantora…. “‘Trem das cores’ eu fiz para Sônia, mas ‘Tigresa’ não, encerrou o compositor.
Zezé Mota, também na história contada por Rosane Queiroz, se apresenta:
“Só o fato de ter meu nome associado a uma música tão bonita do Caetano já é o máximo…
“A pele marrom e as unhas negras eu sei que são minhas. Eu usava esmalte preto, que comprava na Biba [boutique famosa em Ipanema, nos anos 1970]. Hoje a cor é comum, mas naquele tempo não. Eu fazia o estilo exótico, com os cabelos curtinhos e o batom também preto.
Mas não trabalhei no Hair nem namorei Caetano. O trecho que diz ‘com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher’, vamos combinar, serve para todas nós, né? [risos] Mas quando ele fala de ‘uma mulher, uma beleza que me aconteceu’, evidentemente se refere a alguém com quem teve um caso afetivo. Notei que a letra não era só para mim.
Encontrei Sônia Braga em vários momentos. Gravamos juntas o filme Tieta, mas nunca falamos nesse assunto de a canção ser mais dela. Não importa que ‘Tigresa’ seja uma colagem. Na época, Caetano era casado com Dedé (Gadelha), acho que até ela entrou na história. O que importa é que estou no pacote.
Mais recentemente, Caetano fala mais uma vez sobre a canção e Zezé Motta, relatada por Cacau Hygino, na biografia de Zezé Motta :
A música Tigresa foi escrita na época da [discoteca] Dancin’ Days. Zezé tinha as unhas pintadas de preto. A figura física da Tigresa veio muito mesmo de Zezé. E ela sabe disso. Mas a canção não é sobre ela só. Tem muito Sônia e pensamentos sobre as mulheres daquele tempo. Faz anos, me fizeram essa pergunta numa revista e eu disse que tinha Zezé e Sônia, mas também muitas outras mulheres. Finalmente, eu preferia fazer como Flaubert (que disse ‘Madame Bovary c’est moi’): a ‘Tigresa’ sou eu”, diz Caetano
Fontes:
Caetano Veloso, O mundo não é chato, Cia das letras, 2005
Rosane Queiroz, Musas e Músicas: A mulher por trás da canção, Tinta Negra, 2017
Cacau Hygino, Zezé Motta: Um canto de luta e resistência, Companhia Editora Nacional, 2018
No dia 20 de janeiro de 2022 falece Elza Soares. Talvez seja impossível classificar seu estilo, sua voz, sua vida. A história de Elza é única. De tantas homenagens que recebeu, vale aqui a transcrição dos textos de Chico Buarque e Caetano Veloso sobre a cantora, quando ela fez 90 anos:
Se acaso você chegasse a um bairro residencial de Roma e desse com uma pelada de meninos brasileiros no meio da rua, não teria dúvida: ali morava Elza Soares com Garrincha, mais uma penca de filhos e afilhados trazidos do Rio em 1969. Aplaudida de pé no Teatro Sistina, dias mais tarde Elza alugou um apartamento na cidade e foi ficando, ficando e ficando.
Se acaso você chegasse ao Teatro Record em 1968 e fosse apresentado a Elza Soares, ficaria mudo. E ficaria besta quando ela soltasse uma gargalhada e cantasse assim: “Elza desatinou, viu.”
Se acaso você chegasse a Londres em 1999 e visse Elza Soares entrar no Royal Albert Hall em cadeira de rodas, não acreditaria que ela pudesse subir ao palco. Subiu e sambou “de maillot apertadíssimo e semi-transparente”, nas palavras de um jornalista português.
Se acaso você chegasse ao Canecão em 2002 e visse Elza Soares cantar que a carne mais barata do mercado é a carne negra, ficaria arrepiado. Tanto quanto anos antes, ao ouvi-la em “Língua’’ com Caetano.
Se acaso você chegasse a uma estação de metrô em Paris e ouvisse alguém às suas costas cantar ‘Elza desatinou’, pensaria que estava sonhando. Mas era Elza Soares nos anos 80, apresentando seu jovem manager e os novos olhos cor de esmeralda.
Se acaso você chegasse a 1959 e ouvisse no rádio aquela voz cantando “Se acaso você chegasse’’, saberia que nunca houve nem haverá no mundo uma mulher como Elza Soares.
Caetano, por sua vez, fez a seguinte homenagem:
Elza Soares é uma das maiores maravilhas que o Brasil já produziu. Quando apareceu cantando no rádio, era um espanto de musicalidade. Logo ficaríamos sabendo que ela vinha de uma favela e desenvolvera seu estilo rico desde o âmago da pobreza.
Ela cresceu, brilhou, quis sumir, não deixei, ela voltou, seguiu e prova sempre, desde a gravação de “Se acaso você chegasse’’ até os discos produzidos em São Paulo por jovens atentos, que o Brasil não é mole não.
Celebrar os 90 anos e Elza é celebrar a energia luminosa que os tronchos monstros não conseguirão apagar da essência do Brasil.
Depois de tão belas homenagens, só se pode dizer que Elza sempre será uma estrela da música e da vida.
O Trecho é de uma música cantada por Ednardo (composição Ednardo/Climério), cujo título é “Enquanto eu engomo a calça”.
A música parece uma pequena história cantada enquanto o eu lírico engoma sua calça. Cantar parece como algo necessário à sobrevivência… afinal, o autor diz que cantar parece com “não morrer”. Não diz que cantar é viver, mas sim uma forma de permanecer vivo.
Em seguida, se faz a referência a um “voar maneiro”, que não foi ensinado pelo passarinho, mas pelo pelo olhar do seu amor….
Mas, ao final, há um lamento da vida de artista, que perde um amor para a distância (São Paulo), e o outro amor, pela segurança (representada pelo dentista).
O interessante é que a canção, pelo que consta, foi feita em menos de 5 minutos, quando Climério estava passando férias na casa de Ednardo, enquanto Rosane (esposa de Ednardo) estava passando (engomando) a calça que estava amassada.
A história é contada no volume 2 do livro de Ruy Godinho, “Então, foi assim?”
Conta Ednardo:
Em 1978 eu estava passando férias em Fortaleza e convidei o Climério para ficar uns dias junto com a gente. Ele foi e ficou hospedado na minha casa. Coincidiu do Dominguinhos estar fazendo shows na região (…) E coincidiu também que o apartamento em que ele morava era na frente do meu”
E nós pegamos uma aposta naqueles 20 dias de férias para ver quem fazia mais músicas.
Ednardo
No final de um destes dias, Ednardo convidou Climério para tomar uma cervejinhas .
“A gente ia saindo, a Rosane, minha mulher, disse assim: ‘Ednardo tua calça está toda amassada. Parece que saiu de dentro de uma garrafa. Deixa eu engomar aqui’ -que lá no Nordeste o povo diz engomar para o ato de passar a roupa. Ai eu concordei e permiti que ela engomasse’
Enquanto Rosane engomava a calça, Ednardo afirma que transcorreu o seguinte diálogo.
– Climério, não repare não, mas enquanto engoma a calça vamos fazer mais uma música’?
-Mas uma bem curtinha, fácil de cantar:
-Por que cantar’? ‘
-Por que cantar? Porque parece com não morrer, igual a não se esquecer que a vida é que tem razão: ‘
‘Aí, pronto. A música saiu em dois e meio a três minutos. Foi uma das músicas mais rápidas que eu já vi, em melodia e letra. Até o arranjo a gente já pensou na hora. Foi assim que nasceu’:
“Tinha um piano na sala, um violão e ali mesmo a gente fez. Essa é a história que eu lembro” conta Climério
Climério Ferreira
Ednardo, todavia, narra a inclusão da parte final da letra, que só foi introduzida depois.
“‘Tem um trechinho dela que a gente não tinha feito na hora. Eu achei a música muito curta. E como eu estava lendo o livro Bar do Pedro e Outras Canções, e eu encontrei esta pérola: ‘ah, mas como é triste vida de artista, depois de perder Vilma pra São Paulo, perder Maria Helena prum dentista. Incluí e gravei sem o Climério saber. Ele já tinha viajado. Quando eu lancei o disco, já em 1979, eu mandei para ele, que ficou surpreso. “Mas rapaz, você botou outra coisa aqui ? Pois e, mas é sua também.
Em entrevista ao site farofafa, em setembro de 2021, Climério contou de onde vem Vilma e Maria Helena:
“Não tinha esses versos na canção original. Ednardo acrescentou para me fazer uma surpresa. Quando eu trabalhava no INPE fiz uma canção chamada “Baderna” – na verdade, uma brincadeira com a despedida dos amigos de projeto. Vilma era a gerente do projeto e, muito competente que era, foi contratada pela editora Abril, indo, portanto pra São Paulo; e, no mesmo tempo, Maria Helena – uma das produtoras de rádio do nosso projeto – casou-se com o dentista que nos atendia em São José dos Campos. Sentindo que o nosso projeto estava sendo desmontado com a saída das pessoas, fiz ‘Baderna’”:
“Baderna” (Climério Ferreira)
Foi a maior baderna
Quando Vilma foi embora
A vida perdeu a perna
A saudade deu o fora
Apagou-se o riso largo
Na boca de quem sorria
E eu fui tomar um trago
No mesmo dia
Ai, pobre de nós
Nós que só vivemos de ilusão
Que temos que ouvir rádio sem voz
E sem imagem assistir televisão
Ah, mas como é triste
Essa nossa vida de artista
Depois de perder Vilma pra São Paulo
Perder Maria Helena prum dentista.
E assim surgiu um clássico da MPB, que continua a ser cantada … afinal, cantar parece com não morrer….
Arrepare não
Pois enquanto engomo a calça eu vou lhe cantar
Uma história bem curtinha fácil de contar
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão
Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou
Não foi passarinho
Foi olhar do meu amor
Me arrepiou todinho quando olhou meu coração
Ai, mas como é triste
Essa nossa vida de artista
Depois de perder Vilma pra São Paulo
Perdi Maria Helena pro dentista
Paulo César Pinheiro é um grande compositor e que se notabilizou por muitas parcerias que construiu na vida. Uma delas é Miltinho, violonista do MPB-4.
Eles se conheceram em torno de 1970, durante uma gravação de um álbum com parcerias de Paulo César Pinheiro com Baden Powell, e na ocasião, Miltinho lhe entregou uma fita com dois sambas de sua autoria. Uma delas tornou-se um belo samba, “Cicatrizes”, lançada por Roberto Ribeiro e mais recentemente gravada por Roberta Sá.
Miltinho e Paulo César Pinheiro
A segunda transformou-se na canção “De palavra em palavra”, a qual, como Pinheiro conta no seu Livro “História das Minhas Canções” (Leya, 2010, p.181-2), remete a João Gilberto e acabou gerando uma certa polêmica. Conta Paulo César:
A estrutura melódica (do samba que Miltinho lhe enviou numa fita cassete) remeteu-me a João Gilberto, a quem eu já adorava, e resolvi homenageá-lo. Foi uma tarefa complicada e insana. Cismei de construir um mosaico. A letra seria uma colagem de letras do repertório do João. Só que pra isso tinha que caber os versos de Antônio Maria, Vinícius, Tom, Caymmi, Bôscoli, Ary Barroso, Haroldo Barbosa, na música que se me apresentava. E, lógico, o papo tinha que fazer sentido. Destrinchei os discos do cantor. Decorei-os. E partir pra montagem. Fui conseguindo e me empolgando. Termino com um carinhoso abraço no João, motivo de minha admiração maior. Batizar foi relativamente fácil. Um dos grandes sucessos do baiano era o samba de Lucio Alves e Haroldo Barbosa, “De conversa em conversa”, e pra fechar o tributo saquei o “De palavra em palavra” do penúltimo verso. Me deu muito trabalho essa invencionice, mas ficou um primor.
De palavra em palavra
Manhã tão bonita a manhã (Manhã de Carnaval – Luiz Bonfá/Antônio Maria) E muita calma pra pensar (Corcovado – Tom Jobim) Eu amei ai de mim muito mais do que devia amar (Amor em Paz – Tom Jobim/Vinícius de Moraes) Sim fiz projetos pensei (Só em teus braços – Tom Jobim) Mas esse mundo é cheio de maldade e ilusão (Saudade da Bahia – Dorival Caymmi) Pra que trocar sim por não se o resultado é solidão (Discussão – Tom Jobim/Newton Mendonça)
O amor o sorriso e a flor (Meditação – Tom Jobim/Newton Mendonça) Meu sabiá, meu violão O que ficou pra machucar meu coração (Pra machucar meu coração – Ary Barroso) Pois é tantos versos eu fiz (A Primeira vez – Alcebíades Barcelos e Armando Marçal) Dizendo a todo mundo o que ninguém diz (Saudade da Bahia – Dorival Caymmi) Alimentei a ilusão de ser feliz (A Primeira vez – Alcebíades Barcelos e Armando Marçal)
O amor é a coisa mais triste quando se desfaz (Amor em Paz – Tom Jobim/Vinícius de Moraes) Dói no coração de quem sonhou demais (Este seu olhar – Tom Jobim) Eu vivo sonhando, ai que insensatez (Vivo Sonhando – Tom Jobim/ Insensatez – Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
Até você voltar outra vez (Outra Vez – Tom Jobim)
Eu tenho esse amor para dar (Só em teus braços – Tom Jobim) Agora o que é que eu vou fazer (Doralice – Dorival Caymmi) Porque esse é o maior que você pode encontrar (Desafinado – Tom Jobim/Newton Mendonça)
Mas de conversa em conversa (De conversa em conversa – Lúcio Alves e Haroldo Barbosa) Eu só quis dizer de palavra em palavra João Gilberto um abraço a você Oba-la-lá (Hô-Ba -La-Lá – João Gilberto)
Percebe-se, portanto, que a letra é um mosaico de trechos de canções gravadas por João Gilberto no decorrer da vida. Trata-se de uma samba, estilo bossa nova, mas que não deixou de causar uma polêmica, relatada por Paulo César Pinheiro
Tempos depois, Miltinho inscreveu a composição num festival de Juiz de Fora. Um jornalista membro do júri, influenciando a opinião dos outros, desclassificou o samba alegando plágio. Depois de tamanho esforço pra o que eu considero um achado, a visão torta de um crítico soa como uma imbecilidade sem propósito. Porém, são essas as pedras que Drummond detectou no nosso caminho de criação. Já me acostumei com os antolhos alheios.
E pra concluir, o parceiro de Miltinho na música era Maurício Tapajós que eu nem conhecia pessoalmente, e com quem só vim esbarrar em outro momento. Com esse encontro noutra ocasião.
Julinho de Adelaide foi um personagem fictício que Chico Buarque criou na década de 70 para driblar a censura. Julinho da Adelaide nasceu quando Chico Buarque passou a ser muito conhecido entre os censores do regime militar, na década de 70. Seu nome estava marcado, e suas músicas eram proibidas somente porque Chico era o compositor.
Chico, então, criou um alter-ego, um heterônomo, um sujeito chamado Julinho da Adelaide, supostamente oriundo da fevela da Rocinha. Assim, Chico (ou melhor, Julinho) compôs três canções, em 1973/4, gravadas por Chico: Acorda, Amor (em que o eu-lírico diz para a mulher chamar o ladrão, pois a polícia está chegando), Jorge Maravilha e Milagre brasileiro (em que critica o chamado “milagre econômico”).
Vou contar aqui um pouco da canção “Jorge Maravilha”, que tem um refrão bem conhecido “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, que, segundo as lendas, seria um recado para a filha do então presidente do Brasil, Ernesto Geisel.
No livro “História das canções”, Wagner Homem esclarece o fato:
Para conseguir a liberação. Chico criou novo subterfúgio, que consistia em inserir a parte que lhe interessava misturada a outros tantos textos que não tinham pé nem cabeça. A canção foi enviada à Polícia Federal, sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, entre as estrofes abaixo:
A primeira parte não interessava:
Você não entendeu/Que o amor dessa menina/É a chama que ilumina/A minha solidão/O meu amor por ela/É uma cidadela/Construída com paz e compreensão
Aqui vinha a letra da que interessava:
E nada como um tempo após um contratempo Pro meu coração E não vale a pena ficar, apenas ficar Chorando, resmungando, até quando, não, não, não E como já dizia Jorge Maravilha Prenhe de razão Mais vale uma filha na mão Do que dois pais voando
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Ela gosta do tango, do dengo Do mengo, domingo e de cócega Ela pega e me pisca, belisca, petisca Me arrisca e me enrosca
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Depois, mais uma parte descartada:
E o meu amor por ela/É uma cidadela/Construída com paz e compreensão/Somente paz e compreensão/Para sempre paz e compreensão/E eu vou velar por ela/Como uma sentinela/Guardando paz e compreensão/Somente paz e compreensão/Paz sempre paz e compreensão
“Como não havia obrigação de gravar todo texto aprovado, as estrofes inicial e final foram simplesmente excluídas, restando o que de fato interessava.
Os intérpretes de entrelinhas logo vislumbraram na letra uma referência ao general Geisel, cuja filha, Amália Lucy, manifestara admiração pelas obras do autor.
Em entrevista a Tarso de Castro na Folha de S. Paulo, Chico revela a origem da imagem utilizada: “Aconteceu de eu ser detido por agentes de segurança, e no elevador o cara me pedir um autógrafo para a filha dele. Claro que não era o delegado, mas aquele contínuo de delegado”. Foram vãs as tentativas de esclarecimento, porque até hoje muita gente crê na interpretação fantasiosa.
Respondendo à mesma questão em 2007 para a revista Almanaque, ele diz:
Nunca fiz música pensando na filha de Geisel, mas essas histórias colam, há invencionices que nem adianta mais negar. Durante a ditadura, de um lado ou de outro, as pessoas gostavam de atribuir aos artistas intenções que nunca lhes passaram pela cabeça. Achavam que a maioria dos artistas só fazia música pensando em derrubar o governo. Depois da ditadura, falam que o artista só faz música para pegar mulher. Mas aí geralmente acontece o contrário, o artista inventa uma mulher para pegar a música.
Nesse ponto, a letra contém vários subterfúgios para burlar a censura:
a) o pretexto de um diálogo entre o eu-lírico e o pai da filha com quem o sujeito mantém uma relação bem física (aliás, segundo a letra, mais vale uma filha na mão do que dois pais voando);
b) A letra com cacos não utilizados no começo e no final;
c) A composição com o pseudônimo Julinho da Adelaide;
A música passou pela censura e foi gravada. Em 1975, uma matéria sobre censura publicada no Jornal do Brasil revelaria que Julinho da Adelaide e Chico Buarque eram a mesma pessoa. Por causa dessa revelação, o serviço de censura do Governo Militar passou a exigir cópias do RG e do CPF dos compositores.
“Amor, meu grande Amor” foi o primeiro grande sucesso de Ângela Ro Ro, gravado no seu primeiro disco, em 1979. A letra é de Ana Terra, que sequer conhecia Ângela antes de surgir a letra.
A música fala de características de um amor desejado, talvez idealizado, mas que não se enxerga como eterno (‘só dure o tempo que mereça”).
Ao mesmo tempo, representa uma crença num amor à primeira vista, num desejo de que venha de repente, e que possa, como num passe de mágica, fazer sentir como que dentro de uma bolha, em que o eu-lírico seja “a última e a primeira”
A história da canção, Ana Terra contou a Ruy Godinho, no primeiro volume do seu livro “Então, foi assim?”, bem como numa entrevista no youtube a Rodrigo Faour (https://www.youtube.com/watch?v=PteIxC8_Oso), como a letra foi feita:
Ana terra
Ângela Ro Ro estava selecionando repertório para a gravação de seu primeiro disco, em 1979 e Paulinho Lima empresário dela na época – perguntou para Ana Terra se ela dispunha de alguma letra para Ângela musicar. Ana lembrou-se que tinha algo fresquinho, escrito naquela semana. “Lembro bem que foi numa madrugada em que cheguei meio de porre do baixo Leblon e não conseguia dormir”, comenta.
“Ana, na ocasião, já estava separada de Danilo Caymmi, com quem fora casada desde 1973. “Sentia-me muito só. Deseja viver outra vez um grande amor. E eu só acredito em amor à primeira vista, um reconhecimento sincrônico e imediato.Pensava nessas duas energias que se tocam harmonicamente e geram uma terceira força, essa coisa mágica chamada amor. Mas que nunca se pode prever, marcar hora, estabelecer regras, fingir que sente, pensar que sabe”, recorda-se a letrista.
Mal sabia Ana Terra que, daquele momento de carência afetiva e aflorada solidão estava surgindo mais uma letra que seria sucesso nacional. “Escrevi o que estava desejando naquele momento. Sempre escrevo meus desejos para que eles ganhem forma e força”, afirma revelando-se adepta da neurolinguística, ciência que põe o universo para conspirar em favor dos desejos e metas. “Entreguei-a para a Ângela que tinha uma música com letra em inglês e onde o meu texto se encaixou perfeitamente. Ela gravou e é um sucesso até hoje.”
Disco de Ângela Ro Ro em que a canção foi gravada
Ana diz que é completamente diferente de Ângela, só vindo a conhecê-la pouco antes dela gravar a canção, que foi gravada no LP Ângela Ro Ro, lançado pela Polydor, em 1979.
Em 1996, a música foi regravada pelo Barão Vermelho.
Amor, meu grande amor Não chegue na hora marcada Assim como as canções Como as paixões e as palavras
Me veja nos seus olhos Na minha cara lavada Me venha sem saber Se sou fogo ou se sou água
Amor, meu grande amor Me chegue assim bem de repente Sem nome ou sobrenome Sem sentir o que não sente
Que tudo que ofereço É meu calor, meu endereço A vida do teu filho Desde o fim até o começo Que tudo que ofereço É meu calor, meu endereço A vida do teu filho Desde o fim até o começo
Amor, meu grande amor Só dure o tempo que mereça E quando me quiser Que seja de qualquer maneira
Enquanto me tiver Que eu seja a última e a primeira E quando eu te encontrar Meu grande amor, me reconheça
Que tudo que ofereço É meu calor, meu endereço A vida do teu filho Desde o fim até o começo Que tudo que ofereço É meu calor, meu endereço A vida do teu filho Desde o fim até o começo
¹Ângela Maria Diniz Gonçalves 05/12/1949 Rio de Janeiro-RJ
² Ana Maria Terra Borba Caymmi 20/5/1950 Rio de Janeiro-RJ
³ Entrevista concedida ao autor, em março de 2006, por e-mail.
Eu sempre tive uma relação afetiva com a música “o seu amor”, cantada em 1976 pelos Doces Bárbaros (grupo formado por Caetano, Gil, Gal e Bethânia, esta última idealizadora do grupo como forma de comemorar dez anos de carreiras do quarteto baiano).
A música consegue passar uma mensagem política e uma mensagem de amor ao mesmo tempo.
Centrada na frase “O seu amor, ame-o e deixe-o”, é uma evidente mensagem dirigida ao famigerado bordão “Brasil; ame-o ou deixe-o” do governo Médici na década de 70, consegue dizer que havia quem amava o Brasil, e ainda assim o deixava.
Este bordão, Ame-o ou deixe-o, nada mais é do que uma cópia do bordão “América: love it or leave it”, de Walter Winchell, um apoiador do Macartismo e a caça aos comunistas nos Estados Unidos.
A letra subverte a lógica da frase:
De uma disjunção exclusiva “Ame-o ou deixe-o” em que a ideia é de quem ama, fica, quem não ama, deixa,
Para uma conjunção, “Ame-o edeixe-o”, quando é possível deixar, mesmo amando (detalhe: Gil e Caetano foram exilados em 1969).
E, assim, além de ser possível amar e deixar, o canto passa a homenagear o amor não egoísta, o amor que preza a liberdade do ser amado, diferentemente de muitos amores possessivos e egoístas, que, sob o pretexto da intensidade de sofrimento, querem o ser amado só para si e transformam a relação numa prisão, em que a obrigação supera o afeto.
Sempre gostei do canto do amor verdadeiro, que, mesmo sendo arrebatador, permite que o ser amado ame como liberdade, e não como dever. É também a mensagem da música de Gil.
No livro “Todas as letras”, de Gilberto Gil e organizado por Carlos Rennó (Cia das letras, 1996), há o comentário sobre a canção:
” A intenção foi brincar com o slogan da ditadura, ‘Ame-o ou deixe-o’, promovendo, através da substituição de uma conjunção, um corte profundo de ruptura no significado reducionista, possessivista e parcial do aforismo oficial, símbolo do fechamento e da exclusão maniqueísta, para criar um outro, com outra moral, a do amor – e, portanto, absolutamente generoso, democrático e libertário. A concepção de ‘amor livre’ é também reiterada, reintroduzida como objeto de respeito e admiração à liberdade no amor, e ampliada até para um sentido mais cristão, de amor irrestrito.
Minimalista já na escolha de uma máxima tão concisa e conclusa, a letra também o é na construção – na maneira como suas significações se sobrepõem como degraus de uma escada tosca, de pedreiro, somando-se com certo desejo geométrico e uma ambição de organização aritmética de fatores numa conta de adição feita com números muito simples”
A música depois foi gravada por Gil, no seu disco Gil Luminoso, e por Caetano e seus filhos, no disco Ofertório
O seu amor
Ame-o e deixe-o livre para amar Livre para amar Livre para amar
O seu amor Ame-o e deixe-o ir aonde quiser Ir aonde quiser Ir aonde quiser
O seu amor Ame-o e deixe-o brincar Ame-o e deixe-o correr Ame-o e deixe-o cansar Ame-o e deixe-o dormir em paz
O seu amor Ame-o e deixe-o ser o que ele é Ser o que ele é
A mulher e a filha de Djavan morreram durante o parto? Mais cedo ou mais tarde você vai receber uma mensagem com essa, entre tantas lendas que circulam pela internet. Estas histórias circulam pela rede com a mesma intensidade que nossos avós falavam da mula-sem-cabeça… Os autores da lenda buscam dar credibilidade à história citando alguma suposta fonte (que ninguém se dá ao trabalho de conferir), e essa notícia se espalha e as pessoas começam a citá-la como verdade.
Uma dessas lendas do ciberespaço diz respeito ao primeiro sucesso de Djavan, Flor de Lis, gravado no seu primeiro álbum: A voz, o Violão, em 1976. Ninguém sabe ao certo como e onde ela surgiu, mas o certo que antes da internet ela não existia…
Segundo circula na internet, Djavan era casado com uma mulher chamada Maria, os dois teriam uma filha que se chamaria Margarida, mas sua mulher teve um problema na hora do parto e ele teria que optar por sua mulher ou por sua filha…. seguindo a lenda, Djavan teria pedido ao médico que fizesse tudo que pudesse para salvar as duas, mas o destino foi duro e a mulher e a filha faleceram no parto. Essa seria a inspiração de Flor de Liz.
Djavan, no Palco MPB, em novembro de 2010, esclareceu a história:
“Existe uma explicação na internet completamente falsa, nada daquilo jamais aconteceu, não é uma experiência pessoal, é uma invenção. De um modo geral a minha composição não fala de mim mesmo. É claro que eu não posso negar que está embutido ali coisas da minha experiência de vida, até coisas que aconteceram realmente, mas não são autobiográficas, de modo algum, essa não é a intenção. (…) E a explicação que deram pra “Flor de Lis”, que eu tive uma mulher, que deu a luz a uma criança, e a mulher morreu no parto, isso é de uma imaginação incrível, Muitas vezes Minhas canções, embora tenham algo de mim, não possuem intenção autobiográfica. A primeira vez que eu li isso eu fiquei assustado. As pessoas realmente tem muita criatividade”.
O boato na imagem abaixo
Mas o mais incrível é que gente na internet divulga, e ainda diz que pouco importa que seja verdade ou não, alguns dizem que a “história é linda, mesmo que não seja verdadeira”.
Djavan efetivamente teve uma esposa chamada Maria: Maria Aparecida dos Santos Viana, com quem viveu entre 1972 e 1998. Mas ela está bem viva, e estava com o cantor quando do lançamento da música.
Em 2013 o cantor contou, numa entrevista ao programa Viva Voz, falando de sua intenção com a letra:
Eu nunca tive por essa música uma impressão de tristeza, embora ela fale sobre um grande amor que não aconteceu. É uma música que conta uma história, de maneira leve, e a conclusão é isso [E o meu jardim da vida ressecou, morreu/Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu…]com o refrão], mas ele não está se lamentando. Ele está concluindo a história que acabou de contar. É a enésima vez que eu estou falando, nunca aconteceu nada disso, essa música nem mesmo fala de uma experiência pessoal…