Poema. A canção póstuma de Cazuza…

Cazuza tinha um grande amor por sua avó paterna, Maria José. Segundo conta Lucinha Araújo, mãe do cantor (Só as mães são felizes , Globolivros, 2004) ela era uma das válvulas de escape do artista, em cuja casa de Vassouras ele passou as férias dos 3 aos 15 anos. Relata que na casa da avó Cazuza era era tratado como um príncipe, cercado de todos os mimos.

A avó materna de Cazuza, a Vó Lice, morreu quando Cazuza tinha 17 anos. Ele, então, fez um poema, cujos versos estão gravados hoje no túmulo de sua avó:

Você foi embora

deixou vazia a casa

o riso num álbum de fotografias

e aquela imagem de Santa Rita…

e eu fiquei lá fora

brincando de cidade deserta

chupando manga

pedindo um beijo…

e agora é a velha história

você virou saudade

daqueles tempos de carochinha

daquela vida que eu inventei

daquela reza que decorei…

agora eu vou vivendo

no mundo sem sonho ou lenda

e só de noite, quando me lembro

eu sinto um troço no meu peito

e durmo…

Seu neto

Lucinha Araújo, tanto no Livro “O Tempo Não Para – Viva Cazuza”, quanto em entrevista a Pedro Bial (https://globoplay.globo.com/v/6643455), conta que a avó paterna de Cazuza disse, então, que ele não esperasse que ela morresse para que recebesse um poema dele, pediu para que ele desse a ela um poema enquanto ela estivesse viva. Numa tarde, Cazuza presenteou sua avó com este poema.

Depois da morte de Cazuza, sua mãe (Lucinha Araújo) começou a fazer um acervo com o material pertencente ao filho. Ela sabia que sua sogra guardava com carinho o poema escrito pelo neto, e pediu a ela o poema, para que fizesse parte do acervo. Mas a avó de Cazuza recusou, pois disse que não poderia entregar um presente.

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Após o falecimento de Maria José, as cunhadas, filhas de Maria José, ´perguntaram se Lucinha desejaria alguma lembrança dela. Lucinha pediu então as fotos que ela tinha com Cazuza e alguns LP’s autografados, e tinha um papel dobrado, escrito “poema para Maria”.

Tornada conhecida 23 anos depois, Lucinha ligou para Roberto Frejat (parceiro musical de Cazuza com quem fazia parte na Barão Vermelho), perguntando se ele aceitava idealizar uma música a partir do poema. Frejat atravessou uma noite e transformou o poema em música.

A pessoa escolhida para cantar não poderia ser outra senão Ney Matogrosso, grande responsável pelo boom da carreira do Barão vermelho, com “pro dia nascer feliz”, em 1985. Ney gravou a canção em 1999, no seu álbum “Olhos de Farol”. É, inclusive, a canção mais tocada na voz de Ney.

Eu hoje tive um pesadelo

E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás

Chão de Giz

Há muitas análise e especulações sobre como foi composta a composição “Chão de Giz”, que integra o primeiro álbum de Zé Ramalho (1978). A canção, imagética e cheia de metáforas, revela um relacionamentos que o artista teve, muito jovem, com uma mulher mais velha, casada, que fazia parte da chamada “alta sociedade” de João Pessoa.

Em entrevistas, Zé Ramalho apenas revela esta condição, sem contar detalhes sobre a história que viveu. O que resta são as inúmeras análises que se faz da letra da canção.

Zé Ramalho no música de segunda e Táxi Boy | Imaginação Fértil

Na letra, o eu-lírico se despede de uma relação, que possivelmente ocorreu ou atravessou um carnaval. Inegavelmente, revela uma frustração por uma relação não correspondida

Há relatos, que constavam no próprio site do artista que ele se apaixonou por esta mulher, casada com uma pessoa influente da sociedade, e que não estaria disposta a abandonar sua posição por aquela relação adolescente.

Diz-se, também, que Zé Ramalho ficou arrasado por meses, e chegou a mudar de bairro, pois morava próximo a ela. E, nesse período de sofrimento, compôs a canção.

chão de giz} bordado objeto no Elo7 | Rebecca Jacob ~ Bordado Livre  (11A674B)

Zé Ramalho, recentemente, numa entrevista, disse que em nenhuma música dele contém a frase “eu te amo”. esta frase é dita por outros caminhos. E ele, nesta canção, relata a experiência do desamor, ou melhor, do amor que se desfez.

E assim ele relata, no chão de giz, efêmero, frágil, dissipável, no qual as lembranças e devaneios daquela relação que se finda o torturam…

E as imagens daquela mulher, recortadas em folhas de jornais, seriam guardadas “no pano de guardar confetes’, ou seja, ficarão nas memórias e nos restos daquele carnaval.

E por mais que ele tente lutar, usando toadas as suas armas (“balas de canhão”), existe o Grão-Vizir, o marido. Mais do que a referência à posição, há uma referência à vilania, associada certamente a Kara Mustafá, um famoso grão-vizir otomano que é associado á ganância e à vilania. O Grão Vizir é o antagonista, e, em certa medida, o vencedor deste jogo de amor

E, numa manifestação de um certo despeito, ele diz ser o colibri que pode polinizar outras violetas velhas, assim como ela, e, diante da impotência, faz referência à loucura (camisa de força) e aos desejo (camisa de vênus) reunidas numa mesma pessoa.

E ele se resigna, pois não quer com ela apenas o cigarro efêmero do pós- sexo, nem o beijo passageiro. E por isso, nocauteado, vai embora, pois não quer, como um escravo, ficar acorrentado no calcanhar da pessoa, como uma forma de subordinação.

E na juventude dele, ele relata algo um tanto edipiano neste amor pela mulher mais velha (“Freud Explica”), e que a história acabou, o carnaval dele com ela acabou, e ele está indo embora.

Resta claro que a despedida, diante do contexto, é a única opção.

Significado da música Chão de Giz - Análise e Interpretação - Cultura Genial

http://museudacancao.blogspot.com/2012/11/chao-de-giz.html

http://www.cronistas.com.br/default.asp?ID_CRONICA=141

Canção da despedida. A única parceria de dois Geraldos (Vandré e Azevedo)

Poucos sentiram tão fortemente o peso da ditadura militar como Geraldo Vandré. E a maior responsável por isso foi sua canção “Pra não dizer que não falei de flores”, ou “Caminhando”, apresentada no III Festival Internacional da Canção, no dia 29 de setembro de 1968. A canção ficou em segundo lugar (perdeu para Sabiá, de Chico e Tom Jobim, que receberam a maior vaia de suas vidas), mas foi cantada e recantada pelo público e chamada como a “Marselhesa Brasileira”. 

O certo é que, após o sucesso estrondoso de “Caminhando”, um verdadeiro hino contra a ditadura, a vida de Vandré tornou-se um martírio. Para se ter uma ideia, Zuenir Ventura faz uma referência a um artigo revoltado de um General, publicado no Jornal do Brasil em 06 de outubro de 1968, com o militar dizendo que a final do Festival da canção contemplara 3 injustiças:

1. Do Júri, ao colocar a música em segundo lugar, desconsiderando a “pobreza” da letra com seus gerúndios e rimas terminadas em “ão”, sem falar da canção em dois acordes.

2. Do público, que vaiou “Sabiá”

3. De Geraldo Vandré, que se insurgira contra “soldados armados”. Mas neste caso o general dizia que apenas essa terceira injustiça poderia ser reparada. 

Geraldo Vandré: o último show e a volta silenciosa
Vandré

No Jornal Estado de São Paulo de 05/08/1995, consta que Geraldo Vandré teria rompido com o Trio Marayá, que cantou com ele no Festival da Canção de 1968, e montou um novo grupo para acompanhá-lo numa turnê: o Quarteto Livre, do qual Geraldo Azevedo fazia parte do grupo.

Antes mesmo da canção “Caminhando” ser proibida oficialmente no dia 23 de outubro de 68, os discos já eram apreendidos, e Vandré vivia na paranoia de ser preso. Medo que se intensificou na sexta feira 13 de dezembro de 1968, quando veio o AI-5, uma das passagens mais vergonhosas da nossa história, que fechava o congresso, suprimia garantias individuais (como o habeas corpus) e fazia com que a ditadura mostrasse sua faze mais horrenda.

Vandré é advogado, e sabia dos riscos que corria, passou a esconder-se, viver na clandestinidade, mesmo sem saber se ele seria preso ou não, e, como relata Dalva Silveira, no seu livro “Geraldo Vandré: A vida não se resume em festivais (FT Editora), ele passou a planejar a fuga para um autoexílio.

Mas, antes de fugir do Brasil, Vandré passou um tempo escondido com ajuda da viúva de Guimarães Rosa. 

No período em que estava foragido, uma das pessoas que tinha acesso a Geraldo Vandré era Geraldo Azevedo, que compunha o “Quarteto livre”, banda que o acompanhara na turnê do Show “pra não dizer que não falei de flores”, cujo título, censurado, passou a ser “Socorro – a poesia está matando o povo”. 

Tarati Taraguá: Geraldo Azevedo - Jornal Nossa Música (1983)
Geraldo Azevedo

Geraldo Azevedo disse que, para ver Vandré, tinha que se comportar “como um militante de organização clandestina; entrava num carro, mudava para outro, fazia tudo para despistar pessoas da repressão que pudessem estar me seguindo para, por meu intermédio, chegar a Vandré” 

Nesse clima compuseram em parceria, Vandré e Azevedo, a “Canção da Despedida”, cuja letra é absolutamente clara e explícita. 

O eu-lírico anuncia sua despedida do seu amor, anunciando, todavia, seu futuro retorno. Afirma não poder ficar tendo em vista que um Rei mal coroado (que vem a ser, obviamente o governo militar) não deseja o amor em seu reinado.

No entanto, ao mesmo tempo em que se despede, anuncia a morte do “rei” velho e cansado, ao mesmo tempo em que anuncia a permanência do amor de hoje.  

 Obviamente, a música foi censurada. Numa entrevista para o site (www.abarriguda.org.br), Geraldo Azevedo conta:

Eu fui censurado várias vezes, teve uma canção minha que foi censurada até a ditadura acabar, que foi uma musica que eu fiz com Geraldo Vandré, a Canção da Despedida, foi muito censurada, insistimos, cheguei a colocá-la muitas vezes com nomes diferentes, mas não passava não!

Geraldo Vandré, todavia, numa entrevista a Ricardo Anísio em 2004, afirmou: 

“RA – Mas o Geraldo Azevedo também tem uma estória. Você disse que ele nunca foi seu parceiro em “Canção da Despedida”. Confirma isso?

GV – Claro que confirmo. Eu nunca tive parceiro nessa canção, a escrevi sozinho e ela está gravada no disco que fiz na França (“Das Terras de Bemvirá) mas quando foi lançado no Brasil veio sem essa faixa, não sei porquê, se foi por censura ou algo que o valha. A verdade é que depois que a marca Vandré virou um mito monstruoso apareceram parcerias que eu nunca fiz”.

Canção da Despedida - Geraldo Vandré (Compositores: Geraldo Vandré e Geraldo  Azevedo) | Geraldo azevedo, Letras de musicas, Musicas trechos de

O fato é que em 16 de julho de 1973 Vandré retornara ao Brasil. Ficara incomunicável nos quartéis do exército. Ao sair, disse que sua canção teria sido injustamente apropriada por grupos políticos e que dali para a frente só faria canções de ‘amor e paz’.

O artista Geraldo Vandré “morreu” ao voltar do exílio, restando apenas o advogado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias. A ponto de que, quando Elba Ramalho foi gravar a “Canção da Despedida”, após sua liberação pela censura no fim da década de 70, Vandré não quis autorizar a sua execução, só o fazendo quando seu nome foi retirado dos créditos.

 Mas parece que era realmente uma despedida. Geraldo vandré nunca mais retornou… Ele jamais gravara esta canção. 

Canção da despedida – segunda do disco 2. Créditos Geraldo Azevedo/Geraldo

Geraldo Azevedo conta que, com a abertura política, disse que a “Canção da Despedida”, seguidamente censurada, poderia ser gravada. Aí ele procurou Vandré. Nas palavras de Geraldo Azevedo:

Minha conversa com Vandré foi difícil; ele não queria que a música não fosse gravada. resolvi que seria. Elba registrou-a em um belo disco, em 1980. (Só que, nos créditos, apareceram como autores Geraldo Azevedo e Geraldo – sem o sobrenome). Em 1985, Geraldo Azevedo colocou a autoria completa, pois soube que Geraldo Vandré se incomodara por não ter seu nome registrado integralmente.

Fontes: Silveira, Dalva, Geraldo Vandré: A vida não se resume em festivais (FT Editora)

http://www.abarriguda.org.br/destaques/entrevista-com-geraldo-azevedo/

https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19950805-37180-nac-0078-cd2-d4-not

“A girar, que Maravilha”. Parceria de Jorge Benjor e Toquinho

Toquinho e Jorge Ben Jor se tornaram amigos, no final da década de 60. A razão que os aproximou foi o fato de que Toquinho tinha uma namorada – Carolina – cuja prima começou a namorar Jorge Ben Jor.

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Toquinho relata: “Eu tinha uma namorada, a Carolina. E o Jorge Benjor começou a namorar a prima dela”, conta Toquinho. “Saíamos pela madrugada, íamos com frequência ao Patachou, um restaurante da rua Augusta, tocava-se violão, era muito agradável. Criou-se então uma amizade maior entre mim e o Jorge.

Na casa dessa minha namorada, a Carolina, nós ficávamos comendo pão de queijo e tocando violão. Um dia  ele me mostrou um tema musical, e fizemos uma música, que foi Que maravilha.

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Jorge Ben Jor fez a primeira parte:  “Lá fora está chovendo/ Mas assim mesmo eu vou correndo/ Só pra ver o meu amor./ Ela vem toda de branco/ toda molhada e despenteada/ Que maravilha, que coisa linda que é o meu amor”.

eles desenvolveram o restante do tema, e Toquinho fez a segunda parte: “Por entre bancários, automóveis, ruas e avenidas/ Milhões de buzinas tocando sem cessar/ Ela vem chegando de branco, meiga e muito tímida/ Com a chuva molhando seu corpo que eu vou abraçar./ E a gente no meio da rua, do mundo, no meio da chuva/ A girar, que maravilha, a girar, que maravilha”.

Jorge Benjor, numa entrevista em 1972, também falou sobre a canção:

Que maravilha, uma homenagem a uma moça, que eu não conheci, mas eu vi aquela moça tão linda, de branco, embaixo de uma chuva, linda e despenteada, ela parecia tão pura… e daí nasceu a música, e eu encontrei meu amigo mais conhecido como Camaleão, meu amigo Toquinho, e aí nós concluímos a música”

A música, como de costume na época, foi inscrita para um dos festivais da canção da TV Tupi, Feira da Música Popular Brasileira. O desejo era que Gal cantasse a canção, mas ela não tinha disponibilidade de tempo… Assim, ambos apresentaram a música, que ficou em primeiro lugar naquele festival (empatada com “Nada de Novo, de Paulinho da Viola) e foi gravada pelos dois a num compacto compacto que trazia no lado B outra parceria dos dois, Carolina, Carol bela (em homenagem à namorada de Toquinho).

A música tornou-se um sucesso, o primeiro sucesso de Toquinho, que relata: .

Gravamos “Que maravilha” e foi realmente a primeira música minha que fez um grande sucesso. Entrou nas paradas, foi muito tocada no rádio, as pessoas cantavam na rua. Do outro lado do disco tinha Carolina, Carol bela, uma canção também feita por nós. O Jorge Benjor é uma pessoa muito especial, meu amigo até hoje. Tem uma marcante força intuitiva, rítmica e poética”[1]

A música é imagética, narra um encontro na chuva, em que o eu-lírico vai correndo ver a pessoa amada, de branco, molhada e despenteada, que dá a sensação daquele amor descontraído, leve, em que dá vontade de se ver na chuva….

Nos versos seguintes, de Toquinho, completa o cenário urbano, entre bancários, móveis e avenidas, e o casal, alheio a tudo, prestes a se abraçar, e a girar na chuva. Este instante, o instante em que antecede o abraço seguido de um rodopio na chuva, confere uma leveza que justifica o sucesso da canção…

«Toquinho  » Primeiras composições e parcerias»http://www.circuitomusical.com. Consultado em 25 de agosto de 2014

TOQUINHO
Coleção Histórias de canções. De João Carlos Pecci e Wagner Homem. Ed. Leya,

O que se quer – Marisa Monte e Rodrigo Amarante

O dueto com  Rodrigo Amarante (em “O que se quer”) é um dos pontos altos do disco de Marisa Monte, “O que você quer saber de verdade”, em 2011. É uma música gravada em primeira pessoa. Música alegre, leve, descontraída, em que o eu-lírico dialoga com alguém  (que pode ser tanto uma pessoa determinada quanto indeterminada) reafirmando que vai viver o amor, a paixão, o desejo.  

Nesse diálogo, o eu-lírico diz para seu interlocutor que ele pode falar, advertir, escrever, que não vai adiantar, pois de nada adianta dizer que viver aquilo é loucura, besteira, ou noutras bobagens do tipo, pois o eu-lírico está disposto a se entregar, pois, naquela situação, “quem não faria?”

A canção fala de alguém que não vai hesitar em se entregar ao desejo, estando disposto a pagar para ver onde vai dar essa manifestação, mesmo com todas as possíveis advertências e admoestações. 

E não há dúvida de que o ímpeto de se entregar ao desejo é maior, e a certeza de que vai valer a pena superar as restrições de algo certamente complicado, proibido, cheio de perigos, medos e circunstâncias, e não recomendado pela razão. 

E nesse risco, de viver o desejo sem culpa, sem medo daquilo que a sorte, ventura ou destino determinam, e, desta forma “sabe quem quer, sabe quem tem, o que se quer“.

Uma nota interessante sobre esse dueto, é a leveza da composição, cuja maior parte da letra é de Amarante, contrastando com as composições predominantemente melancólicas da época dos Los Hermanos, e com as canções solo de Marcelo Camelo. 

Marisa Monte e Rodrigo Amarante. | Cantores, Musica, Marisa monte
Marisa Monte e Rodrigo Amarante

Rodrigo Amarante canta e toca em ”O que Se Quer”: violão, viola, teclados, baixo, drum machine e percussão;


Sendo a primeira parceria de Marisa e Amarante, ela, numa entrevista que deu a Adriana Calcanhotto, disponível no próprio site oficial da cantora (http://www.marisamonte.com.br/pt/conversas/conversa-com-adriana-calcanhoto), ela conta como se deu essa parceria, que acabou se transformando num dueto…

O Que se Quer - Marisa Monte e Rodrigo Amarante (cover por Bruno Fonseca e  Nicole Della Courtte) by Bruno Fonseca playlists on SoundCloud

Marisa: (…) a música que eu me lembro de ter feito durante o processo foi consequência da minha passagem por Los Angeles, quando encontrei o Rodrigo Amarante. Eu nunca tinha feito nada com ele, mas existia uma vontade mútua. Um dia a gente se encontrou no estúdio porque a gente gravou uma música para o último Red Hot + Rio, “Nu com a minha música”, de Caetano Veloso e Devendra Banhart. Durante esse tempo em que a gente estava no estúdio, pintou a ideia de uma música. Ela já veio com algumas palavras, uma coisa que a gente fez junto na hora, já com alguns pedacinhos de letra. Depois, ele continuou sozinho. Quando ele veio ao Rio, ele trouxe o que ele tinha feito. Aí, demos aquela arredondada e eu achei que ela tinha a ver com o resto do disco todo. Ela fala sobre saber o que se quer e sobre pagar o preço do que se quer, mesmo parecendo loucura para todo mundo em volta. A música é na primeira pessoa e ela diz: “Vá, pode falar, pode escrever, eu vou me entregar”. É sobre o reconhecimento e a conquista do desejo.

Bem, se alguém quer viver algo que sua sensibilidade diz ser especial, e sabe que ouvirá conselhos “razoáveis” em sentido contrário, recomendo que se escute a canção “O que se quer”… talvez seja o empurrão que o desejo precisa para se tornar real… e não é que pode valer a pena? 

A letra: 



Pode falar
Pode escrever
Eu vou me entregar
No meu lugar
Quem não faria
Diz que é loucura
Diz que é besteira
Mas eu não vou ligar
Não tente entender
E o tempo dirá
A sina é sonhar
Eu pago pra ver
Qual meu lugar
Que a vida é um dia
Um dia sem culpa
Um dia que passa
Aonde a gente está
Mas se eu tenho tanto a perder
Eu perco é o medo
Do que a sorte lê
Sabe quem quer
Sabe quem tem
O que se quer 

Pérola Negra, te amo, te amo…

“Pérola Negra”, de Luiz Melodia, é uma dessas músicas atemporais. Como num diálogo do eu-lírico à pessoa amada, a letra mistura uma série de conselhos e exortações, em que pede que o objeto do desejo tente fazer algumas coisas, muitas das quais com o objetivo de despertar empatia “tente passar pelo que estou passando…/ tente usar a roupa que estou usando”

E continua com um pedido em que a pessoa amada diga ao eu-lírico, seja com sangue escrito num pano, seja num quadro em palavras gigantes… “Pérola Negra, te amo, te amo”, embora o próprio eu-lírico suscite dúvidas se mesmo ama…

Muito se diz sobre quem seria a inspiração da canção, embora pareça, pela letra, que o “Pérola Negra” é o próprio Luiz Melodia. A lenda mais conhecida é que seria um travesti que seria apaixonado por Luiz.

Numa entrevista concedida a José Mauricio Machline, no programa “Por Acaso”, em 2003, ele afirmou:

Luiz Melodia: no dia seguinte, o seguinte falhou – M.O.V.I.N [UP]

Era um travesti muito amigo, muito amigo mesmo. Edilson, não é vivo hoje . e quando eu compus a música, o nome era “My black, meu nego”. O Waly Salomão era muito meu amigo –   como é até hoje – e estava sempre lá no São Carlos onde fui nascido e criado, onde vira e volta ainda visito meus amigos e tal. Ele deu a ideia de pôr o nome do Pérola Negra que era esse travesti né. E daí por diante depois que a música saiu foi sucesso, aconteceu na voz de Gal Costa e enfim ficou conhecida, e aí começou esse papo que eu tinha feito essa música pro Edilson que é esse travesti o Perola Negra no caso.

Mas a história está bem contada no livro que Toninho vaz escreveu sobre Luiz Melodia, chamado “Meu Nome é Ébano”

Foi nessa época (1969) que Luiz compôs a música que representaria um salto de qualidade nas suas composições, algo bem mais elaborado, tanto na letra quanto da melodia. A música foi batizada por ele de “my black, meu nego”, referência ao estilo de certa moça para a qual ele direcionava seus olhares apaixonados. A fonte de inspiração se chamava Marlene Selix, tinha 15 anos e morava na Freguesia, Zona Norte da cidade (Luiz tinha 18 anos na época). Era sobrinha de Antonio, colega de farda de Luiz no quartel. Um dia, Luiz foi conhecer a família do amigo e… aconteceu.

Mas há controvérsias, pois outras duas mocinhas, de nome Rosângela, também foram apontadas por amigos como as verdadeiras pérolas negras. E havia também uma terceira hipótese, um travesti do Estácio chamado pérola negra, que teria inspirado o nome.

Mas a inspiração verdadeira para a música era mesmo a Marlene da Freguesia, como confidenciou Luiz ao programa Fantástico.

Numa entrevista no Fantástico, Luiz Melodia recordou a composição. “Pérola Negra é uma mulher. Mas tinha composto pra uma menina que eu namorava na época em que estava servindo o Exército. A mulher brasileira é uma fonte, posso dizer assim, de inspiração em cinquenta por cento das minhas composições”, disse.

Para o Jornal “o Dia”, em 2013, Melodia disse que compôs “inspirado por uma menina com quem eu saía quando tinha uns 18 anos. Mas eu era o segundo cara. Quando o namorado dela chegava, eu tinha que sair correndo pelos fundos”.

Já em 1970, Luiz tocou, Waly Salomão ouviu a música, adorou, mas foi incisivo em relação à letra: Não precisa ser em inglês. Deve se chamar, Pérola Negra, como está no refrão.

LUIZ MELODIA- PÉROLA NEGRA (ORIGINAL) - YouTube

Waly apresentou Luiz Melodia a Gal Costa, que se impressionou com o talento de Luiz e pediu uma canção a ele.

75 Anos de Waly Salomão — Rádio Senado

Ele então, compôs para Gal a canção “Presente Cotidiano”, cuja letra foi vetada pela censura federal na época. Assim, Waly sugeriu e a música de Luiz melodia escolhida foi “Pérola Negra”, que foi inserido num dos shows icônicos de Gal: “Fa-tal: Gal a todo vapor”.

Presente cotidiano (feat. Gal Costa) - Luiz Melodia - Video - Music Store

Embora Ângela Maria tivesse gravado Pérola Negra em 1971, foi com a voz de Gal que Luiz se torou conhecido,  quase quando estava desistindo da música…

“Aquele preto que você gosta” – A amizade de Caetano e Gil e o Axé Music

A amizade entre Caetano e Gil é algo raro na Música Brasileira. Amizade de mais de 50 anos, de duas grandes referências da música brasileira. História recheada de episódios marcantes, como o Movimento Tropicalista, a prisão em comum, o fato de terem casado com irmãs (Dedé e Sandra Gadelha), o exílio em Londres, enfim: trata-se de uma história de admiração recíproca.

Um dos  episódios mais interessantes ocorreu quando Caetano e Gil ainda não tinham uma relação próxima de amizade, no começo da Década de 60.

DOCUMENTÁRIO SOBRE A PRISÃO DE CAETANO VELOSO LEMBRA UM INFERNO PELO QUAL  EU PASSEI 4 MESES DEPOIS - Jus.com.br | Jus Navigandi

Na ocasião, segundo Caetano revela em seu livro Verdade Tropical (Cia das Letras, 1997, p. 283)

Por volta de 62, 63, vi na TV Itapoan (a televisão só chegara a Salvador em 60) um rapaz preto que cantava e tocava violão como os melhores bossanovistas. Sua musicalidade exuberante, sua afinação, seu ritmo e sua fluência me entusiasmaram. Era excitante que pudesse haver por perto alguém tão especial. A TV dava a ilusão de distância, mas eu pensava, com o coração batendo, que, dado o tamanho da cidade – e, sobretudo, do grupo de pessoas da classe artística ou mesmo da classe média -, era provável que eu encontrasse em Salvador esse genial músico de sorriso alegre e sobrancelhas bem desenhadas. Minha mãe, que sempre gostou de música – e sempre gostou que eu gostasse de música -, me ouviu elogiá-lo, e, toda vez que ele aparecia na televisão, me chamava para vê-lo.

Em seguida o mote que virou canção:

“Lembro com muito gosto o modo como ela se referia a ele. Pelo menos ela o fez uma vez e isso ficou marcado muito fundo, dizendo: ‘Caetano, venha ver o preto que você gosta’. Isso de dizer o preto, sorrindo ternamente como ela o fazia, o fez, tinha, teve, tem, um sabor esquisito, que intensificava o encanto da arte e da personalidade do moço no vídeo. Era como isso se somasse àquilo que eu via e ouvia, uma outra graça, ou como se a confirmação da realidade daquela pessoa, dando-se assim na forma de uma bênção, adensasse sua beleza.

73 curtidas, 3 comentários - Danilo Rodrigues Dutra (@danilinho) no  Instagram: “Caetano e Dona Canô ❤ #ArquivosDaUns” | Music history, Back in  the day, Music

Eu sentia a alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele, e por minha mãe saudar tudo isso de forma tão direta e tão transcendente. Era evidentemente um grande acontecimento a aparição dessa pessoa, e minha mãe festejava comigo a descoberta.” –

O Livro “Verdade Tropical” foi editado em 1997.  Antes mesmo disso, a história já era conhecida.

À Primeira Vista - Lyrics and Music by Daniela Mercury arranged by Smule

Neguinho do Samba, o grande maestro do olodum, transformou este episódio num samba de roda, ou se quiserem, numa Axé Music, que foi gravado por Daniela Mercury no disco “Feijão de Corda”, em 1996.

Neguino de SambaNeguinho do samba

O episódio em que Dona Canô, de forma tão natural e direta, chama Caetano para ver na TV “o preto de você gosta” termina por ser um prelúdio de uma história que mudou a música brasileira.

Beija Eu

Em 1991, Marisa Monte lança seu primeiro disco de estúdio, “Mais”. Ela começa a aparecer como compositora, principalmente com suas parcerias com os então Titãs Nando Reis e Arnaldo Antunes.

Depois da explosão de “Bem que se quis”, dois anos antes, “Mais” foi o disco que confirmou a carreira de Marisa, que veio a se consolidar com Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-rosa e Carvão, em 1994.

A primeira música do disco, “Beija eu”,  considerada uma das melhores canções pop da década, tem uma inspiração singela. Arnaldo Antunes inspirou-se no modo com que seus filhos falavam. Disse, então, numa entrevista à Folha:

Já me inspirei muito neles [os filhos]. ‘Beija eu’, por exemplo, tem esse jeito de dizer que era o deles quando pequenos. ‘Pega eu’, Leva eu”, claro que transmitido para uma relação adulta amorosa, só que pegando um pouco a afetividade que vinha da sintaxe que eles usavam comumente”

Aquarelas Culturais: 15 - Beija Eu - Marisa Monte e Arnaldo Antunes

A letra começa justamente com a forma da criança se expressar, na própria visão de Arnaldo, em vez de “me beija”, há o “beija eu”, e isso, trasladado na relação amorosa, começa com um pedido, uma súplica de que o eu-lírico possar ser ele/ela mesmo(a). Em síntese, o recado da primeira estrofe é: ” deixe que eu seja eu mesmo, e aceite o que eu te der”

Seja eu,
Seja eu,
Deixa que eu seja eu.
E aceita
o que seja seu.
Então deita e aceita eu.

Beija Eu – Wikipédia, a enciclopédia livre

Em seguida, há referências claras a um encontro amorosos, com secos e molhados, o dormir e acordar juntos, os corpos tocando, e o desejo de continuidade no anoitecer e no amanhecer.

Molha eu,
Seca eu,
Deixa que eu seja o céu.
E receba
o que seja seu.
Anoiteça e amanheça eu.

Nielson Ribeiro Modro faz uma análise da canção: 

Trata-se da utilização intencional de um ‘ready made’ da linguagem infantil. Segundo declarações do próprio Antunes, sempre que perguntado a respeito, esta é uma estrutura inspirada no falar das crianças, que utilizam estruturas semelhantes na fase inicial da aquisição da fala e só adquirem o domínio da forma átona pronominal numa fase posterior à aprendizagem da forma pronominal pessoal.

A utilização desta forma infantil na canção resulta em frases simples mas de efeito enriquecedor, visto que demonstra uma certa dependência por parte do eu-lírico, como se fosse uma criança indefesa. Esta dependência resulta ainda numa maior proximidade entre o eu-lírico e a pessoa amada, demonstrando que, apesar dos imperativos utilizados, o resultado final desejado é a comunhão amorosa. Pode-se ter, ainda, um remetimento metafórico a uma criança que, apesar de dependente, ordena o que deseja de forma sutil, sempre despojando-se: “então beba e receba/ meu corpo no seu corpo/ eu no meu corpo/ deixa/ eu me deixo”. Ou ainda, a sugestão de que a voz adulta infantilizada resulta numa proposta amorosa ingenuamente maliciosa

Camiseta Beija eu | Vandal

Beija eu,
Beija eu,
Beija eu, me beija.
Deixa
O que seja ser.
Então beba e receba
Meu corpo no seu corpo,
Eu no meu corpo
Deixa,
Eu me deixo.
Anoiteça e amanheça.

Isso acaba fazendo vir à tona aquele jeito que os casais apaixonados às vezes conversam entre si, com voz e jeito de criança, e todas as implicações desse comportamento.

https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/24379/D%20-%20MODRO,%20NIELSON%20RIBEIRO.pdf?sequence=1

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/151171-monica-bergamo.shtml

http://aquarelasculturais.blogspot.com/2011/09/beija-eu-marisa-monte-e-arnaldo-antunes.html

Os Doces Bárbaros – O filme

O ano: 1976. Para comemorar os dez anos comuns de carreira, Bethania chama Caetano, Gil e Gal para formarem um conjunto para se apresentar pelo Brasil. Fazem um repertório especial, com músicas como O seu amor, Esotérico, Pé quente cabeça fria, Um índio, além de Fé cega, faca amolada, de Milton, e Atiraste uma Pedra, de Herivelto Martins.

Tudo isso foi documentado por Tom Job Azulay. E com algumas situações divertidas, e outras nem tanto.

Esfinge Cultural: Resenha de Filme: Documentário "Doces Bárbaros" Mostra  Uma das Fases Mais Criativas de Monumentos da MPB.

Mostra a amizade entre os quatro, a descontração dos ensaios, tudo entremeado com as músicas do show.

Há muito destaque para a prisão de Gil por porte de drogas, ocorrida em Florianópolis, mostrando como houve um “consentimento” para que se entrasse nos quartos do hotel. Gil estava com um cigarro de maconha e mais um pouco para fazer mais um cigarro.

Há filmagem da própria audiência em que ele foi condenado, mostrando o quão, amiúde, a justiça criminal pode ser ridícula. Não dá para deixar de notar o sorriso de Gil enquanto o juiz profere a sentença. No que ele estava pensando? 

Entremeada com as canções, é divertido ver como Caetano e Bethania ridicularizam elegantemente os repórteres que os entrevistam. 

Num determinado momento, um repórter pergunta porque a Banda é “tão doce”. Segue o diálogo: 

Por que um grupo tão doce, tão açucarado, no atual momento da conjuntura nacional?
(Repórter 1).

Não entendi a sua pergunta (Caetano).
Por que o tão doces? (Repórter 1).
Não é tão doces. É Doces Bárbaros. O tão é seu, você é que está falando em nome da conjuntura, então você ponha o tão… (Caetano).
Vai dar um LP dos quatro? (Repórter 2).
Vai, a gente já fez um compacto duplo (Caetano).
Eles já vêm com um esquema comercial montado, não se preocupe (Repórter 1).
Claro! (Caetano).
Não seria mais um produto para consumo imediato? (Diversos repórteres).
Mas é claro que é mais um produto (Caetano).
E vocês estão bem convictos disso. O Gil, agora há pouco, disse que era pra tocar no rádio, pra vender mesmo (Repórter 1).
Não, claro, como todo mundo. Não conheço ninguém que faça o oposto (Caetano).
Não, porque você me perguntou, disse assim: tem umas músicas que você faz de vez em quando pra tocar no rádio, e eu disse: não, eu faço todas pra tocar no rádio. Eu não sou louco. E disse mais: aquela que se chamava “Essa é pra tocar no rádio” nunca tocou no rádio (Gil).

Bethânia também tem a oportunidade de desconstruir tudo o que o repórter pergunta, desde a suposta influência de Caetano na sua carreira, (Bethania deixa claro que ela lançou Caetano) passando pela religiosidade e adesão a movimentos.

Divertida a visita de Baby Consuelo e Paulinho Bocade Cantor aos Doces Bárbaros. 

Valem muitas sensações que o filme passa. O visual do grupo, a voz, ou melhor, as vozes, a beleza de Gal, o cenário que hoje parece tosco, o colorido, o universal e o regional, um certo ar de prazer e de improviso, e, sobretudo, o prazer daqueles quatro excepcionais artistas cantando juntos.

Gal mostra clique antigo e brinca: "Saudade de encontrar os amigos, né,  minha filha?" - Revista Marie Claire | Cultura

Era a invasão dos Doces Bárbaros, que vieram da Bahia para, dez anos depois, consolidar o que tinha trazido o Tropicalismo. Vale a pena.   

segunda 16 julho 2012 21:44 , em MPB

Dois pra lá, dois pra cá, um bolero clássico de Aldir Blanc

Aldir Blanc faleceu em 04 de maio de 2020. Médico psiquiatra, foi como compositor e cronista que ele se notabilizou. Dentre as parcerias musicais – que não foram poucas – a que formou com João Bosco gerou pérolas da música brasileira, que se tornaram eternas. Uma delas é o bolero “Dois pra lá, dois pra cá”, marcado pela interpretação de Elis Regina, em 1974.

A canção, notadamente um bolero, se passa em dois momentos: o primeiro, em que o eu-lírico, tímido, “sentindo um frio n’alma”, convida alguém para uma dança. Parece que o eu-lírico não dança bolero, mas o parceiro de dança acalma: “são dois pra lá, dois pra cá”.

A partir de então a música passa a ser sinestésica, em que há uma série de comparações… o coração treme de forma descompassada, ao contrário do bongô e das maracas que animam a música.

A cabeça roda, como que numa vertigem, em que sobressaem as notas de gardênia do perfume, e as costas macias, cuja lembrança em certa medida atormenta o eu-lírico até o presente.

O bolero torna-se um condutor dos outros sentidos. A sensualidade da cena está na música, no perfume, nas costas macias e na mão no pescoço, e na embriaguez sugerida no “dois pra lá, dois pra cá”

E não há nenhum texto sobre a canção que não faça alusão ao “band-aid no calcanhar”, que protege do atrito do calçado barato, que juntamente com o “falso brilhante” e aos ‘brincos iguais ao colar”, fornecem uma imagem dramática e decadente daquela cena

E a ponta de um torturante band-aid no calcanhar | Elis Regina em Dois Pra Lá, Dois Pra Cá por pedroluiss

E a música termina num presente melancólico, em que o eu-lírico, embriagando-se de uísque com guaraná, relembra a voz dizendo, “São dois pra lá, dois pra cá”

Em diversas entrevistas, Aldir Blanc relatou ter sido uma das letras mais complicadas para colocar na música de João Bosco. Disse, todavia, que a letra veio toda de uma vez depois de uma “esbórnia”, num táxi, de madrugada.

“Não pego lápis nem papel. Escuto, e uma hora a letra começa a vir … Um dia, voltando da casa do Mello (Menezes), tô num táxi e veio: “Sentindo frio em minha alma, te convidei pra dançar”. Aí abre bolsa e não tem papel, não tem lápis, entrei correndo no cafofo da Maracanã (onde morava na época), anotei aquilo tudo, fui desesperado ouvir e tava em cima, do começo à ultima palavra. Dei aquela respirada. Comecei a escrever do primeiro verso e fui até o fim direto.

Coluna | Aldir Blanc vive, Bolsonaro não | Brasil de Fato

Merece também referência à coda que homenageia e cita o bolero “La puerta”, do compositor mexicano Luis Demetrio, acrescentada como coda em fade out nos versos “dejaste abandonada la ilusión que había en mi corazón por ti”.

Enfim, um clássico eter

Sentindo frio em minha alma
Te convidei pra dançar
A tua voz me acalmava
São dois pra lá, dois pra cá

Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor

Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume, gardênia
E não me perguntes mais

A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias

No dedo, um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar

Eu hoje me embriagando
De whisky com Guaraná
Ouvi tua voz murmurando
São dois pra lá, dois pra cá

Dejaste abandonada la ilusión
Que había en mi corazón por ti

Fontes:

http://365cancoes.blogspot.com/2010/12/354-dois-pra-la-dois-pra-ca.html#:~:text=Definitivamente%2C%20%22Dois%20pra%20l%C3%A1%2C,das%20nossas%20can%C3%A7%C3%B5es%20mais%20sensuais.&text=O%20%22dois%20pra%20l%C3%A1%2C%20dois,e%20emparelhado%20dos%20amantes%20bailando.

https://extra.globo.com/tv-e-lazer/em-entrevista-aldir-blanc-revelou-bastidores-de-cancoes-famosas-como-bebado-a-equilibrista-escritas-por-ele-rv1-1-24408959.html