Vinícius de Moraes no “Esta noite se Improvisa”: A “garota” que não existe na Garota de Ipanema

Na década de 60, havia um programa musical que fez história e inspirou muitos programas nos anos seguintes (Silvio Santos que o diga). O nome era “Esta Noite se improvisa”, na qual os concorrentes, todos eles artistas, testavam seus conhecimentos musicais.

O jogo consistia em ser anunciada uma palavra e o participante que soubesse uma letra de música com a palavra em referência, apertava um botão à sua frente e corria até o microfone para cantar um trecho da música que contivesse a palavra. Caso acertasse, acumularia pontos que poderiam ser trocados por prêmios, que podiam chegar até a um automóvel Gordini.

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Grandes artistas  participavam do programa, sendo Caetano Veloso e Chico Buarque os competidores mais competentes. (Conta a lenda que Chico Buarque, num desses programas, inventou uma letra e melodia na hora).

Assim Blota Jr. anunciava:  “A palavra é…”.

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Vinícius de Moraes não era muito bom nesse programa, não por falta de cultura musical, óbvio, mas por não ser suficientemente ágil para apertar o botão.

Só que, como narra Humberto Werneck em seu Gol de Letras (Cia das Letras, 1989), certa vez Blota Jr. teria anunciado:
– A palavra é… “garota”.

Desta vez Vinícius de Moraes não perdeu tempo: pressionou o botão, dirigiu-se sorridente ao microfone, e começou a cantar sua bela parceria com Tom Jobim: “Garota de Ipanema”.

No entanto, um detalhe: na letra de “Garota de Ipanema” não existe a palavra “garota”… e, ao contrário daquela que passava cheia de graça e inspirava a canção, Vinícius retornou a seu posto, completamente sem graça.

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Para quem não se lembra, olha aqui a letra de um dos maiores clássicos da música brasileira:

Garota de Ipanema – 1962
Composição: Vinícius de Moraes / António Carlos Jobim

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Fonte: Gol de Letras, de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 1989).

quarta 22 dezembro 2010 08:45 , em Bossa Nova

 

Na tonga da mironga do Kabuletê

Começo da década de 70. Vinícius de Moraes iniciava sua parceria com Toquinho, morava em Salvador e era há pouco casado com a baiana Gessy Gesse.

O Brasil está naquela fase do “Pra Frente Brasil”. De um lado, o chamado “Milagre econômico”. De outro, censura, ditadura, repressão.

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Vinícius, ateu “graças a Deus”, se aproxima do candomblé, seguia uma vida sem muitas regras. Um dia, estava em casa com Toquinho, quando Gesse entra pela porta e grita: “Na songa da mironga do Kabuletê!”, afirmando que se tratava de um xingamento que ela ouvira no Mercado Modelo.

Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la no Teatro Castro Alves, para a apresentação oficial da dupla.

Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa.

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E o poeta ainda se divertia com tudo isso: “Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”. Assim, mudaram “songa” por “tonga” e Vinícius mandou todo mundo à “Tonga da Mironga do Kabuletê”.

Mas o que significa?

Segundo o livro “Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia (Cia das letras, 1994), significava “pelo do cu da mãe”. Procurando em sítios digitais, encontram-se outros significados, ou mesmo que a sonoridade não tem sentido nenhum.

No video acima, Toquinho conta a história….

 

Eu caio de bossa eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa xingando em nagô
Você que ouve e não fala / Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala / Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
Você que lê e não sabe / Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe / Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Você que fuma e não traga / E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê

Fontes: Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão; uma Biografia. (Companhia das Letras, 1994); História das canções: Vinícius de Moraes (Leya, 2013).

Originalmente publicado em  11 abril de 2014 09:37 , em Clássicos da Música Brasileira

Acabou chorare – A canção título

De uma abelhinha pousando na mão de Galvão à mistura de línguas de Bebel Gilberto, nasceu uma das obras primas dos Novos Baianos, parceria Moraes/Galvão. Acabou Chorare.

O álbum Acabou Chorare é a obra-prima dos Novos Baianos, escolhida pela Revista Rolling Stone, não por acaso, como o melhor disco brasileiro de todos os tempos.

Os Novos Baianos, no começo da década de 70, era um grupo de rock, Hippie, inspirado em Jimmy Hendrix e no Tropicalismo. Mas tudo mudou quando o grupo  conheceu João Gilberto e se reinventou com o samba. João era amigo de infância e conterrâneo (Juazeiro-BA) do principal letrista do Grupo, Luiz Galvão.

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Quando João foi visitar o grupo no apartamento em que todos compartilhavam em Botafogo, os Novos Baianos eram roqueiros, elétricos, quando João plantou a semente do samba no grupo (aliás, o encontro de João com os Novos Baianos merece uma postagem autônoma).

Surgiu daí, sob a influência de João Gilberto, o álbum que mudou a história da Música:Acabou Chorare.

A canção título do álbum é absolutamente joãogilbertiana. Apenas com o violão de Moraes, a música começa com as firulas vocais, e parece uma canção de ninar, com o bu-bu-li-lindo uma música feita “de manhã cedinho”, as onomatopéias da abelhinha fazendo “zum zum e mel” e o “suave mé” do carneirinho

O título da música se deve a uma expressão utilizada, na época, por Bebel Gilberto, filha de João Gilberto e Miúcha. Ela, bem pequena, costumava misturar português e espanhol, por causa de uma temporada em que ela vivia no México.

Bebel teria tomado um tombo, e quando João e Miúcha foram acudi-la, e quando viu os mais velhos em volta, aflitos para saber se ela tinha se machucado, ela teria dito: “Acabou chorare, papai”.

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Mas o título veio depois de um episódio que Galvão, autor da letra, conta no blog https://osnovosbaianos.wordpress.com

…uma abelha, que a imagino sobre natural, pra ser capaz de voar alto ao ponto de chegar ao quarto andar daquele apartamento de cobertura e entrar no meu quarto, vindo em meu socorro. Encantado em movimento automático estendi-lhe a mão direita e ela sentou na palma no centro do EME.

 Depois de uma respirada de alívio Eu brinquei com ele dizendo: “Não fique triste Barbudo que ela também pousa em você.” Dito isso a abelha sentou no seu rosto. O Barbudo deu uma risada mostrando uma satisfação que beirava êxtase. Eu falei: “É que sua mãe botou néctar no seu rosto, você é uma flor Barbudo, e não fique com inveja que ela senta em você também ”. Ele, na maior ingenuidade, falou: “Vamos dar açúcar para ela”. A abelha parece que ouviu e desapareceu pelas frestas da janela….

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À noite fui ao Leblon no apartamento de Ronaldo Duarte, para convidá-lo para ser o fotógrafo câmara do filme. Ele aceitou e resolveu mudar-se com sua companheira Sosó que era filha do grande artista plástico argentino/baiano Caribé. (…) Eu nem tinha esquentado o sofá e a abelhinha que fizera amizade comigo na madrugada daquele dia, voltou a sentar na minha mão. Falei: Essa abelha já esteve comigo hoje lá em Botafogo. As pessoas presentes espantaram-se achando que eu estava doido.

É por acreditar Ipsis Litteris* nessa versão, que fiz a letra da música Acabou Chorare, na qual consegui uma linguagem poética angelical. É o que sinto dizerem, sem abrir a boca, as crianças e os adultos com corações meninos.

Alguém pode até argumentar que era outra abelha, mas vai ficar falando sozinho porque a minha relação com esse insetozinho do bem e reservado ao máximo é profunda ao ponto de até hoje elas, as abelhas sentarem na minha mão e no meu rosto, deixando os presentes assustados. E na maior tranquilidade não permito que as espantem. Quando isso acontece acredito ser sinal de boa sorte naquele dia.

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Telefonei para João Gilberto contando que estava fazendo uma letra sobre essa relação com a abelhinha. João disse: “Puxa Luizinho! ( É assim que ele me chama) Eu estava falando com o poeta Capinan e ele lembrava que a abelha beija a flor e faz o mel, e eu gostei e completei: ‘E ainda faz zun-zun”. Perguntei a João: “Posso usar isso?” E ele aprovou dizendo: “Deve”.

Não parou por aí, João contou-me que sua filha Bebel Gilberto, nascera no Brasil e pequena ainda morara nos Estados Unidos, e logo se mudara para o México. Ali naquele país a menina levara uma pancada, e ele, João, preocupado, com a aflição de pai nessas horas, foi acudi-la, mas Bebel reagira corajosamente e, na sua inocência de criança, falando uma língua em formação, o acalmou assim: “Não! Não! Acabou Chorare”. E deu uma risadinha escondendo a dor. Escrevi a letra pronta mostrei a Moraes que colocou a música na hora

Foi a inspiração para que os Novos Baianos fizessem sua “canção bossa nova”. Bebel Gilberto chegou a gravar, junto com Carlinhos Brown, em 2009, a música feita em sua homenagem. Mas desentendimentos com produtora Paula Lavigne fizeram com que a canção ficasse fora do seu novo álbum “all in one”.  Mas ela acabou gravando na compilação “Red Hot + Rio 2”

Novos Baianos, João Gilberto, bossa-nova e o melhor da música brasileira.

Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bulindo
No bu bu bulindo
No bu bu bulindo

Talvez pelo buraquinho, invadiu-me a casa, me acordou na cama
Tomou o meu coração e sentou na minha mão

Abelha, abelhinha…

Acabou chorare, faz zunzum pra eu ver, faz zunzum pra mim

Abelho, abelhinho escondido faz bonito, faz zunzum e mel
Faz zum zum e mel
Faz zum zum e mel

Inda de lambuja tem o carneirinho, presente na boca
Acordando toda gente, tão suave mé, que suavemente
Inda de lambuja tem o carneirinho, presente na boca
Acordando toda gente, tão suave mé, que suavemente

Abelha, carneirinho…

Acabou chorare no meio do mundo
Respirei eu fundo, foi-se tudo pra escanteio
Vi o sapo na lagoa, entre nessa que é boa

Fiz zunzum e pronto
Fiz zum zum e pronto
Fiz zum zum

Fontes: GALVÃO, Luís: Anos 70: Novos e baianos. São Paulo: Editora 34, 1997; MOREIRA, Moraes. A história dos Novos Baianos e outros versos. Rio de Janeiro: Língua Geral Editora, 2007;

https://osnovosbaianos.wordpress.com/2011/08/02/acabou-chorare-a-verdadeira-historia/

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u637721.shtml

quinta 24 junho 2010 10:04 , em MPB

As mulheres e suas canções – Lígia

Lígia é uma das mais belas composições de Tom Jobim. Eu a conheci (a música, não a musa) no disco Sinal Fechado, que Chico Buarque gravou em 1974 interpretando outros cantores, devido à dificuldade de aprovação de suas músicas pela censura federal, na época da ditadura

No entanto, a letra que foi gravada por Chico Buarque tem alguns “toques”, distintos da versão original, composta em 1972. Nas duas versões, há o relato de uma história que não aconteceu, uma “não-história”, na primeira versão, o eu-lírico nunca ligou porque “sabia” e “jamais ousaria”; na segunda, ligou e foi engano, esquecendo no piano as bobagens que iria dizer

Na primeira versão, o sujeito diz que não se apaixonou, mas fatalmente que sentiria tanta dor  “pra depois te perder”. Na que foi gravada por Chico, confessa-se a paixão, mas que se revela uma ilusão, decorrentes de mentiras de amor…  A primeira versão fala de ilusão; a segunda, de desilusão.

Na última estrofe das duas versões, a rendição. As letras são diferentes, mas ambas dizem sim aos olhos castanhos/morenos que metem “mais medo que um raio de sol”.

A título de curiosidade, na revista Maria Claire 16 de novembro de 2000, achou-se a musa das canções. Segue o link para a matéria, com o trecho transcrito abaixo:

http://marieclaire.globo.com/edic/ed116/rep_inspiracao2.htm

 
“Os olhos verdes da carioca Lygia Marina de Moraes são morenos na letra de “Lígia”. Um disfarce da identidade da musa e da atração de Tom Jobim por ela. Tom e Lygia, professora de pré-primário de uma das filhas do compositor, se conheceram em 1968, no bar Veloso, em Ipanema. Nunca houve nada entre os dois, mas aquele encontro daria origem ao samba-canção gravado por Chico Buarque no LP “Sinal Fechado”, em 1974. “O Tom vivia de olho nela”, diz o jornalista Ruy Castro, que registrou o episódio no livro “Ela é Carioca” (Cia. das Letras).

Por muitos anos Tom negou que Lygia fosse sua musa, em respeito ao amigo Fernando Sabino, marido dela na época. Só em 1994, quando o casal se separou, ele admitiu a inspiração aos amigos. Hoje, aos 54 anos, Lygia mora sozinha e dirige o departamento cultural da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Ela recorda com orgulho os detalhes de seu caso jamais consumado com Tom Jobim.

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Lygia Marina de Moraes “Conheci o Tom em uma tarde chuvosa. O bar Veloso estava vazio, era junho e fazia frio. Eu e uma amiga, Cecília, nos sentamos na varanda e vimos o Tom conversando com Paulo Góes [fotógrafo]. Os dois acabaram se sentando na nossa mesa. Quando contei ao Tom que era professora da sua filha Beth, ele teve um ataque de riso e disse: ‘É a primeira vez que paquera vira reunião de pais e mestres!’. E eu babando: imagine, em 68, Tom era um dos homens mais lindos do Brasil.

Ele tinha que dar uma entrevista a Clarice Lispector para a ‘Manchete’, e convidou a mim e a Cecília para ir com ele. Fomos no fusquinha azul-claro do Tom. Eu usava uma saia de lã e um suéter de cashmere. Ao abrir a porta, Clarice fez cara de mau humor. Tom, abraçado comigo e com Cecília, disse: ‘Trouxe minhas amigas’. Ela ficou mais furiosa quando pediu a Tom que fizesse um poema para ela, como Vinícius [de Moraes] teria feito em entrevista anterior, e ele disse: ‘Não sou poeta, se tivesse um violão…’.

Mas aí pegou um bloco de papel-jornal e escreveu um poema para mim, que guardo até hoje: ‘Teus olhos verdes são maiores que o mar/ Se um dia eu fosse tão forte quanto você/ Eu te desprezaria e viveria no espaço/ Ou talvez então eu te amasse/ Ai que saudades me dá/ Da vida que eu nunca tive’, e assinou: A.C.J.

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Saindo de lá, Tom me levou em casa. Nos despedimos no carro, com um beijinho no rosto. Fiquei nervosíssima, mas parou ali. Tom era casado… Aquela carona foi nosso único encontro a sós. A música fala de tudo o que não aconteceu: o cinema, o passeio na praia… Depois nos encontramos muitas vezes, mas sempre em grupo. Logo me casei com o cineasta Fernando Amaral e entrei para a turma. Vivi o auge de Ipanema.

Após quatro anos de casada e um filho, me separei. Depois me casei com o escritor Fernando Sabino. Em 1973, acho que Tom não sabia que eu estava casada com ele, e ligou para o Fernando pedindo meu telefone. Meu marido fez uma sacanagem: deu um número errado. Em seguida, ligou para o telefone que tinha dado e avisou: ‘O Tom Jobim vai ligar aí procurando uma Lígia, mas o telefone é tal’, e deu outro número errado. Os amigos ficaram sabendo dessa história, inclusive o Tom. Talvez daí tenha surgido a frase na música que fala do telefonema que foi engano.

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Estava sozinha em casa quando ouvi no rádio o Chico cantando ‘Lígia’, pela primeira vez. Fui correndo comprar o disco. Na hora, me vi na letra. Ser homenageada já é maravilhoso, ainda mais pelo Tom, com uma música linda e sofisticada… É uma glória. Claro que a música rendeu comentários e Fernando ficou uma fera. Durante os 19 anos em que fui casada, Tom evitou o tema. Estivemos juntos em vários lugares, tipo réveillon na casa de Jorge Amado, eu com Fernando e Tom com Ana, sua segunda mulher. Mas ninguém falava nisso.

Um dia, Tom me encontrou por acaso na Cobal [sacolão e ponto de encontro] e falou: ‘Está chegando minha musa!’. Foi a primeira vez que admitiu para mim. Até hoje, em cada boteco que entro tocam ‘Lígia’. Faz parte do meu show. Fiquei imortal. Tenho quase todas as gravações de ‘Lígia’. Existe até uma versão do João Gilberto em que, ao contrário da oficial, o romance acontece e Tom até se casa comigo. As pessoas me cobram o fato de nunca ter acontecido nada entre a gente. Mas será que não foi melhor ter ficado essa fantasia? Talvez tivesse de ser essa a história: eu virar musa, entrar em um restaurante e me lembrar do Tom, cheio de charme”.

 

L Í G I A

1a. versão (João Gilberto)

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
Eu nunca te telefonei
Para que se eu sabia
Eu jamais tentei
E jamais ousaria
As bobagens de amor
Que aprendi com você
Não, Lígia, Lígia

Sair com você de mãos dadas
Na tarde serena
Um chope gelado
Num bar de Ipanema
Andar pela praia até o Leblon
Eu nunca me apaixonei
Eu jamais poderia
Casar com você
Fatalmente eu iria
Sofrer tanta dor
Pra no fim te perder
Lígia, Lígia.

Você se aproxima de mim
Com esses modos estranhos
E eu digo que sim
Mas seus olhos castanhos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Lígia, Lígia.

2a. versão, com alguns 
toques de Chico BuarqueEu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei
Desliguei, foi engano
O seu nome eu não sei
Esqueci no piano
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Ligia, LigiaEu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado
Em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba-canção
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
Ligia, Ligia

E quando você me envolver
Nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Ligia, Ligia

 

 

 

quinta 20 maio 2010 07:17 , em Mulheres e suas canções

Mark Davis – Sabe quem é?????

Há um cantor bem conhecido do público, que faz ainda hoje muito sucesso entre as mulheres, que muitos poucos sabem, começou sua carreira cantando em inglês, como era muito comum no começo da década de 70, quando muitos cantores brasileiros gravavam e cantavam em inglês. Estou falando de Mark Davis, mais conhecido como…. melhor não dizer ainda… vamos dar algumas pistas…

Esse Cantor começou desde cedo, na década de 60, chegou a fazer vocais nos discos de Ronnie Von no final da década de 60, e chegou a fazer parte de uma banda chamada Uncle Jack, que cantava em inglês, até o ponto de se transformar em Mark Davis, um cantor que não sabia falar nada em inglês, mas cantava músicas em inglês.

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O tal cantor, dando uma entrevista já com seu nome original no sítio http://www.jovemguarda.com.br, revelou que compunha as músicas num estilo completamente “meia-boca”, do tipo, com um dicionário em inglês debaixo do braço, viam palavras que rimavam umas com as outras, e daí saíam as letras.

Numa dessas, saiu o maior hit de Mark Davis: “Don´t let me cry”, música que segue no video acima. Dá para reconhecer pela voz??? Prestem atenção…

A música fez sucesso e saiu o disco abaixo:

01 – I Need You Forever
02 – Rain and Memories
03 – Don’t Let Me Cry
04 – Aria For the Lovers
05 – It’s Time For Us
06 – Take it Easy
07 – Open the Window
08 – I Want to Be Free Again
09 – Lady
10 – Please Girl Don’t Say Goodbye

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E não é que o sujeito começou a fazer sucesso cantando em inglês? Ele disse: “… e a gravadora começou a pressionar, para que eu fizesse divulgação: “O Mark davis não vai aparecer?”

Ele recusou-se, pois ele já compunha música em português e já queria ser conhecido por seu nome verdadeiro e por suas canções em português.

Embora a gravadora insistisse que ele continuasse gravando em inglês como Mark Davis, ele acabou insistindo, até que, enfim, gravou um disco com seu verdadeiro nome, e com seu cabelo grande….

Será que por essa foto dá para reconhecer?

Talvez não. Mas o rapaz começou a fazer sucesso como ator.  Sua estreia se deu na novela Nina, mas começou a unir as atividades de ator e cantor num Caso Especial da Rede Globo  chamado “Ciranda Cirandinha”, que se tornou série. E no episódio“Toma que o Filho é Teu”, lançou a música “Pai”, que inspirou a novela Pai Herói, de Janete Clair, em 1979. É claro que estou falando que Mark Davis é Fábio Correa Ayrosa Galvão, Mais conhecido como Fábio Júnior!!!!

 

http://www.jovemguarda.com.br/entrevista-fabiojr.php

Publicado originalmente em maio de 2010 no http://www.musicaemprosa.musicblog.com.br em julho de 2010

 

 

A volta de Netinho ao carnaval da Bahia

Quando anunciaram que Netinho estaria de volta ao carnaval da Bahia, ainda que fosse num camarote, e não num trio elétrico, muito se especulou.

Chegaram a dizer que ele não iria, ou que cantaria apenas 2 ou 3 músicas.

Ledo engano.

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Um dos maiores puxadores de trio de todos os tempos estava lá. Depois de 5 anos, um avc, ficar entre a vida e a morte.

No camarote do Nana.

Sábado de carnaval, 2017.

Muitos só foram lá por causa dele. Outros, só conheciam “Mila” do seu repertório. Pouco importa. Ele conquistou e reconquistou a todos, com positividade, com alegria, com emoção.

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Netinho não estava mais como o “malhado” do final dos anos 90. Estava de turbante, bermuda, colete, um colar vermelho no pescoço e descalço. Disse que iria fazer uma viagem musical pelos anos 90, época de alegria, de positividade…

Começou cantando “Preciso de você”, certamente não por acaso.

A todo tempo, ressaltava a alegria de estar ali. Não tinha a mesma mobilidade. Se apoiava para dar algum pulo. Pediu para diminuir a iluminação porque deixava ele tonto.

Depois de umas poucas canções, chamou ao palco o médico médico Roberto Kalil Filho, do Hospital Sírio-Libanês. Chorando, agradeceu o dom de viver.  Agradeceu a Douglas, seu fonoaudiólogo que recuperou sua voz.

“Em 2013, fui dado como morto em Salvador e em São Paulo uma pessoa me curou. Quem acredita em Deus sabe da força que ele tem. Deus esteve comigo o tempo todo”.

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E tocou o repertório completo. Tocou alguns de seus maiores sucessos desde a Banda Beijo, como “Beijo na Boca”, “Jeito Diferente”, “Barracos”, “A vida é festa”, “Capricho dos Deuses”, “Fim de semana”.

Ao puxar “Estrela Primeira”, disse que só quem pulou carnaval de mortalha, na Avenida, saberia o significado daquilo tudo.

Às vezes, sentava no chão, num banquinho, mas estava firme. Quando tocou a música de Gonzaguinha, “O que é, o que é?”, chorou muito. Muito emocionado, agradeceu. Mas não foi apenas um show comovente, Teve pouco papo e muito som.  Prometeu estar em cima do trio no ano que vem.

E no final, pediu que todos abrissem os braços e dissessem “obrigado”. Obrigado a você, Netinho, protagonista da história do Carnaval da Bahia. Quem já pulou nos Blocos Beijo e Pinel sabe bem disso. Vida longa e muitas canções para Netinho. Fechando esse mês de postagens carnavalescas….

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Timbalada – cada cabeça é um mundo

Um ritmo ou um estilo musical não é bom ou mau, do ponto de vista “ontológico”. Nem toda bossa nova é boa e nem todo sertanejo é ruim. Obviamente, há variações de gosto por quem cultua a música nacional ou estrangeira, ou para quem prefere rock ou axé.

Qualquer gênero de música tem coisas boas, razoáveis e ruins. O discernimento sobre o que é bom ou não dependerá da sensibilidade musical de cada um. Digo isso porque é fácil rotular uma música como boa ou ruim apenas pelo seu estilo, sem uma análise pormenorizada de melodia, ritmo, letra e harmonia. Lembro quando, numa conversa com um amigo completamente rock’n roll (talvez o som mais suave que ele se permitia ouvir era Deep Purple), ele acabou por ouvir a versão de “Girl from Ipanema“, com João Gilberto, Astrud Gilberto, o piano de Tom Jobim e o sax de Stan Getz, e ele terminou por dizer: “Não tenho como dizer que essa música não é boa”.

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Toda essa introdução é para falar de um disco de musica baiana, axé, samba-reggae ou como queiram falar. Para mim, um dos dez melhores discos da música dançante baiana de todos os tempos: “Cada cabeça é um mundo“, lançado pela Timbalada em 1994.

Na época, Carlinhos Brown ainda não tinha carreira solo, e a Banda despontava com três bons cantores (Ninha, Xexéu e Patrícia) e uma batida percussiva firmada nos timbaus, bem distinta da batida de samba-reggae do Olodum, que dominava a música baiana no início da década de 90.

Além da nova batida, o aspecto visual da banda, todos pintados, provocava no público um efeito frenético.

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Quem escuta o disco, percebe uma energia musical impressionante, que contagiam apenas por ouvir a música em estúdio, quanto mais quando tocada ao vivo em cima de um trio elétrico .

O disco é muito bom, dançante, destaco algumas músicas. A minha preferida é “Se você se for“, com uma bela homenagem incidental à marcha carnavalesca “Máscara Negra” (Quanto Riso, ó quanta alegria…”). Tem também as frenéticas “Sambaê” e “Camisinha” (que, injustamente, tornou-se a música mas conhecida do disco). Mas o sucesso dessas músicas se deve à grande voz da história da Timbalada: Ninha, que, segundo consta, começou a compor “Sambaê”  num avião (há um detalhe também. Embora se atribua a Compadre Washington o fato de chamar as mulheres de “ordinária”, oi Ninha, em “Sambaê, que num momento da música, fala “samba ordinária”, antes mesmo da explosão do Gerasamba e do É o Tchan)

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Tem também “Toneladas de desejo”de Carlinhos Brown, que depois ganhou uma versão com Marisa Monte.

Enquanto Ninha cantava as músicas que tinham um ritmo mais acelerado, Xexéu servia como contraponto, cantando músicas mais suingadas, como “Papá Papet”, até a quase  balada “Namoro a dois”. Patrícia complementava como a voz feminina do grupo.

Em relação à Timbalada pode-se dizer mais do que isso. E para tanto, transcrevo a letra de Pracumcum Babá, desse disco:

A rapaziada
Vai cantar num só refrão
Quando ouvir a Timbalada
Timbalando os corações

Reconquistando a importância do timbau
Com seu pracumcum babá
Não se vê nada igual

Tambores ao alto
Marcações a rufar
Aí vem a Timbalada
Timbalando sem parar

Timbalada
Leva eu
Timbalada
Leva eu com meu amor

sábado 22 maio 2010 10:42 , em Musica Baiana

Gilberto Gil – Andar com fé


Dia 26 de junho é o dia de aniversário de Gilberto Gil. E nesse ano de 2020, ele deu um presente especial para todos: uma regravação da música “Andar com Fé”, gravada em 1982 e que parece mais atual e atemporal do que sempre e do que nunca.

Iza, Chico Buarque, Stevie Wonder e mais regravam “Andar Com Fé ...

Gil reuniu  um time de 55 artistas, de Emicida a Stevie Wonder, de Caetano a Margareth Menezes, de Marisa Monte a Frejat, e manda um recado de fé e esperança no dia em que completa 78 anos.      

 

Participaram do cilipe: Alcione; Ana Carolina; Andrucha Waddington; Bela Gil; Bem Gil; Bento Gil; Caetano Veloso; Carolina Dieckmann; Chiara Civello; Chico Buarque; Cicinho; Claudia Leitte; Daniela Mercury; Djavan; Drik Barbosa; Emicida; Fernanda Montenegro; Fernanda Torres; Fióti; Flor Gil; Flora Gil; Francisco Gil; Gabriel Gil; Frejat; Ivete Sangalo; Iza; João Gil; Jorge Ben Jor; José Gil; Julia Mestre; Jullie; Lenine; Lucas Gil; Lulu Santos; Margareth Menezes; Maria Gil; Mariá Pinkusfeld; Marília Gil; Marisa Monte; Milton Nascimento; Nando Reis; Nara Gil; Nino Gil; Pedro Gil; Preta Gil; Rael; Regina Casé; Roberta Sá; Rogério Flausino; Silva; Sol de Maria S; Stevie Wonder; Teresa Cristina; Zeca Pagodinho

 

A história da canção é contada no disco “Todas as letras”, de Gilberto Gil e organizado por Carlos Rennó (Cia das letras, 1996). O grande mote da canção  é a utilização da expressão “faiá” em vez da linguisticamente correta “falhar”.

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Gil explica, no livro, a utilização desse recurso:

O uso do ‘faiá’ é assumido com a intenção de legitimar uma forma popular contra a hegemonia do bem-falar das elites. É uma homenagem ao linguajar caipira, ao modo popular mineiro, paulista, baiano – brasileiro, enfim – de falar ‘falhar’ no interior. É quase como se a frase na canção não pudesse ser verdade se o verbo fosse pronunciado corretamente – o que seria um erro…Outro dia cometeram esse ‘deslize’ na Bahia, ao utilizarem a expressão na promoção de uma campanha de cinto de segurança. Nos outdoors, saiu: ‘a fé não costuma falhar’ (a propaganda associava o cinto à fitinha do Senhor do Bonfim). Eu deixei, mas achei a correção desnecessária.”

 

Mais adiante, Gil Arremata:  “Faiá é coração, falhar é cabeça, e fé é coração”

Nestes dias tão complicados, nada mais do que fazer uma referência à fé. E nada como receber um abraço virtual de tanta gente, o que demonstra o quanto Gilberto Gil é não apenas um grande artista, mas uma pessoa muito querida. 

Parabéns, Gil

terça 18 maio 2010 20:39 , em MPB

Axé: Canto do povo de um lugar

Você já assistiu “Axé: canto do povo de um lugar?” Não, então vá… parafraseando Caymmi na sua conhecida canção “Você já foi à Bahia?”, o filme de Chico Kertesz faz uma recapitulação histórica de um movimento musical que surgiu nas ruas, no carnaval, como algo espontâneo, e que tomou conta do Brasil.

Tudo aquilo que foi de mais importante foi, de uma forma ou de outra, contada no documentário: a importância do trio elétrico, a influência da música negra, os blocos de trio, tudo isso ganhou seu destaque.

 

Os principais artistas também passaram por lá. Na década de 80 e 90, Luiz Caldas, Sarajane, Olodum,  Gerônimo, Banda Reflexu’s, Chiclete com Banana, Aas de Águia, Cheiro de Amor, banda Mel (nas suas várias composições), Netinho e Banda Beijo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Timbalada, Araketu, Ivete Sangalo, É o Tchan, Psirico, Terra Samba, Claudia Leitte e Saulo Fernandes.

Vale também por personagens que estavam nos bastidores, como Wesley Rangel, Cristóvão Rodrigues…. outros personagens que eram também importantes, como Marcionílio, Missinho, Ademar….

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Não estiveram de fora as grandes histórias dos bastidores. Como Luiz Caldas foi parar no programa do Chacrinha, como a Banda Beijo acabou acionando os alarmes das casas num trio elétrico em Turim, como Daniela Mercury parou a Avenida paulista, como surgiu a express~]ao “Axé Music”. Várias vezes se vê artista baianos e multidões, no trio e em palcos, seguindo e levantando as mãos.

E não faltaram também os grandes sucessos. “Fricote”, “Faraó”, “Eu sou negão”, “O canto da Cidade”, “Beijo na Boca”, “É o Bicho”, “Grito de Guerra”, “A Roda”, “Alô paixão”, “Madagascar Olodum”, “Prefixo de Verão”, “Baianidade Nagô”, “É D’Oxum”, “Raiz de todo bem”.

Mas o eu vale o filme é a sensação de pertencimento. Alguém que não é baiano olhará o filme com outros olhos. A crítica especializada dos principais portais fala com uma certa condescendência do tom de exaltação. Mas ainda há muito a dizer.

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A música baiana foi a primeira que não teve vergonha de ser escancaradamente feliz. Surgida no momento da redemocratização do Brasil, a música da Bahia tinha ritmo e picardia. Pode-se falar de letras e refrões onomatopeicos, mas quando se compara com as letras atuais, percebe-se que a crítica não tem tanto fundamento assim.

Uma música que celebrava o negro baiano, que via na música o orgulho de ser negro.  Música que era feita para dançar, que não tinha “rock doido”, como dizia uma conhecida canção do Olodum.

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Uma música jovem, de sucesso, cheia de energia, que bebia de raízes da África a Pernambuco, da Salsa caribenha ao galope nordestino, e que não precisava da chancela do eixo Rio-São Paulo. Que Paul Simon e Michael Jackson foram buscar no Brasil.

Uma música surgida nas ruas, das ruas para as rádios, e não o contrário. Por isso o título é apropriado. Canto do povo de um lugar. Uma manifestação que faz parte da identidade de baianos, que faz rir e emocionar…

Pra quem gosta de música; pra quem gosta da Bahia; pra quem gosta de história; pra quem gosta de cultura; pra quem não resiste ao som dos tambores; pra quem quer rir ou se emocionar; pra quem quer, de alguma forma, se ver em algum momento dessa história….

“Grito de alerta” – Entre Gonzaguinha e Aguinaldo Timóteo

 

Aguinaldo Timóteo é um cantor relacionado com a música romântica derramada, tido como um cantor brega, bem do estilo popular.

Gonzaguinha firmou-se como um grande compositor da MPB, cujo sucesso surgiu a partir dos festivais universitários na década de 70. O fato de ser filho de Luiz Gonzaga não fez da música de Gonzaguinha uma música de povão, como eram os forrós e baiões do velho Lua

De um lado, um cantor com um vozeirão, com  letras fáceis e apelo  popular. Do outro, um cantor da elite universitária, com letras engajadas e um estilo mais contido. O que eles teriam em comum?

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Segundo Paulo Cesar de Araújo, no seu livro Eu não sou cachorro não (Rio de Janeiro: Record,2005), há uma história que envolve a criação da música Grito de Alerta, que veio a ser gravada por maria Bethania.

Gonzaguinha e Timóteo eram contratados da mesma gravadora (EMI) na década de 70 e acabaram tornando-se amigos. Segundo Araújo, Gonzaguinha  não escondia uma certa admiração por Timóteo, pois este “sabe segurar a barra de viver o permitido e o não permitido”.

Ambos também possuíam fortes convicções políticas, nem sempre coincidentes, mas isso não impedia a amizade entre eles.

Conta Araújo que numa certa madrugada, no final dos anos 70, Gonzaguinha ouviu Timóteo queixar-se de seus desencontros do relacionamento com Paulo Cesar Souza, o Paulinho (para quem Timóteo compôs A bolsa do posto três, sucesso na década de 70). O resultado da conversa foi a composição Grito de alerta, título sugerido pelo próprio Timóteo: “Primeiro você me azucrina/ me entorta a cabeça/ e me bota na boca/ um gosto amargo de fel…”

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Gonzaguinha, contudo, não deu exclusividade da gravação para o amigo, e Grito de alerta foi entregue também a cantora Maria Bethânia – fato que provocou o ciúme de Timóteo, que, numa entrevista, declarou:

“Eu fiquei pau da vida com o Gonzaguinha porque aquela história era minha, eu deveria ter sido até parceiro dele na música. Eu falei: Puta que pariu, Gonzaguinha, então eu te conto uma história de minha cama e você dá a música para a Bethânia gravar!?”

A música foi um tremendo sucesso na voz de Maria Bethânia. Timóteo gravou também a música, que na voz dele passou meio despercebida no álbum “Deixe-me viver”, de 1979.

Curioso também que são cantores absolutamente díspares, quase antagônicos, em estilo, público e repertório. Mas eram amigos, tanto que Timóteo, ao longo de sua carreira, gravou outras músicas de Gonzaguinha….

publicadooriginalmente em 25 abril 2010 01:28 , em MPB

Publicado originalmente em abril de 2010.